Até Breve, Senhor
maio 13th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: Memórias, Redação sem MáscaraMorreu nesta semana a revista Senhor, exatamente dois domingos depois que o seu primeiro Diretor da Redação, Múcio Borges da Fonseca, deixou o jornalismo, isto é, a vida. Múcio assumiu a direção da Senhor quinzenal em julho de 1981, com duas pontes de safena. Soprava no seu bater compassado de palmas, repetindo sem cessar: “Vamos fechar, vamos fechar.” Avançávamos a madrugada implantando um projeto editorial que procurava veicular a repentina vocação democrática do empresariado brasileiro, tardiamente revelada depois de décadas de arrocho. Múcio contava com um punhado de colaboradores e enfrentava as dificuldades naturais do nascimento de uma revista, numa imprensa de alta mortalidade infantil.
Em fevereiro de 1982, Múcio passou o bastão para Mino Carta transformar a Senhor semanal na mais importante e influente revista do país. Mino tinha vindo da traumática perda da IstoÉ e optou por uma direção austera e moderna, até hoje não imitada pelos seus pares. Eliminou a figura do “maçaneta” de redação, ou seja, aquele jornalista iniciante que a preguiça dos veteranos envia para escrever inúteis relatórios. Toda a redação pautava, editava, redigia, reportava. Cada jornalista responsabilizava-se por uma parte substancial da revista e era cobrado como se fosse uma equipe editorial inteira.
Mino Carta convocou para a Senhor os nomes mais significativos do empresariado, da política e da universidade. Pela primeira vez, os patrões manifestaram-se favoravelmente às teses fundamentais da modernidade, como a participação dos lucros, a co-gestão, o direito à greve. Senhor ajudou a soprar os fantasmas acumulados na ditadura. Foi uma voz pioneira – e por um tempo, solitária – da imprensa a evitar o rancor ideológico e a incentivar as eleições diretas para a presidência e o pacto social.
De 1982 a 1988, foram longos anos de dentes cerrados. A redação não podia falhar – estávamos todos exaustos de projetos assassinados, de equipes dissolvidas, de demissões, exílio e morte. Queríamos que Senhor vencesse a parada. E foi o que aconteceu. Com o sucesso da revista, a Editora Três comprou seu parque gráfico e finalmente recuperou a IstoÉ, revista que tinha agonizado nas mãos da Gazeta Mercantil.
Descobrimos agora que Senhor serviu de ponte para esse resgate. Fez com que a IstoÉ voltasse aos seus legítimos donos, mas isto custou-lhe a vida. A partir dessa semana, ela deixa de ser o título inoportuno, que sujava o visual de sua companheira, agora cheia de vida. Cumpriu integralmente seu destino, mas este não reservou-lhe a permanência.
Nós, que um dia fizemos parte daquele esforço, nos tornamos órfãos de nossa própria biografia profissional. Senhor nos escorrega das mãos junto com o sorriso criado em Bom Jardim, Pernambuco, de Múcio Borges da Fonseca. Nos pesa o silêncio geral em relação a esse projeto seminal da imprensa brasileira, que já não pertence mais aos seus proprietários, mas à História, aos seus criadores e colaboradores – jornalistas, leitores, empresários, professores. Faz parte de nós, como um parente morto.
Mas ao contrário das pessoas que perdemos, uma revista tem o poder de um dia retornar com vida. Não é a primeira vez que Senhor morre. Não será a última.