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BALEIAS E BALÕES
Published: Aug 28, 2007 - 02:08 PM
Nei Duclós
Alertado sobre uma família de baleias que fazia evoluções na praia
de Ingleses, onde moro, aproveitei a manhã de sol para mais um passeio
com minha neta Maria Clara.
Pensei: que bela oportunidade para a criança usufruir da natureza,
vendo essas glórias da criação ainda existentes. E elas estão pertinho
de nós, praticamente na beira. Puxei a neta e vislumbrei dorsos
cinza-esverdeados se sobressaindo no mar azul de inverno.
No mesmo instante em que nos somávamos a centenas de espectadores do
espetáculo, com direito a esguichos e caudas que administravam espumas
em gestos graciosos, eis que três grupos de balões multicoloridos
amarrados davam sopa bem no limite entre a areia e a água.
Maria Clara ficou encantada com a maravilha da natureza que são os
balões pipocando ao sabor do quebra-mar. "Balão, balão", disse,
exigente, com passos apressados e dedos decididos. Estava completamente
alheia ao centro do picadeiro, uma exibição rara até mesmo em viagem de
navio. Fui atrás, avô obediente que sou. Mas não conseguia alcançar
nenhum dos tufos de balões, que brincavam de pegar comigo.
Uma senhora, condoída, se atreveu a me ajudar, não sem esforço.
Depois de muita luta, ela alcançou um dos ramos de borracha vermelha e
amarela, o que deixou Maria Clara pronta para voltar. Pois a idéia era
prender os fugitivos num lugar seguro. Para ela, o principal do passeio
estava feito: a captura daquela prenda surpreendente, que inventou de
rolar bem na nossa frente, fazendo sombra ao que eu achava ser a coisa
mais importante da temporada.
Mas não desisti. A toda hora, chamava a atenção da garota, que dava
voltas ao redor dos seus balões. Quando ela atendia o meu pedido e se
dignava a olhar os gigantes, contra o sol, eles tinham mergulhado por
alguns segundos. Ela se virava, mas só via o de sempre: o mar infinito,
a ilha lá adiante, navios no horizonte e na ponta direita da praia, a
montanha, ou o morro, como queiram. Coisas banais de todo dia. O que é
raro é balão pedindo para ser colhido, fazendo concorrência ao foco das
atenções.
De mãos dadas com a neta, fiquei bastante tempo admirando a
tranqüilidade das criaturas, que devem gostar mesmo é de praia. Sentem
talvez uma vontade imensa de viver em terra, e essa, quem sabe, deve
ser a explicação de tantas vezes escolherem o encalhe no lugar do alto
mar.
Mas aquelas baleias não ameaçavam chegar até nós. Ficavam
praticamente no mesmo lugar, gozando as delícias dos remansos da baía.
Havia o vento tépido e uma súbita sintonia se estabeleceu entre gente e
bicho. De quebra, ainda tínhamos na mão os balões ariscos, soprados num
tamanho ideal, para que não estourassem.
Agora eles decoram a cabaninha improvisada no quintal, onde Maria
Clara se dedica a alguns afazeres, coisas que não atinamos e que só
ela, no seu mundo secreto, sabe do que se trata.
Manhã de baleias e balões: são muitas as atrações desta vida.
Depende de cada um perceber onde está o verdadeiro valor de uma
miragem, uma surpresa, um presente, prendas de um dia inigualável deste
lugar ainda habitável, tanto para gente, quanto para outras
manifestações da natureza.

