News
EM BUSCA DA GRAÇA
Published: Feb 21, 2007 - 08:22 PM
Nei Duclós
O Brasil perdeu a graça. Basta ler alguns
críticos de cinema. A violência com as palavras chega ao nível da
violência física. Perdemos a graça porque perdemos a inocência, não a
inocência útil, ou algum estado de imbecilidade pré-natal. Perdemos a
inocência do espírito desarmado, a que se abre ao Outro sem má-fé ou
disputa. É por isso que lamento chegar tarde aos textos sobre cinema,
já que só vejo dvd, expulso que fui das salas de projeção, muito
distantes aqui de casa ou impossíveis de aturar devido à presença da
multidão de engraçadinhos (os perversos que embarcam nas distorções da
comédia). Gostaria de fazer justiça no bate-pronto, desmascarando a
falta de juízo sobre obras como Onde anda você (2004), do cineasta
maior Sergio Rezende. Teve gente que não viu sentido no filme, tentando
desqualificar o autor e sua equipe para o humor. Mas Rezende acerta no
veio e é dever nosso dizer porquê.
Lembro um show que vi com o mutante Arnaldo
Dias Batista. Ele estava quase vestido de Chaplin e sua performance,
poética e hilariante em alguns momentos, era sempre pontuada por um
agradecimento ao público muito parecido ao de Calvero, o personagem de
Chaplin, no imortal Luzes da Ribalta, quando apresentava seu número com
pulgas amestradas imaginárias. A comédia, especialmente a radical, como
nesse filme de Chaplin, é um gênero da poesia e costuma sofrer da mesma
incompreensão.
Rezende se serve de amplo acervo cultural, de
dentro e fora do país, do cinema à música, para contar uma viagem às
origens da graça perdida no país dominado pela brutalidade televisiva.
Para isso, contou com a ajuda essencial do roteirista Leopoldo Serran,
que desdobrou o argumento do próprio diretor, e de atores fundamentais
como Juca de Oliveira, José Wilker e José Dumont, e coadjuvantes
maravilhosos, como José Vasconcelos (no papel dele mesmo, uma
referência ao humor que foi para o buraco negro) Paulo César Pereio
(não haveria cinema brasileiro sem Pereio), Castrinho (perfeito no
personagem Mirandinha), Drica Moraes (o retrato da grande perda), e o
jovem casal Tiago Moraes e Regiane Alves. Além de Aramis Trindade, o
foco da narrativa, pois seu Bocapura (a pureza oculta) é alta criação
cinematográfica pelo ritmo, pela complexidade e pelo acerto do
personagem (Aramis foi também consultor de comédia nesta obra).
A viagem parte do sufoco paulistano (onde só é
possível vida na mesa entre amigos ou no passeio da madrugada) para a
branca areia do Ceará, representação da inocência intocada e
necessária. O impulso é dado pela exclusão, a do comediante que teve
seus dias de glória e que, ao perder o grande amor e o parceiro,
pretende retomar a vida buscando um novo companheiro da sua aventura
profissional. É um filme explicitamente terminal, no sentido de que a
procura é pontuada pelos vestígios de um país em ruínas, que assomam em
sobreviventes (Dummont, absolutamente genial como sempre) ou condenados
em busca da esperança (Juca de Oliveira, o ator que sobra em
experiência e talento).
A viagem é contaminada pela culpa, já que Juca
de Oliveira, o Felício de outrora, não perdoou a traição entre seu
ex-amigo e a mulher que tanto amava. Essa culpa convive com a vontade
de não morrer, mas o destino (a morte iminente que é fruto de um
coração exausto, a perda total da nação sem graça) acaba se impondo.
Contar essa história significa recuperar o sentimento provocado por
músicas inesquecíveis (Tom Jobim, Brahms, Pepino de Capri), filmes
imortais (Fellini, Mario Monicelli, Chaplin, o eterno cinema da
Atlântida).
Não é pouca coisa para um filme que passou
despercebido e que hoje, apesar de tão recente, dorme nas prateleiras
das locadoras expondo seus enigmas. O mistério é como Sergio Rezende
consegue colocar na tela o que perdemos para sempre. Seu instrumento
não é a saudade, mas a busca arqueológica de um perfil nacional
soterrado pela incúria. Descobre o quanto sobrevive o Brasil que nos
criou e formou e foi assassinado nas esquinas do tempo.
Gostar do que somos é uma espécie de anátema.
Parece que temos vergonha do país. E pior: fica claro, pela postura que
os críticos assumiram diante dessa obra (considerado maravilhoso na sua
estréia, pelo público no Festival de Miami), que pretendem colocar
Rezende numa espécie de gaveta de um gênero único. Ele seria um
"especialista" em filmes históricos, como Canudos, Lamarca, Mauá, Zuzu
Angel, e não o que realmente é: um artista completo, múltiplo, com
pleno domínio do seu ofício.
Quando falarem mal de Sérgio Rezende, podem
contar: eu fecho os punhos e parto para a briga. O Brasil leva décadas
para gerar um cineasta como ele. Deveria ser mais admirado do que é e
festejado por sua absoluta transparência, sua capacidade de criar
imagens fiéis ao que precisamos continuar sendo, sob pena de morrermos
como nação.

