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ANTHONY QUINN, O BRUTO QUE AMA
Published: Nov 13, 2005 - 09:46 AM
Nei Duclós
Empurrado para papéis subalternos, devido à sua origem (mexicana com
irlandês), Anthony Quinn confirma o que me disse Miguel Ramos: não
existe papel coadjuvante. Basta vê-lo em Viva Zapata (papel que lhe
valeu o primeiro de dois Oscar), onde convence que é irmão de Marlon
Brando; ou em Lawrence da Arabia, quando dá aquele bocejo espreguiçado
ao lado do reflexo da lua cheia, ou quando mantém uma negociação
guerreira memorável com Peter O'Toole antes da invasão de Akaba.
Quinn é o bruto que se arrepende de não ter demonstrado seu amor. Isto
está explícito em La Strada, de Fellini, quando ele, Zampano, descobre
que a maldade era apenas uma máscara e que no fundo jamais poderia
viver sem ela, Giuleta Masina, que tinha se ido para sempre. Se existe
solidão verdadeira no mundo, esta é a de Quinn na praia desolada, no
final do filme, onde se comporta como o lobo que uiva para o caos. Em
Duelo de Titãs, faroeste de John Sturges de 1959, ele é o malvado que
se arrepende, na hora da morte, de não ter criado direito o filho
assassino. O que significa essa queda, essa reversão da caratonha, essa
lágrima que sai a muito custo, depois que tudo está perdido? O que é
Anthony Quinn, o ator que nos assustou com sua gargalhada vinda de uma
gruta?
MESTIÇO - Quinn é o bruto que ama. Ele encarnou o papel que lhe
impuseram, o do mestiço ameaçador num mundo de branquelos. Fez isso
como ninguém, em inúmeras bobagens, especialmento no início de
carreira. Acabou conquistando a filha de Cecil B. De Mille, Katherine,
um dos seus três casamentos. O bruto tinha charme e, o que era mais
importante e que poucos viam, inteligência que valorizava o talento.
Tinha carisma, mas isso não lhe bastava. Ele precisava introjetar
aquela persona maldita, dar-lhe vida verdadeira, dizer que era um ser
injustiçado, capaz de uma reação violenta, de um gesto que mudasse o
destino. Seu sobrolho era o sinal de que a rocha produzia pensamento.
Mas isso também não era suficiente. Quinn também precisava mostrar que
para ser humano não precisava posar de galã nem fingir que era uma
criatura privilegiada pela riqueza ou a raça. Poderia ser alguém do
povo, conformado e fatalista e que oferecia seus serviços a um inglês
empolado. Visto assim, esse interpretação poderia ter tudo de
caritcatura, mas ele nos deu Zorba, o Grego, sua melhor performance.
Ele inventou aquela dança, que tornou-se marca registrada da nação que
representou. Nunca se viu isso antes. Vimos ao vivo como se constrói o
folclore, que sempre foi uma ciência de letrados que reinventam as
manifestações populares.
Quinn inventou a marca registrada de um povo. Quem não é do ramo, acha
que aquilo é Grécia pura. É porque Quinn assim decidiu. Esse é o
criador magistral que de 1915 a 2001 passou pela terra como uma
tempestade no deserto.
VULCÃO - Hoje, quando vivemos a época da idiotia cultural, em que só há
maldade pura e simples (porque os politicamente corretos querem ser
verdadeiros), em que tudo é pão-pão-queijo-queijo, em que atores e
atrizes são produzidos em massa pelo mercado da carne da moda e da
televisão, tempo de metrossexuais e gângsters em todos os negócios,
Anthony Quinn se sobressai como a imagem completa de uma arte que não
sucumbiu às imposições do tempo, apesar de fazer parte dele (ninguém
está na frente ou atrás da sua época). Sua sofisticação se agiganta
diante dos maneirismos cool da atualidade, em que todos se parecem e
nada tem mais do que um milímetro de profundidade.
Quinn fechava uma geladeira com os pés, batia em todo mundo, rosnava, e
foi assim que mostrou todas as nuances do humano, sem se render à
pasteurização, à modorra. Ele era um lugar comum: um vulcão em cena.
Contracenou com todos os grandes atores e tornou-se um deles. Duvido
que seus parceiros de tela não tremessem diante da sua fúria. Foi assim
que ele tornou-se inesquecível, com seu grande coração oculto sob uma
avalanche de granito.

