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BABEL, DE IÑÁRRITU E ARRIAGA

Published: Jun 12, 2007 - 04:41 PM

Nei Duclós



A indústria do cinema nos confunde. A maioria de suas produções são asneiras, ditadas pelo marketing criminoso. Filmes que podem ser sintetizados pelos protagonistas andando ou correndo em direção às câmaras enquanto, atrás deles, uma barreira de fogo inunda a tela. Bobagens fruto da mente crua dos produtores, que apostam na imbecilidade do público. Depois vêm os filmes encomendados. Vários lobbies participam desse vetor cinematográfico: a CIA, o FBI, o serviço secreto americano, a Marinha, o Exército, os advogados etc. pagam por fora para que atores, diretores e roteiristas obedeçam (às vezes, convictamente) aos ditames das corporações. Não é teoria da conspiração: veja como tremem de emoção os atores encarnando a repressão do Império. A emoção vem da grana preta que levam, não das convicções ideológicas.



Para se opor a essas barbaridades, nasceu e cresceu o cinema alternativo, que se alimenta do experimentalismo, dos grandes mitos do cinema do passado e da necessidade de romper barreiras econômicas e políticas para chegar ao público. Quando o cinema é de Alejandro Gonzáles-Iñárritu e do roteirista Guillermo Arriaga, que tinham já nos dado dois grandes filmes, Amores brutos e 21 Gramas, o alternativo migra para a grande indústria. Os dois gênios mexicanos chegam agora ao absoluto esplendor com Babel, o filme que não cabe num resenha, pois ousa participar da espiral de formação da obra humana que procura atingir a a divindade. Soa exagerado? Sim, ainda mais quando se sabe que tem Brad Pritt na parada.



Tudo não passaria de uma enorme campanha publicitária a favor de grandes astros, grandes produções, grandes coisas. Mas não é. Trata-se de uma obra-prima. É um filme sobre pais e filhos, um mergulho radical no mundo reunido na mesma torre, a indústria da comunicação, que enfeixa poderes e exclui povos e gerações. Você já viu, fora da pornografia, algum filme sério sobre adolescentes japonesas surda-mudas com grande gana sexual? Ou um filme em que essas adolescentes estão ligadas a um pequeno episódio no interiorzão do Marrocos que acaba virando um case internacional? Duvido que você tenha visto um casamento mexicano, testemunhado por duas crianças americanas, com desfecho trágico no meio do deserto da fronteira, do jeito que é narrado pela dupla de gênios.



Pois esses episódios estão ligados na já célebre arte dos dois de cruzar as seqüências de maneira demolidora, para que o espectador não se acostume à linearidade narrativa, que no fundo não passa de imposição de idéias e comportamentos. Tem muita gente metida a espertinha fazendo estripulias nas câmaras e tentando ser o que não são, achando que experimentam, mas não passam de redundantes. Um filme burro que vi esses dias trouxe o diretor D.J. Caruso se definindo como um misto de Hitchcock com John Cassavetes. Cate-se, bobalhão. Iñarritu e Arriaga, ao contrário, têm pleno domínio dos seus ofícios.



Eles conseguem ser cada vez mais contundentes na montagem narrativa. Desta vez, em vez do cruzamento caótico de situações, há uma composição seqüencial definida por cenas chaves, que delimitam os trechos, ou capítulos, da história. A partir desse tipo de cena, se desenrola em flash black, os acontecimentos que deságuam nela. Isso é feito de maneira segura, levando o espectador à complexidade das relações entre pessoas, governos, povos e nações. O detalhe é que a dupla cinematográfica não aposta no tiroteio desenfreado, nos personagens irreais de valentões e covardinhos. São pessoas comuns envolvidas em detalhes que se apresentam, por força das idéias fixas e dos interesses em jogo, como grandes trapalhadas globais, capazes de gerar ainda mais injustiça.



É absolutamente tocante a interpretação dos atores. Brad Pitt, um quarentão detonado, precocemente envelhecido, faz o pai arrependido de ter deixado as crianças em casa enquanto procurava uma saída conjugal com sua esposa, interpretada por Cate Blanchet. Esta, é o retrato do desespero diante do marido e do mundo. Rinko Kikuchi, a adolescente em crise, e Adriana Barraza, a babá mexicana que cruza a fronteira carregando as crianças americanas, e nisso encontra sua desgraça, estão extraordinárias em seus papéis. Todo mundo foi indicado para o Oscar. Deveriam ter levado.



O episódio marroquino é bíblico: lá entram Abrahão (o sacrifício do filho), Caim e Abel (a maldição do favorito), incesto, perseguição, fuga. O garoto que apontou o rifle contra os turistas, de joelhos, diante do policial, confessando sua culpa, é um dos grandes momentos cinematográficos da atualidade. Veja Babel, do cineasta Inãrritu e do roteirista Arriaga. É um filme que faz falar as pedras.




"Se queres ser compreendido, escuta", diz Iñárritu no final. Ele dedica o filme a seus dois filhos.


 

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