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EU PODERIA SER ALGUÉM
Published: May 21, 2005 - 07:05 PM
Nei Duclós
A morte de Marlon Brando aos 80 anos nos
remete à sua cena mais famosa, praticamente sua herança mais
importante: a cena em que reclama com o irmão que o obrigou a perder
uma luta no clássico de Elia Kazan, Sindicato de ladrões (On the Waterfront).
Eu poderia ter vencido aquela luta, pelo menos disputado de verdade e
assim teria uma carreira digna e hoje não estaria na mão de bandidos,
participando de assassinatos e roubos, nos diz o maior ator de todos os
tempos. Sua vida foi uma saga humana de ascensão e queda. Ele nos deixa
um exemplo de independência, vontade, luta e talento inigualável.
GÊNIO -
Seu famoso discurso para o ator Rod Steigger é mais uma performance de
gênio do que a confissão de uma derrota. É por isso - por ser a
manifestação da garra lúcida de Marlon Brando - que o discurso ficou na
história: "I cudda had class! I cudda been a contender! I cudda been somebody!"
Eu poderia ter classe, ser um lutador, ser alguém. Mas aceitei as
imposições dos que não queriam que eu cumprisse o destino, fui covarde
no momento decisivo, não enfrentei o inimigo na hora certa. E o inimigo
não era o meu adversário na luta que entreguei para que os outros
ganhassem as apostas. Os inimigos eram esses mesmos, os jogadores que
se adonaram da minha vida e hoje me tratam como lixo. A gana com que
ele diz isso faz parte não só da história do cinema, mas da
civilização. O que é esta vida senão a preparação, o enfrentamento e o
rescaldo dessa hora fatal em que podemos decidir o destino? O filme de
Kazan trata da nova chance, quando aquele que foi derrotado pela sua
própria covardia tem a oportunidade de dar a volta por cima, enfrentar
os tiranos e sair enfim vencedor, mesmo sabendo que jogou boa parte da
sua vida fora. Eis outro motivo para a eternidade do discurso: se você
encarar de frente a situação, dizer alto que perdeu aquela batalha, se
souber enxergar o quanto perdeu, se não tiver a mínima piedade de si
mesmo, se enfrentar seus fantasmas de cara limpa, se puder ver quem são
os algozes que o levaram para o buraco, você terá a chance de resgatar
a si próprio, desde que saiba a tragédia onde você vai se meter: como
na primeira vez, você enfrentará a sua morte com essa decisão. Tens
essa coragem? Não basta fazer o balanço do buraco onde você está
metido. Não basta decidir enfrentar o horror mais uma vez. Precisa
saber que, como antes, poderás morrer. Estás preparado?
LEGADO - Brando leva com ele interpretações imortais que nos fizeram saltar da cadeira, assim como Buñuel pulava diante de Antonio das Mortes. Lembro o dia em que apareceu todo fantasiado numa sessão das quatro (16 horas) no cinema de Uruguaiana e foi aplaudido de pé pela platéia deslumbrada e debochada. O filme era O grande motim e Brando extrapolou no exibicionismo. Já era então o gigolô da sua própria história, já detonava, jogava para o alto o que conseguiu com fúria. Já tinha destruído a atuação como era conhecida até então com sua magistral interpretação de um canalha violento em Um bonde chamado desejo. Já era o maior, por isso dava-se ao luxo de fazer o que bem entendesse, como extrapolar todas as despesas de uma produção, expulsar diretores para tomar o lugar deles. Decidiu até fazer um faroeste, o estranho A Face Oculta, onde passa o tempo todo explorando até o limite as possibilidades do seu rosto, do seu corpo e do seu gesto. Mas o mais impressionante ainda estava por vir. Foi quando fez o Poderoso Chefão e reiventou a profissão novamente. Todos imitam sua interpretação nesse filme, de maneira séria ou às gargalhadas. Seu sussurro manipulando pessoas e situações, suas bochechas inchadas, sua testa em V, sua concentração. Quem poderá apagar da memória essa criatura magistral? E, de lambuja, como diziam antigamente, ainda temos Apocalipse Now, em que só seu rosto dividido entre luz e sombra é a mais assustadora aparição de toda a história do cinema. Se houve grandeza nesta fase em que passamos sobre terra, Marlon Brando encarnou-a. E de maneira única. Parte depois de muito sofrimento. Pagou caro a conta cobrada por ter sido primus inter pares, o maior dos maiores, que deixa, sim herdeiros, mas nenhum que chegue ou chegará aos seus pés, já que tornou-se referência. E mesmo agora, aparentemente imóvel na eternidade, jamais poderá ser alcançado por nenhum mortal. Cada vez que formos ver um filme seu, ele ficará cada vez melhor.

