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CANÇÕES DE UM POETA DE RUA
Published: Nov 08, 2006 - 05:05 PM
Nei Duclós
O poeta maldito não é um maledicente nem um amaldiçoado. E sim um poeta sem o teto das palavras, para usar o verso de um deles (e possivelmente o único), Marco Celso Huffel Viola, que está novamente na praça com seu livro Viver a paixão de cada passo
(Editora Alegoria, 80 pgs., R$19,50). Celso lembra, nesta época em que
continuam fazendo carreiras literárias empilhando poemas, que a poesia
não serve para nada e sua importância e força vem desse mistério. Por
não pertencer, na essência, ao mundo utilitário, a poesia está fora da
sua identidade considerada normal.
Não se trata de cair na armadilha da transgressão, fonte da
vanguarda, que hoje é cânone, ou seja, que comete o mesmo crime do
Parnaso, velho inimigo sobrevivente. Mas de cair fora mesmo, assumindo
a escassez do fazer poético, sua inutilidade e ao mesmo tempo sua
presença poderosa. Essa contradição entre o dito (o poema fora da
poesia) e o não dito (a poesia fora do poema) é o tesouro deste poeta
de rua, que dividiu seu livro conforme a lírica medieval: Canções de
desprezo, do amigo e de amor. Como vivemos no escuro, Celso combina o
seguinte: compõe canções que antes de gritar, escutam, e quando gritam
sabem que ninguém escuta, a não ser que despertemos o sagrado que nos
habita.
JARDIM - O capítulo do desprezo é para afastar a mesmice,
interromper o fluxo, causar desconforto, expulsar os que copiam, e
preparar o terreno para os sonhadores, os que criam o mundo (como diz
no poema inicial). Nesse lugar incomum, há espaço para o escárnio
diante das metáforas líricas tradicionais, como as folhas mortas,
vítimas da incontinência de um cão, ou as cores que explodem num jardim
e não o atingem. O desamor, a miséria, a síntese, o sapo e lesma são as
personagens que atingem o alvo: as artimanhas da falsa poesia. No seu
lugar, Marco Celso instaura a dissonância, o desencontro e a negação de
uma pretensa identidade. Exausto do país que não se encontra, em poucos
poemas ele prepara o leitor para o que virá, quando então poderá
colocar no lugar desse pesadelo da linguagem algo que não seja
confundido com metáfora, produto ou movimento. O poeta precisa destruir
o mundo para reencontrar o que a literatura de araque esconde (ou que
não tem competência para alcançar).
OFÍCIO - As Canções para os Amigos Vagabundos são inauguradas por um poema que nasce clássico, Heptágono: sete anjos são desafiados/ que guardam os rebanhos/humanos que guardam/ os rebanhos de gado.
O poeta abre a porta do curral onde está encerrada a vida jogada fora,
opondo a verdade à ilusão. Ao soltar as feras no palco de um circo, o
artista promete suicídio, mas engana o público, lamentando: como é duro ganhar a vida, prefiro morrer para continuar vivendo.
Ao interagir com esse público imaginário, sádico, que como ele vê tudo
ao contrário, já que se vive dentro do espelho, território da mentira,
ele parte para a reflexão sobre seu ofício. Escrever é danação, diz o
poeta que convive com poemas na meia, no lixo, na cozinha. Rodeado pela
tentação de uma poesia fácil, o poeta vai em busca do poema perfeito, o
que se forma naturalmente nas sobras de um grafite tirado de um lápis.
DESTINO - A luta com a folha branca e a indiferença para com o
destino das palavras enfim encontradas, e que agora são passadas a
ferro, deságua no próprio poema que relata essa luta. O tema bem
passado, ou seja, redundante, não ultrapassa o que acaba de ser
escrito. Seria mais fácil ceder ao que se oferece ao seu talento. Mas
ele prefere o que está oculto e é impossível de encontrar, a não ser
que descubra a poesia limitada pela sua própria moldura, reveladora de
que a palavra não costuma cair do céu como um milagre, mas é construída
de forma anti-natural e se justifica ao ser enunciada. O poema é a
própria coisa que o poeta busca e não se esconde atrás dos objetos.
ENCONTRO - Nessa altura do campeonato, vemos que sucumbimos também à
vontade de enquadrar o poema que existe fora das nossas considerações,
já que a poesia habita esse lugar único, gerado pela veia aberta de um
poeta aos tropeços Em nosso socorro, acorre Os poetas não são desse mundo,
obra-prima da poesia contemporânea, que faz chorar as pedras. Este
capítulo dos amigos se encerra com um réquiem, representação da poesia
que vive do Outro Lado. Longe da tristeza e o ódio, o poeta livra-se
dos sentimentos para reencontrá-los no não-lugar, a paixão. É quando
vem o terceiro capítulo, Canções de Amor, que rema contra a corrente da
entrega, despe a tradição de falsidades, procura o que não acha,
desiste para encontrar.
ESSÊNCIA - Mais importante do que a pessoa amada, é a paixão de cada
passo, nesta viagem infinita de Marco Celso Huffel Viola, o Grande
Poeta Oculto, o cara com que tenho o privilégio de ser contemporâneo,
de ter ido para a praça mal tínhamos 19 ou vinte anos e que agora nos
reencontramos, depois de tanto sal que jogaram sobre nós. Sua poesia
redime não apenas os poetas que somos e que vamos ficar. Mas o que nos
acompanham, os que escrevem e lêem, os que vivem e sabem: algo pulsa no
escuro e não é essa fanfarra de luzes sem brilho. E o que pulsa é, sim,
sagrado, sem o sacrilégio da pompa, nem a pose da humildade. Avessos,
travessos, vesgos, somos o que não finda E o poeta é o demiurgo da
realidade que é negada, o inimigo da ilusão que nos mata, e o criador
de mundos. Neles reencontramos nossa essência, que estava jogada no
lixo.

