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AQUELE RÁDIO INESQUECÍVEL
Published: Jun 20, 2007 - 03:17 PM
Nei Duclós
Meu maior presente de aniversário, num longínquo outubro
de 1958, foi um potente e pequeno rádio de cabeceira Phillips Mullard,
que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as válvulas
esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade construída no meio
do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena
até chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha vocação para
o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela música.
OURO
PURO – Minhas estações favoritas eram: a Bandeirantes, onde
pontificavam grandes radialistas, como Walter Silva com seu Bóssessenta
e cinco, que no início da tarde não só tocava música brasileira da
melhor qualidade, como trazia grandes intérpretes e músicos para
entrevistas; e a Tupi de São Paulo, onde Fausto Canova me ensinava jazz
das 11 à meia noite. Mas gostava também da Guaíba de Porto Alegre, que
não tinha (não sei se agora tem) propaganda gravada e era uma escola de
locução; a rádio Jornal do Brasil, com sua majestade de grande
emissora; e a rádio São Miguel, de Uruguaiana, que tocava de manhã à
noite só bossa-nova e a partir das 21 horas a maravilhosa música
italiana, que sumiu para sempre, levando para o éter infinito melodias
e cantores e cantoras sem igual. Adorava música francesa, de Edith Piaf
a Jacques Brel, música mexicana de verdade (não essa gritaria de hoje,
mal assimilada pelos pseudo-sertanejos), boleros, tangos, samba-canção,
música romântica americana. Havia melodia, ritmo, harmonia. Tudo isso
antes da hecatombe mundial da cultura, conhecida como rap, que é
agressão pura e simples, como se o pobre ouvinte precisasse pagar
pedágio por todas as injustiças. Havia a rádio Nacional de Montevidéu,
que só tocava música clássica, a rádio General Madariega de Paso de Los
Libres, na fronteira da Argentina, que tocava o folclore do país,
maravilhoso, especialmente os hilários chamames, dramáticos e rascados;
a rádio Belgrano de Buenos Aires, retrato da civilização do Prata, que
estava no auge. Mas havia mais, muito mais.
TODAS
AS LÍNGUAS - Escutava as transmissões em português da rádio Pequim, da
rádio Moscou e da Voz da América, que tinha vozes maravilhosas como
Leonardo de Castro e Gaspar Coelho. Havia também a BBC de Londres, que
gostava de escutar em inglês, mas tinha também transmissão em língua
pátria. As ondas curtas eram maravilhosas, o sinal ficava claro como o
dia, de repente sumia, para voltar daí a segundos. Eram assim as
transmissões esportivas. Na minha cidade, escutávamos a Cadeia
Verde-amarela Norte-sul do País, com Fiori Gigliotti, da Bandeirantes,
mas tínhamos também radialistas maravilhosos, como Mario Pinto
(cronista da cidade), Mario Dino Papaléo (recentemente falecido, com
todas as merecidas homenagens), Degrazia (o maior narrador esportivo do
mundo) e o excepcional João Carlos Belmonte, que ganhou prêmios de
melhor repórter de campo em três copas do mundo trabalhando para a
Guaíba (sim, todos são de Uruguaiana). Esses radialistas da terra
faziam parte da dinâmica Radio Charrua, totalmente baseada na clássica
Radio Nacional, do Rio , inclusive com programa de auditório e produção
própria de radionovelas. Posso garantir: o jogo de futebol era melhor
escutado do que visto hoje, quando pernas de pau judiam da bola, como
aconteceu nos falsos clássicos.
Os meninos dos
anos 40 e 50 (época do nosso estadista maior, Getúlio Vargas),
aprendiam futebol na escola, na rua, no campinho da esquina. Tão
simples assim. Sobrava craque para todo lado. Para se destacar, só
sendo um Pelé. Garanto que o primeiro time do Colégio Santana, com
Abeguar à frente, daria de 10 a zero no atual Corinthians. Sem falar em
Paret (do EC Uruguaiana) Xirunga (do Sá Viana), Nick (do Ferrocarril),
Altamir (que só tirava a bola da área de puxeta, com estilo) Ademir
(irmão de Abeguar) e os grandes goleiros Barbosa (que só dava voadora)
e Nicanor (que um dia adiantou-se demais, mas voou de costas,
virando-se no ar para cair com a bola encaixada). Esse era o Brasil de
Getúlio Vargas, o estadista mais caluniado de todos os tempos.
JOGOS
– Naquela época, eu me recostava na cadeira preguiçosa para olhar o
céu, contar satélites que passavam e ver estrelas cadentes, além do
lento subir e descer da lua. Todos na minha casa tinham direito a uma
cadeira preguiçosa. Apagávamos as luzes para ver melhor as estrelas
(isso depois de um crepúsculo no rio Uruguai encantador) e ligávamos a
eletrola Hi-fi da sala, onde tocávamos nossos discos, de Luiz Gonzaga a
Liberace, de Os Gaudérios a Trio Los Panchos (“Pasarán más de mil años,
muchos más”). Hoje, quando o grande compositor José Gomes, arranjador e
maestro, que ajudou a fazer de Os Gaudérios um dos maiores fenômenos
musicais do Brasil, provocando uma revolução que infelizmente não teve
continuidade, coloca música em dois poemas meus, fico pensando na magia
no mundo.
Escrevendo para nosso conselheiro
editorial Moacir Japiassu, abordei um tema muito comum naquela calçada,
a brincadeira do diabo rengo. Rengo, naquelas lonjuras, quer dizer
coxo. A brincadeira se dava assim: uma fileira de crianças tentava
passar para o outro lado (da rua, da calçada) mas tinha que driblar o
diabo rengo, ou seja, aquele outro que, com uma perna levantada (para
aumentar a dificuldade e portanto, a graça) tentava pelo menos tocar em
algum dos passantes para livrar-se da maldição e transferir para o
atingido o papel de diabo rengo. Quando conseguia, o antigo diabo então
somava-se aos felizes cruzadores, que de um lado para outro
divertiam-se em não ser o condenado pegador. A complexidade de uma
brincadeira tão simples é arrebatadora. Há uma condenação no meio do
caminho na figura de um demônio. Mas este tem uma desvantagem: não
consegue alcançar ninguém se não se esforçar muito, pois tem uma só
perna funcionando. Ou seja, só se a pessoa que tenta chegar ao outro
lado da vida prevaricar muito será alcançado por um pobre diabo. Se
cair na armadilha, por distração, falta de velocidade ou de estratégia,
assumirá toda a herança bandida. Será sua vez de tentar agarrar um
inocente para conseguir sair do seu inferno.
O
que espanta é a radicalidade do jogo. Não existe duplo papel simultâneo
dos figurantes: ou você está livre, ou está condenado. Se estiver
livre, precisa correr, driblar, aproveitar as brechas para poder
passar. Se não for ladino o suficiente, ou corajoso, será agarrado pela
terrível maldição. Então, ao se transformar no indigitado, livrará o
outro da sua impostura, libertando-o para a inocência. Há queda, mas há
perdão. Há rodízio democrático de papéis.
Simplesmente
uma maravilha. Um verso de um poema meu, "não há como enganar o diabo
rengo" aborda essa maldição: há tempos, fomos condenados, não
conseguimos passar para o outro lado, cumprir nosso destino. Só há um
jeito de mudar a situação, e nós sabemos qual é. Sendo o mais eficiente
cruzador, o mais bravo, o mais clarividente, o mais lutador. E o que é
mais importante: contando com a solidariedade alheia, pois se não
houver amigos para distrair o perigo, não há como enganar o diabo
rengo. Depois que você cruza, você precisa voltar de onde partiu e
enfrentar de novo o problema. A vida é feita dessas corridas de um lado
a outro, junto com os companheiros, a família, vencendo a sombra que se
atravessa. Naquele tempo, a brincadeira tinha hora de acabar. Hoje, não
temos a mesma sorte: não há recreio no acampamento de guerra. E o que é
mais grave: não dispomos mais de todo o tempo do mundo. Perdemos o que
é extremamente valioso e insubstituível: a eternidade nas nossas vidas.

