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CINDERELA AMERICANA
Published: Feb 25, 2006 - 07:53 PM
Nei Duclós
Dois filmes quase idênticos, Pretty Woman e Maid in Manhattan,
abordam o tema Cinderela na sociedade de classes dos Estados Unidos. As
mulheres, Julia Roberts no primeiro (branca, solteira e prostituta) e
Jennifer Lopez (morena, separada e camareira) no segundo, são a parte
excluída da história, que agarram a única chance da vida diante de um
príncipe encantado. Richard Gere, o sucateador de empresas da
globalização predatória, e Ralph Finnes, o republicano honesto com um
pé na insinceridade da campanha eleitoral e da relação com as mulheres,
se justificam pelo dinheiro e o poder, mas são vulneráveis num ponto
(exatamente onde Cinderela vai atacar): traem seus ideais, e serão
redimidos pelo sentimento por mulheres excluídas. Mas esse encontro não
acontecerá se as mulheres assumirem sua condição de classe.
Como Cinderela, elas precisam parecer da elite e para isso só há um
jeito: um banho de loja. A fada madrinha (em ambos os filmes, o
camareiro-chefe) é aquela que avisa: vista-se para a ocasião, mas
lembre-se que você é maldita por pertencer a outra classe social. Não
abuse da sorte. Apareça e quando chegar a hora, suma. É o que acontece.
Mas a segunda chance já estava plantada para o desfecho feliz.
BANDEIRA - Maid in Manhattan é um filme sobre a segunda
chance...de Richard Nixon. Parece brincadeira, mas é a pura verdade. O
filho da protagonista, um garoto de dez anos, está invocado com Nixon,
um presidente que mentiu, mas ao mesmo tempo abriu o mundo ocidental
para o Leste. Ralph Finnes é um candidato republicano a senador e tem
todo o carisma de alguém confiável. A bandeira nacional, presença
obrigatória em todos os filmes americanos, é uma espécie de anjo que
desce sobre os cidadãos novaiorquinos. O filme é de 2002 e certamente
tem algum link com as eleições, já que apresenta os republicanos como
confiáveis, capazes de se envolver amorosamente com o povo
desprotegido, representado por Jennifer, que vive sem marido com o
filho. O candidato republicano é o marido que aparece de repente: rico,
famoso, protetor e apaixonado. Apesar de o filme ser essa grande
bobagem, fruto da certeza que os produtores de cinema têm que todo
mundo não passa de um bando de babacas, JLopez está emocionante.
Totalmente vestida, ela se expressa pelas roupas e jamais pela
exposição do corpo. Já a serial smiler Roberts exibe o charme da mulher
disponível, que ao se apaixonar encarna o resgate de uma conduta
honesta.
DESVIO - Nos dois filmes, a exclusão social e o desvio de
conduta são irmãs gêmeas. Por ser pobre, JLopez não resiste e prova o
vestido da milionária, e o que é pior, não entrega que não é o que
parece. Por ser puta, JRoberts vende seu charme por dinheiro. Ambas
caem numa arapuca: no momento em que se apaixonam (por terem colocado a
máscara da inclusão social, as roupas), cai a máscara do desvio de
conduta. Ela merece uma segunda chance, diz o garoto para o candidato.
O homem "de bem", republicano, dá uma colher de chá à mentirosa e casa
com ela. Mas ao assumir o romance, ele faz um pacto com a
credibilidade. Conto com seu voto? ele pergunta. Vamos ver, ela
responde.
O investidor de coração seco não consegue desvencilhar-se da mulher com
a qual conviveu por mais de uma semana, paga por ele, e acaba nos
braços dela, numa apoteose ridícula de braços abertos e limousine
prateada. Ao reconhecer a Outra, Gere redime-se da sua condição de
homem mau dos negócios. Uma coisa admirável nos americanos é a sua
intensa e profissional cara de pau. Eles não têm vergonha nenhuma de
mentir e apostam que enganam todo o povo o tempo todo, contrariando
assim a máxima do fundador da nação, Abraham Lincoln.
CARISMA - É preciso acrescentar a releitura americana de um detalhe fundamental do mito Cinderela: o de que a protagonista é uma nobre caída, que o destino impôs uma situação de empregada doméstica, e que, com o baile, tem a chance de recuperar sua condição natural perdida. Nos Estados Unidos, onde a nobreza são os valores e princípos fundadores da nação, basta a determinação e a sorte para a excluída ascender ao paraíso da terra de oportunidades. É mais uma mentira, pois uma camareira como JLopez ou uma prostituta de rua como Julia Roberts já possuem o carisma natural e o filme apenas finge que elas são o que parecem. A nobreza está no nome das superstars. A história é apenas a água-com-açúcar para o chá amargo da brutalidade da divisão de classes no Império, coisa que se estende por todo o seu quintal.

