CANÇÕES DE UM POETA DE RUA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Livros        


Nei Duclós
O poeta maldito não é um maledicente nem um amaldiçoado. E sim um poeta sem o teto das palavras, para usar o verso de um deles (e possivelmente o único), Marco Celso Huffel Viola, que está novamente na praça com seu livro Viver a paixão de cada passo (Editora Alegoria, 80 pgs., R$19,50). Celso lembra, nesta época em que continuam fazendo carreiras literárias empilhando poemas, que a poesia não serve para nada e sua importância e força vem desse mistério. Por não pertencer, na essência, ao mundo utilitário, a poesia está fora da sua identidade considerada normal.
Não se trata de cair na armadilha da transgressão, fonte da vanguarda, que hoje é cânone, ou seja, que comete o mesmo crime do Parnaso, velho inimigo sobrevivente. Mas de cair fora mesmo, assumindo a escassez do fazer poético, sua inutilidade e ao mesmo tempo sua presença poderosa. Essa contradição entre o dito (o poema fora da poesia) e o não dito (a poesia fora do poema) é o tesouro deste poeta de rua, que dividiu seu livro conforme a lírica medieval: Canções de desprezo, do amigo e de amor. Como vivemos no escuro, Celso combina o seguinte: compõe canções que antes de gritar, escutam, e quando gritam sabem que ninguém escuta, a não ser que despertemos o sagrado que nos habita.
JARDIM – O capítulo do desprezo é para afastar a mesmice, interromper o fluxo, causar desconforto, expulsar os que copiam, e preparar o terreno para os sonhadores, os que criam o mundo (como diz no poema inicial). Nesse lugar incomum, há espaço para o escárnio diante das metáforas líricas tradicionais, como as folhas mortas, vítimas da incontinência de um cão, ou as cores que explodem num jardim e não o atingem. O desamor, a miséria, a síntese, o sapo e lesma são as personagens que atingem o alvo: as artimanhas da falsa poesia. No seu lugar, Marco Celso instaura a dissonância, o desencontro e a negação de uma pretensa identidade. Exausto do país que não se encontra, em poucos poemas ele prepara o leitor para o que virá, quando então poderá colocar no lugar desse pesadelo da linguagem algo que não seja confundido com metáfora, produto ou movimento. O poeta precisa destruir o mundo para reencontrar o que a literatura de araque esconde (ou que não tem competência para alcançar).
OFÍCIO – As Canções para os Amigos Vagabundos são inauguradas por um poema que nasce clássico, Heptágono: sete anjos são desafiados/ que guardam os rebanhos/humanos que guardam/ os rebanhos de gado. O poeta abre a porta do curral onde está encerrada a vida jogada fora, opondo a verdade à ilusão. Ao soltar as feras no palco de um circo, o artista promete suicídio, mas engana o público, lamentando: como é duro ganhar a vida, prefiro morrer para continuar vivendo. Ao interagir com esse público imaginário, sádico, que como ele vê tudo ao contrário, já que se vive dentro do espelho, território da mentira, ele parte para a reflexão sobre seu ofício. Escrever é danação, diz o poeta que convive com poemas na meia, no lixo, na cozinha. Rodeado pela tentação de uma poesia fácil, o poeta vai em busca do poema perfeito, o que se forma naturalmente nas sobras de um grafite tirado de um lápis.
DESTINO – A luta com a folha branca e a indiferença para com o destino das palavras enfim encontradas, e que agora são passadas a ferro, deságua no próprio poema que relata essa luta. O tema bem passado, ou seja, redundante, não ultrapassa o que acaba de ser escrito. Seria mais fácil ceder ao que se oferece ao seu talento. Mas ele prefere o que está oculto e é impossível de encontrar, a não ser que descubra a poesia limitada pela sua própria moldura, reveladora de que a palavra não costuma cair do céu como um milagre, mas é construída de forma anti-natural e se justifica ao ser enunciada. O poema é a própria coisa que o poeta busca e não se esconde atrás dos objetos.
ENCONTRO – Nessa altura do campeonato, vemos que sucumbimos também à vontade de enquadrar o poema que existe fora das nossas considerações, já que a poesia habita esse lugar único, gerado pela veia aberta de um poeta aos tropeços Em nosso socorro, acorre Os poetas não são desse mundo, obra-prima da poesia contemporânea, que faz chorar as pedras. Este capítulo dos amigos se encerra com um réquiem, representação da poesia que vive do Outro Lado. Longe da tristeza e o ódio, o poeta livra-se dos sentimentos para reencontrá-los no não-lugar, a paixão. É quando vem o terceiro capítulo, Canções de Amor, que rema contra a corrente da entrega, despe a tradição de falsidades, procura o que não acha, desiste para encontrar.
ESSÊNCIA – Mais importante do que a pessoa amada, é a paixão de cada passo, nesta viagem infinita de Marco Celso Huffel Viola, o Grande Poeta Oculto, o cara com que tenho o privilégio de ser contemporâneo, de ter ido para a praça mal tínhamos 19 ou vinte anos e que agora nos reencontramos, depois de tanto sal que jogaram sobre nós. Sua poesia redime não apenas os poetas que somos e que vamos ficar. Mas o que nos acompanham, os que escrevem e lêem, os que vivem e sabem: algo pulsa no escuro e não é essa fanfarra de luzes sem brilho. E o que pulsa é, sim, sagrado, sem o sacrilégio da pompa, nem a pose da humildade. Avessos, travessos, vesgos, somos o que não finda E o poeta é o demiurgo da realidade que é negada, o inimigo da ilusão que nos mata, e o criador de mundos. Neles reencontramos nossa essência, que estava jogada no lixo.

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