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BUÑUEL, A CULPA SOB TORTURA
Published: May 22, 2005 - 05:31 PM
Nei DuclósBuñuel é o presídio da culpa, onde o prisioneiro cumpre pena perpétua. Como não há esperança de libertação, o encarcerado decide virar torturador. Quem sabe ocupando o lugar do algoz haverá uma chance de escapar? O truque é fazer com que a culpa sob tortura enfim revele sua insignificância, e negue sua justificativa de existir. Aprofundando o crime no corpo da vítima (a Bela da Tarde e seus amantes asquerosos) a culpa poderia deixar enfim de existir, já que ao atingir o limite terá a oportunidade de se esfumar. Não sabemos se isso realmente acontece. O que fica é o relato desse processo, em que as pessoas se cercam de impossibilidades porque sabem o quanto lhes é vedada uma saída. O anjo exterminador é esse nó do destino, que faz os grupos humanos se condenarem à cela. Morrem um a um enquanto cumprem rituais aparentemente libertários, pela transgressão, que no fundo apenas consolidam o material de que são feitos, que se transforma em concreto e reflete a brutalidade de um tempo de inacessível salvação.
Crime
Na mais importante cena do melhor dos Godfather, o de número três, Raf Valone é o futuro papa que conversa com Pacino/Corleone. Para convencer seu interlocutor a confessar seus pecados para obter a absolvição, ele explica que o cristianismo jamais vingou na Europa, terra avessa à caridade e a outros princípios do Salvador. Corleone faz parte dessa igreja fundada na impossibilidade, que consegue vomitar para o cardeal seu maior crime ? o assassinato do próprio irmão ? mas ele sabe que está condenado. Buñuel trabalha essa condenação. Seu pesadelo é o catolicismo fundamentalista ibérico e o surrealismo foi apenas um dos seus esforços para escapar dessa rede. Mas tudo o que fez está impregnado pelo avesso, a carne viva do cristianismo sem tréguas, a culpa batizada pelo sangue da inocência perdida. Antes de ser o grande cineasta em que se transformou, ele foi até ator, encarnando num dos filmes o papel de um padre. E como foi convincente! Vemos nessa interpretação o Mal vestindo a batina, naquela época em que a Igreja Católica a tudo dominava, principalmente o imaginário do povo e da arte. Mergulhar fundo no horror sugerido pela repressão toma a forma, em Buñuel, do mais intragável cinema, o que é visto para expiar a culpa de estar preso às correntes da falsidade do Bem. Há maldição o tempo todo e esse cinema escolhe a iconografia da harmonia e da beleza para cuspir nela. É revoltante ver Catherine Deneuve entregar-se daquela forma para um japonês gordo ou um Pierre Clementi sádico. Não existe ar na mesa onde as pessoas compartilham a mesma impossibilidade. Não há olhar suportável diante do corte feito na retina em O Cão Andaluz. Não gosto de Buñuel, mas o espectador crismado no gosto pelo Belo precisa levar essa surra para não criar mais uma armadilha quando é convidado a ver. Esse anti-cinema é necessário como o amargor numa overdose de açúcar. Ele inaugura múltiplas soluções para quem precisa soltar os próprios terrores. Mas, influenciados por Buñuel, e ao mesmo tempo liberto dele, seus seguidores se limitam a assumir a casca dos seus filmes, jamais o magma fundo que o gerou.
Onívoro
Naquela cidade distante, comparecíamos domingo ao cinema como a uma obrigação. Não íamos ver os filmes, e sim cumprir o programa proposto. Víamos assim faroestes fabricados em massa em preto e branco com nossos heróis favoritos pela manhã, antecedidos por algum festival de desenhos animados. Na sessão da uma da tarde, era programa duplo: um filme de pirata e uma comédia da Atlântida. Na sessão das quatro, que era considerada nobre, grandes espectáculos, como Os Dez Mandamentos, Spartacus, Os Vikings. À noite não íamos.
Era o reduto dos adultos e dos execráveis filmes de amor. Às vezes nos traíam e colocavam alguma comédia romântica nas nossas sessões exclusivas. Havia uma decepção geral: ah, é de amooor, dizíamos, furiosos. Então anarquizávamos o recinto até os lanterninhas surtarem de ódio. Nas sessões mais exclusivas ainda, a matinal e a matinée da uma da tarde, batíamos os pés e assobiávamos como loucos. Antes de entrar no cinema, trocas ou compras de revistas em quadrinhos: Bolinha, capitão Marvel, Rocky Lane, Superhomem. No cine Teatro Carlos Gomes tínhamos os seriados, os mesmos que influenciaram George Lucas e Spielberg, que são da minha idade. Lentes que concentravam raios e destruíam montanhas, pessoas que voavam, mocinhos que se salvavam dos saltos no abismo, bandidos atrás de máscaras metálicas. Só quando me mudei para Porto Alegre, a cidade da cultura, soube o que era escolher o filme a ser visto. Assim mesmo, continuei onívoro. Tínhamos salas maravilhosas, como o Cacique, o Guarani, o Atlas. Por toda a cidade existiam salas de primeiro time. Vi todos os filmes de vanguarda e todas as superproduções. Via até Fernandel, filmes mexicanos, argentinos, ingleses. Morava dentro do cinema, antes que fosse destruído. Naquele tempo, não sabíamos que estavam aguardando o momento para acabar com nossa alegria. Eles tinham outros planos para o mundo que mudava de rumo e o cinema influía com sua cascata de idéias e imagens inesquecíveis.
Garras
Hoje, passo em frente a uma locadora de dvds e vídeos e vejo apenas porcarias em destaque. Quando eu dispunha dessa brincadeira (as despesas enormes que impuseram para isso não permitem mais esse luxo) costumava ser abordado pelos atendentes: qual o tipo de filme que o senhor gosta? Não divido os filmes em tipos, respondia, e gosto de tudo. Mas tirava um filme atrás do outro e não gostava de nenhum. A não ser que, por distração, esquecessem alguma obra-prima na estante e eu, escondido, conseguia então ver Limite, de Mario Peixoto, Aurora, de Murnau, entre outras preciosidades. Quando eu for rico novamente, voltarei a esse acervo. Por enquanto, sofro diante da TV aberta, que é a verdadeira TV fechada. Cinema? É difícil ir. Só tem sala em shopping. Uma sala do centro aqui de Floripa virou igreja evangélica. Era isso que eles queriam! Destruir a cultura para colocar no lugar o fundamentalismo contra o qual Buñuel lutou com todas as garras e dentes.
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