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Eclipse na Grande área
Published: May 16, 2005 - 11:57 PM
Nei Duclós
A bola branca rolava por trás dos morros
quando voltei ontem para casa. Era uma dama que se olhava no espelho
pálido do entardecer. Depois, tornou-se um balão de gás subindo na
noite limpa.O evento começaria aí pela hora do jogo. Sempre espero que
a sombra comece a desenhar as imagens dos jornais e revistas, a lógica
padrão da terra projetada que vai engolindo elegantemente a luz da lua
cheia. Mas o que eu vi foi um borrão de sangue. Bem no zênite, o sol
das 22 horas maquiava-se de marrom e ocre para a visita da Ceifeira. A
luz do estádio nem toca a túnica da Visitadora. Ela olha para o céu, e
espera que o Destino dê o alarme apagando o jorro iluminado que vem de
cima. Então, um minuto depois, vibra a Foice e colhe o zagueiro na
grande área. Ele se debruça sobre os joelhos e cai. O futebol despenca,
ferido de morte.Rodada Como um saco de pedras que se descostura, como a
estrela que cai em si para formar um buraco negro, como cascata de um
rio de chuva ácida, o jogo perde a força da sua representação. Deixa de
ser um acordo de ferimentos leves e entusiasmos descartáveis. Foge do
corpo dos jogadores que então se vêem a sós, vestidos de sua própria
humanidade, que tinha ficado no vestiário para que o espetáculo como
rotina se confirmasse mais uma vez. Eles cercam o fruto tombado. Os
anjos da medicina descem a rua da fatalidade com suas respirações boca
a boca, suas massagens, num lance extremo de remediar o que tinha sido
esgarçado para sempre. Ninguém mais joga a armação das mentiras em
volta da lua branca que deveria ir para as redes. Não há mais bola, foi
esquecida. Na beira do estádio desce o som inaudível do eclipse mortal.
Paulo Sérgio de Oliveira Silva, o Serginho do São Caetano, aos 30 anos
é carregado para seu último quarto de hora. Ainda havia esperança, uma
ambulância fechada, um aparelho desligado, um socorro supremo, um
esforço de driblar aquela que não treina e quando joga, é definitiva.
Quem estava diante da televisão viu que a rodada tinha se transformado
numa fogueira de horror. Mas se aquele jogo terminou, os outros
continuaram. Vi como o amigo que chorava demais com a camisa do
Corinthians fez um gesto de que iria continuar. Mas os pés tinham
vestido chumbo. Não houve mais gols. A lua sumia no céu impassível,
para retornar mais tarde, na madrugada, quando se retirou para trás dos
morros novamente.
Pânico - Amanheço com o vermelhão do
dia anunciado. Antes que seus dardos finquem a parede da casa, um jato
começa a cruzar em diagonal o céu sem nenhuma nuvem, neste final de
outubro que enfim pára de ventar. A dupla fumaça que sai das turbinas
vem lentamente riscando a minha atenção. Vejo essa manifestação desde
tempos sem memória, naquele lugar perdido de onde um dia saí. Esses
aviões vão para Montevidéu, me diziam. Eles saem de São Paulo e em
poucas horas estão já no Prata. Hoje parece o mesmo tipo de jato, como
se o tempo estivesse passando por um daqueles nós da espiral do tempo,
em que tudo se repete. Lembro Serginho, o que foi ferido de morte,
jogador que eu desconhecia, eventual telespectador de futebol que sou.
O zagueiro tinha levantado um braço pedindo tiro de meta, gesto típico
de quem defende o gol, seu patrimônio. Depois deu alguns passos. O
adversário ainda tropeça nele e arruma a meia que saiu do lugar com a
queda do outro que começa a embarcar para a travessia. Andando de
costas, atrás de Serginho, o árbitro se interpunha numa briga de pernas
entre dois adversários. De repente, tudo muda. As pessoas assumem seu
verdadeiro pânico, o de estar vivo sem poder representar nada a não ser
o próprio desespero.
Viagem - O céu está intocável e o
jato avança até aquele ponto onde a lua estava ontem. Não se vê
nenhum rastro do eclipse. Serginho olha pela janela e talvez pense que
está participando de mais uma etapa no exercício do seu ofício. Mas é
sua derradeira viagem. Seu braço tinha se erguido pela última vez. A
terra atravessou o umbral e tenta pousar a inútil sombra em algum campo
perdido do cosmo. A lua cheia escondeu-se. Com que cara voltará hoje,
quando novamente a noite cair sobre nossas vidas? Colocaremos os braços
na cintura e olharemos firmes para ela. Lua que fica atrás do espelho,
qual o teu mistério? Talvez fique imóvel penteando seus invisíveis
cabelos. Afasta de nós esse presságio e traga de volta o verão, que
tarda. Mergulhe pelo menos uma vez no mar gelado da nossa presença,
para que possamos abraçar o calor que nos conforta, a solidariedade que
some. Precisamos nos despedir dessa dor que está na área e ninguém vê,
a não ser que um zagueiro anuncie a tragédia, ao tombar na grama
indiferente, como um anjo tomba. Ele se foi, sob o fardo da inocência e
de um coração que se recusa a repetir o jogo marcado de uma civilização
sem rosto.

