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DUAS REVISTAS NO CINEMA

Published: Feb 21, 2007 - 08:28 PM


Nei Duclós


Dois filmes sobre duas revistas. Uma delas é a Runway, do filme O Diabo Veste Prada (2006) e a outra é a Sports Illustrated, de Em Boa Companhia (2004).


As duas incorporam o furacão da globalização da economia e são abordadas no cinema por meio do conflito entre novatos e veteranos. Em Prada, Anna Hattaway, a novata, enfrenta Merryl Strip, a tirana. E Em Boa Companhia, o veterano Denis Quaid tem de aturar o emergente Topher Grace, o marqueteiro que, a mando das grandes corporações em permanente processo de autofagia e fusões, vêm atrapalhar um veículo até então lucrativo.


O conflito básico, no fundo, é entre redação e marketing. A garota que vira assistente da ditadora quer ser repórter, mas se conforma no emprego onde serve cafezinho para a chefe. Os textos da Runway são ditadas pela publicidade e a moda e as da Sports Illustrated correm o risco de ceder à tentação do merchandising, já que a poderosa corporação que a comprou possui produtos e serviços espalhados pelo mundo e quer encontrar na revista o estuário de suas governanças. A revista de esportes está consolidado e tem credibilidade e isso atrai anúncios, mas a nova ordem é aumentar a receita dos ovos de ouro matando a galinha. Isso provoca o famoso passaralho (é preciso cortar salário para maquiar as contas), com o qual o veterano Quaid precisa se submeter. Em ambos os filmes, a imposição da ditadura da sobrevivência impede que as pessoas dignas façam o que devem fazer, ou seja, mandar tudo à merda. Existe aluguel, hipoteca, filhos, universidades pagas. É preciso engolir, tentar se adaptar, acertar.


Nada mais atual. Vemos isso todos os dias no Brasil. A toda hora, o gracinha do marketing chega com seu discurso metido a revolucionário, que nada mais é do que sucatear as boas publicações e sair lucrando com isso, deixando para trás um rastro de indignação e ruínas. Não é por nada que muita gente resolve se vingar do velho emprego entrando armado na empresa que o chutou e fazendo grande estrago. É porque a indiferença, a brutalidade e a mentira tomaram conta do mundo corporativo tão cheio de discursos éticos.


Em Boa Companhia é mais radical: a mudança dá com os burros na água e o veterano volta ao seu cargo de origem. O emergente se humaniza e resolve ser outra coisa na vida. Em Prada, há mais cinismo. A assistente, depois de fazer inúmeras concessões, acaba assumindo seu sonho de ser repórter, enquanto a tirana, vencedora no processo que iria erradicá-la do poder, acena com alguma humanização ao recomendar a antiga funcionária para o novo emprego. Happy end, como sempre. Mas os filmes valem pelo que debatem, apesar de as fórmulas cinematográficas sempre se repetirem.


Ainda insistem em abordar o assunto jornalismo como se fosse um capítulo do marketing. Não é. O jornalismo é independente e não precisa nem de serviço (isso tem de sobra na internet), nem de qualidade ou cidadania, palavras contaminadas pelo discurso pseudo politicamente correto. O que o leitor precisa é de leitura e isso só o talento pode proporcionar. Erradicar o talento e transformar a redação num apêndice das vendas é coisa para amadores. O leitor só acredita em ética de verdade e não em operação casada.

 

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