News
ARQUELOGIA NO DESERTO
Published: Mar 03, 2007 - 09:59 AM
Nei Duclós
Não são os vestígios que importam, mas suas fontes humanas. A
arqueologia não deveria se ocupar das ruínas, mas do esplendor das mãos
anterior a elas. Isso poderia tirar do estudo do passado remoto sua
roupagem funerária, sua obsessão por túmulos, suas descobertas que se
transformam em museus suntuosos. Descobrir um gesto numa fogueira
extinta é mais importante do que ver imobilizado um trono de ouro
acompanhando múmias.
A função civilizatória da arqueologia não é o deslumbramento
provocado pela precocidade dos ancestrais, mas enxergar o que qualquer
civilização esconde quando for comparada ao verdadeiro enigma, a
natureza. O que faz o projeto esquecido de uma pirâmide no alto da
montanha? Qual o sentido de uma cidade industrial americana colocada ao
lado do Grand Canyon? Esses eventos poderão revelar toda a fuligem,
precariedade, escândalo e horror que acompanham a modernidade?
É disso que se ocupa Henry Miller no seu clássico livro de viagens,
Pesadelo Refrigerado (tradução de José Rubens Siqueira, Francis, 320
páginas, R$ 42), um trabalho arqueológico que despreza os vestígios, a
não ser que sirvam para provar sua tese sobre a sujeira da América. Ao
detectar a origem do pesadelo - o divórcio entre homem e natureza no
país que despreza a arte e a cultura - ele vai atrás do tesouro
verdadeiro oculto a quilômetros abaixo das aparências: os gênios,
anônimos ou simplesmente desprezados e perseguidos, que fazem a
grandeza da sua época e que passam despercebidos pela brutalidade de
uma nação que aposta nas vantagens da guerra. Esta, já estava
desencadeada na Europa na época em que foi escrito o livro, mas ainda
não havia o engajamento, vislumbrado como iminente, do governo
Roosevelt, em 1941.
Miller costuma acertar porque não faz concessões, como comprovam
algumas frases ciscadas (e colocadas aqui em seqüência, para destacar a
contundência de suas análises e profecias) no seu percurso pelo país
que o assusta o tempo todo: "Neste mundo, o poeta é anátema, o pensador
um tolo, o artista um alienado, o homem de visão um criminoso. O pior
sofrimento é o que se encontra no próprio coração do progresso. Todo o
mundo branco se transformou em um campo armado. Vamos aprender a
aniquilar o planeta inteiro num piscar de olhos - espere só para ver".
Diante do pesadelo, que é o país deserto e insuportável, os gênios
pontuam a trajetória do autor envolvendo-o em passeios, conversas,
evidências. Inspirado nas palavras de Swamii Vivekananda, o primeiro
grande difusor das idéias espirituais da Índia no Ocidente e que fez
grande sucesso na virada do século 19 para o 20, Miller aposta nas
mentes ocultas, naquelas criaturas que transformam o mundo e jamais vêm
à tona, ou quando são vistas, todos fingem não enxergá-las.
Assim, convivem no mesmo espaço de revelações profundas tanto o
morador do deserto, homem simples e isolado, que ensina os arqueólogos
sobre os verdadeiros motivos de uma tragédia ocorrida milhares de anos
antes, quanto pintores considerados fundamentais, como John Marin e
Marion Souchon. Revolucionários do som ordenado que mudaram
radicalmente a percepção da música, como Edgar Varèse, são vistos com a
mesma grandeza de um velho mecânico que fez o Buick do autor cruzar
infinitos espaços sufocados por altas temperaturas.
Não se trata, entretanto, de um livro de viagens exótico ou
"esnobe", como dele disseram na imprensa brasileira. Por ser radical,
por colocar os gênios como milagres que desafiam uma cultura
autodestrutiva, Miller provoca o desconforto habitual da fornalha da
sua escrita. O leitor não faz uma viagem agradável pelas paisagens
físicas e humanas de uma América deslumbrante e aterradora. Não se
trata de um livro para confirmar a hegemonia de algo irreversível ou
para entreter quem quer que seja. É obra de arte, no que isso tem de
mais provocador e gratificante. Mesmo escrito há mais de 60 anos, serve
para gerar uma nova visão do país que emergiu da guerra como se fosse o
paradigma de uma civilização futurista e nada mais é, segundo o próprio
Miller, do que o final de um processo que está destinado a desaparecer,
fruto de suas próprias contradições.
"O estilo americano é seduzir o homem por meio da propina até
torná-lo um prostituto", diz Miller, para não deixar dúvidas sobre o
pseudocharme da civilização hoje vitoriosa no mundo. Ao ser lido depois
que todas as suas suspeitas e certezas sobre o que via se confirmaram,
entraram em ascensão irresistível e agora chafurdam nas areias do
Iraque, Henry Miller, com Pesadelo Refrigerado, encerra o melhor das
profecias, que são as percepções colhidas no início dos acontecimentos,
quando estes se encontram em estado quase latente em relação ao que
poderão desenvolver. A América prestes a entrar na guerra
intensificaria todos os seus erros e disseminaria pelo mundo a adoração
pelo dinheiro. Isso incomodava na época e hoje é mais atual do que
nunca.
A guerra faria a civilização americana chegar ao auge, mas a França,
na época sob o tacão nazista, não seria destruída, segundo Miller. A
França é o contraponto ao pesadelo refrigerado e seu modelo são os anos
1930, quando Miller rodou por Paris e produziu suas grandes obras, como
Trópico de Câncer. A viagem pelo país dilacerado provocava, nos
detalhes, como ensinava Proust, um retorno às raízes da emoção do
autor, fundamente fincadas nas paragens francesas. Suas madeleines - o
doce que desencadeia a memória afetiva em Proust - em Miller são os
detalhes de um passeio, uma conversa aleatória.
O que mais encanta no livro é a aguda visão do escritor dos lugares
por onde anda sem os óculos do turista inconseqüente. Debocha dos
comentários vazios dos que precisam devorar a paisagem amparados pela
incultura onívora e chama a atenção para o chão púrpura da hospedaria
onde uma turista entediada reclamava do crepúsculo, suave demais para
quem precisava enxergar o sol como se fosse uma gigantesca omelete.
Literatura de combate sem ser de guerra, este é um livro que
escancara a individualidade necessária nesta época em que tudo se
parece, como se estivéssemos numa viagem tediosa por lugares famosos. O
que é sagrado para Miller é essa abordagem única de um espírito livre,
que, por sua altivez e profundidade, nos ensina mais do que nos
deleita, e nos estoca para uma vida mais sincera e habitada. Sua
arqueologia atinge o coração das trevas e de lá retira algo que está
vivo e não se deixa morrer, mesmo que a guerra pareça interminável.

