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E O VENTO LEVOU: DESENCONTRO EM PLENA GUERRA
Published: May 13, 2005 - 12:08 PM

Nei Duclós
A longevidade de "...E o vento levou" deve-se a um recurso pouco notado pelos críticos. Estes, gostam de apontar o mau gosto do público - sintonizado com um enredo "melodramático" - como a grande chave para entender esse sucesso. Mas o que garante a sobrevivênciado filme são exatamente argumentos contrários aos oferecidos pela crítica, ela mesma vítima dos próprios lugares comuns.

"...E o vento levou" não centra sua força no melodrama. O melodrama é uma "escada", um instrumento auxiliar à trama principal. O casal vivido por Vivien Leigh e Leslie Howard não está no centro da trama, está na periferia. O triângulo amoroso, completado por Olivia de Havilland, não carrega a obra nas costas.
O núcleo do filme é a relação entre Vivien Leigh e Clark Gable, uma situação que fica a léguas de distância do clima água-com-açúcar. Trata-se de um desencontro permanente, que deságua no rancor e na despedida. Um "amor" que termina com a expressão "eu não estou dando a mínima" não tem nada a ver com Romeu e Julieta.

No fundo, o desencontro é a teia que costura o filme. Scarlett usa toda a sua crueldade para conquistar sua obsessão amorosa e foge de Buthler, que a desmascara. O galã cínico é interpretado tão bem por Clark Gable, que acaba confundindo a crítica - esta o acusa de canastrão.
Mas o público - diverso, múltiplo, de todas as gerações - não se engana. Emociona-se com uma história realista, épica, solene. Se cinema fosse música, "...E o vento levou" seria sua suprema sinfonia, pois não é um romancezinho tendo "a guerra civil ao fundo".

A guerra civil americana está no primeiro plano, e não no fundo. Ela é que desestabiliza os personagens e as transforma. Scarlett é uma sobrevivente de uma guerra pessoal e coletiva. É uma heroina moderna, que emerge nas vésperas da Segunda Guerra como referencial e profecia. Rett é o herói americano, sem raízes, na vanguarda dos acontecimentos, que ajuda a construir uma nação no meio da lama e do fogo.
O casal que se despedaça e tenta reconstruir a vida cada qual do seu modo - ele, sumindo na neblina, ela, voltando para a terra - ocupa o centro de um drama clássico, que por isso mesmo cruza o tempo sem desfazer a maquiagem.
Enquanto isso, os críticos torcem o nariz, como se já tivessem entendido tudo. Mas eles não estão entendendo nada.


