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ACASO, COINCIDÊNCIA E NARRATIVA

Published: Sep 16, 2007 - 12:20 PM

Nei Duclós



Por pura coincidência (ou seriam os deuses do Acaso?) vi dois filmes seguidos sobre o mesmíssimo tema, apesar de, nos créditos e no Google, não existir ninguém que tenha falado que haja ligação entre eles. Um é A Ponte de São Luís del Rey e outro Eterno Amor. Cada um é baseado num autor diferente. O primeiro, no ganhador do Pulitzer Thornton Wilder, que lançou seu livro em 1927. E o outro no livro de Sébastien Japrisot. O argumento é idêntico: cinco pessoas condenadas se encontram juntos no mesmo lugar para morrer. Quem são elas e por que estão lá? pergunta o narrador/investigador da Ponte de São Luis Rey, um padre que está sendo julgado pela Inquisição. Quem são essas pessoas e será que uma delas sobreviveu? pergunta a narradora/investigadora de Eterno Amor. Destino é a chave para decifrar a charada. A trama é a busca de respostas, que surgem a partir do resgate de cada uma das cinco vidas.



TRINCO - O que é uma coincidência? Você coloca a mão no trinco e sente que a porta tem vida própria. Ela está se abrindo praticamente sozinha, impulsionada por uma força fora de você. É que no mesmíssimo instante, alguém colocou também a mão no trinco, do outro lado da porta e as duas pessoas se vêem uma diante da outra, a se perguntar: porque ela teve a mesma necessidade, a mesma idéia e o mesmo impulso no mesmo exato momento? Bem, isso tem que acontecer de alguma forma, diz o Calculador de Probabilidades, que nada mais é do que o Inquisidor Científico Anti-Acaso. Magia, sinal, destino, dirá o Esotérico, que nada mais é do que o Procurador de Coincidências Reveladoras. A coincidência é isso mesmo: a porta entre os mundos, quando o caos encontra um ponto em comum e, a partir daí, uma saída. Foi Deus que decidiu punir as cinco pessoas que caíram da ponte? O noivo da mulher que vai atrás de respostas está realmente vivo? Por que ele deveria sobreviver e os outros, morrer? Por que as cinco pessoas, de vidas tão distintas, estavam juntas naquele lugar?



FRANÇA - Eterno amor foi incendiado pela crítica brasileira, a Demolidora Genocida. Por uma simples razão: o diretor, Jean-Pierre Jeunet, repetiu a dose do seu mega-sucesso Amélie Poulin, ao escolher a atriz Audrey Tautou e optar também por um filme quase todo narrado. É o seguinte: o cara pegou todo mundo de surpresa com um filme maravilhoso, encantador, um anti-blockbuster total, feito de emoção, amadurecimento, poesia, tudo regado com a música (sumida) e essa língua sem igual que é o francês. Aí as massas acorreram ao cinema. A crítica brasileira ficou mordida. O cara estava fazendo muito sucesso. Esperou o passo seguinte.



OBRA - O sujeito repetiu a dose, quer fazer o mesmo sucesso, repetiu-se? Ódio em cima dele. E essa negação não passa de uma bobagem. Jeunet é um autor com uma obra, tem o direito de fazer uma seqüência de filmes do seu jeito, como acontece com todos os grande cineastas. Era só o que faltava: os sem-noção quererem ensinar cineasta a fazer filme direito! Eterno amor é magnífico, inacreditável de tão bom. Tem performances estupendas, desde Audrey até a ponta feita por Jodie Foster. Só vendo para crer.



CAOS - Em a Ponte, até que o canastrão Robert de Niro está bem, talvez porque faça um arcebispo histriônico, que é bem do seu feitio. Mas lá estão Kathy Bates, arrasadora como sempre, e Harvey Keitel, um ator didático, que descreve seus personagens enquanto atua. O filme é de Mary McGuckian e parece confuso no início, difícil de entrar nele, pois não sabemos as intenções dos autores. Mas a idéia é essa mesma: ao resgatar a vida das pessoas que caíram da ponte, o narrador pontua um tribunal com sua narração fragmentada, caótica. Aos poucos, a história vai se afunilando até fazer sentido completamente. O padre queria saber os desígnios de Deus no episódio, para reforçar sua fé; a noiva queria saber se o noivo estava vivo, para continuar vivendo.



NÓ - A presença de cinco pessoas diferentes no mesmo local e hora é o ponto nodal de narrativas que se desdobram ao infinito quando vão para o passado, e resultam numa síntese no desfecho. Foi o acaso, a coincidência que decidiu a parada, ou há algo maior e mais complicado por trás de tanto mistério?
 

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