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AS VERDADES DEFINITIVAS
Published: Jun 02, 2007 - 06:53 PM
Nei Duclós
Guardamos como tralha no quarto de despejo nossas
verdades definitivas. Exauridas de tantas certezas, elas guardam um
remorso, uma indignação, uma incompreensão que só a nós pertence. De
vez em quando as retiramos do baú para expor nossa escassez teórica,
brandida como algo irreversível. Ninguém dá bola para o que
acreditamos. O que dizemos por um tempo nos parece original e profundo,
mas depois vemos nossa obra disseminada e distorcida em inúmeras
manifestações. Ficamos então nos perguntando: o que viemos fazer nesta
passagem pela terra? Qual nossa contribuição? Nem deveríamos ter vindo,
tanta é a indiferença e tantas são as provas desta precariedade.
Na
literatura a dúvida nos ronda como um cão. Ele vem rosnar a nossos pés
enquanto procuramos o caminho não trilhado. Passamos ao largo, como
brigue mal visto em qualquer porto. Por isso, com as velas rebentadas
de vento, nos deixamos levar pelas correntezas até o fim do mundo. Não
há ilha que nos receba, não há navio que nos recolha, não há Netuno que
suba na onda mais alta para nos vislumbrar.
Nos
agarramos a um tonel de verdades acumuladas e com ele boiamos até a
exaustão final. As sereias cantam para ninguém. Ulisses está olhando o
horizonte e some entre os sargaços. Do tonel fazemos um tambor e nossa
voz rouca imita o som dos berrantes. Um leão marinho egresso das
geleiras está navegando um iceberg e parece que seu desespero é o eco
de nossa voz. Desesperados, pedimos socorro. Então novamente as tribos
do Mal cercam nosso corpo ferido e tiram mais um pedaço. Levam para
seus rituais e incorporam o que era somente nosso à poeira estelar que
forma o mundo pelo avesso. É uma longa viagem, meu irmão.
Quem
disse que poderíamos imitar os deuses e fazer parte da Criação?
Reproduzimos as gerações que povoaram a terra e nenhum rebento
iluminado irá resgatar o que tentamos fazer neste ofício sem dono,
espalhado como roupas de um varal que se partiu, no campo minado da
brutalidade do Tempo. A metáfora é nosso refúgio, mas ela tem um rasgo
no teto bem acima da nossa cabeça, e por ele se infiltra a tempestade
interminável. Sonhamos em fazer parte do corisco que ilumina a noite e
tentamos provar que somos também o trovão que atordoa o espaço. Mas em
vão, somos o Silêncio, aquela palavra muda que nos acompanha desde a
infância.
Para quê, meu Deus? Curvado pelo peso
da idade, arrastamos os pés em corredores infinitos. Levamos embaixo do
braço um poema perdido, um conto esdrúxulo, uma crônica datada. Batemos
numa das portas envernizadas e ela se abre de maneira sinistra. Não há
móveis dentro daquela sala e alguém lidera a tarefa dos carregadores.
Eles estão dobrados sob o peso de coisas inexistentes. Estão, no fundo,
arrumando nosso quarto de badulaques. Lá depositam algumas frases,
alguns versos, trechos mal costurados de romances inacabados.
Fico
então só cercado pelo que me restou. São as verdades definitivas que
deveriam nortear minha vida. Não consigo abrir a tampa da caixa,
arrancar a porta do armário, despencar o que se gruda no teto. Está
tudo no seu devido lugar e me deixo ficar no piso de parquê vencido. Os
tacos estão carcomidos e se tento caminhar sobre eles acabo arrancando
peças do lugar, derrubando cestas cheias de miudezas. As sílabas se
entretém se desmanchando sob uma goteira. Eu estava guardando esta peça
para minha permanência, mas ela não dura até a próxima guerra.
Será
tudo destruído por um míssil perdido. Irei junto, galopando o cometa da
minha perdição. Não deixo cartas, deixo esse esforço de ser uma
presença no planeta já resolvido antes e depois de mim. Nem mesmo
quando visitarem as ruínas dos templos abandonados verão que me escondo
sob uma enorme pedra. Lá ficarei, como um fio de cabelo amassado, um
fóssil indecifrado, uma célula estéril.
Tanta aventura e nenhuma sinfonia que vibre no chão mortal da eternidade.

