News
AGOSTO ATÍPICO
Published: Aug 19, 2007 - 09:00 AM
Nei Duclós
É arriscado dizer que agosto parece humano depois da
sordidez dos meses anteriores, em que mergulhamos no mais tenebroso
Inverno. Vai que o tempo vira de novo, ou que, Deus nos livre, algum
outro gênio morra. Houve até a morte providencial de Ingmar Bergman e
Michelangelo Antonioni um pouco antes da chegada do mês fatídico (ou
teria sido seu prenúncio?).
Talvez este agosto
tenha traído sua natureza e resolveu provar que a implicância contra
ele não deveria existir. Há perda em qualquer época do ano. Por que
acusar agosto de crimes que em todos os meses se cometem? Por que
sentir saudade de janeiro, quando sabemos que é tempo de inundações e
tempestades? Por que celebrar fevereiro se o país pára e as estradas
ficam coalhadas de acidentes?
E julho, mês de
férias, com seus apagões aéreos? Por que ansiar por setembro, se
sabemos que a tragédia não escolhe data nem o amor exibe algum capricho
sazonal? O que dizer de novembro, então, com suas torres despencando em
milhões de pedaços? Por que culpar agosto quando existem tantos
candidatos à condenação?
Identificar os meses
selecionando eventos que tracem seu perfil, gerando assim definições
impostas, baseadas em evidências aleatórias, é mais uma herança da
astrologia popular do que da realidade. O álibi é que qualquer defesa
feita poderia escorregar em algum grande terremoto.
Ter
perdido tanta gente brilhante em agosto não significa nada quando
sabemos que Charles Chaplin se foi no Natal. Para quem teve uma
experiência dolorosa num mês qualquer, a passagem por agosto pode até
ser um alívio, por não lhe trazer nenhuma lembrança pesada. Talvez
fosse o caso de fazer com que agosto assuma outra vestimenta.
Poderíamos inverter a má fama escolhendo agosto como o mês do balanço,
já que o ano custa tanto a começar.
Depois das
festas da virada do ano, do Carnaval e da Páscoa, dos recessos
parlamentares e das leis adiadas, depois que se esgotam as desculpas
dos governantes, das dietas e das mudanças que nunca são levadas a
sério, chegaria uma época, exatamente este mês tão pouco considerado,
em que mergulharíamos coletivamente numa reflexão sobre o que estamos
fazendo com nossas vidas.
Seria a chance de
provar que o acaso não é determinante dos destinos, que nossos rumos
poderiam sofrer a influência do que matutamos, debatemos, definimos.
Poderíamos escolher agosto como o mês em que as palavras voltam ao seu
leito normal e nomeiem as coisas e os eventos sem o brilhareco das
ilusões ou das falsidades. Agosto seria então aquele vale, não de
lágrimas, que delas nos servimos em qualquer tempo, mas de um olhar
mais atento ao que somos.
Seria o ambiente ideal
para decisões mais profundas, que nos atinjam em cheio. Pois vamos o
tempo todo empurrando para frente o que sabemos ser fundamental para
nós. Um dia, quem sabe, costumamos dizer, mentindo por dentro. Pois se
escolhermos agosto para a tomada de posição, quem sabe esta seria uma
época aguardada com alegria, ano após ano, em que poderíamos somar
vitórias no lugar de temer represálias do destino? Teríamos assim
motivos de sobra para celebrar agosto.
Esperaríamos
sua chegada como o momento decisivo em que não teríamos mais motivos
para deixar as coisas para mais tarde. Seria o rito de passagem não
para o final preguiçoso do ano, mas para o nível ao qual sempre
aspiramos. Esse nível nada tem a ver com status ou glórias, mas com o
que queremos fazer, gostamos de fazer e sabemos que isso é o que nos
tornará completos.
Podemos até torcer que uma
idéia assim, jogada a esmo como semente em território incerto, não
fique para trás, como costuma acontecer. Pois qualquer proposta passa
antes pelo corredor polonês das críticas e desconfianças. "Ora, mas
isso não vai dar certo. Já pensaram antes e o que aconteceu?" Dúvidas
assim seriam a primeira prova. Os outros meses agradeceriam.
Principalmente dezembro, que ficaria assim livre apenas para as festas.
Certamente haveria menos choro no Natal e Ano Novo, já que as grandes
decisões foram tomadas em agosto.
Haveriam
brindes de verdade, sem o peso amargurado dos balanços de fim de ano.
Pois agosto, como um mensageiro que traz a boa nova, teria dado conta
do serviço.

