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FALTA COM BARREIRA, A CIÊNCIA INEXATA

Published: Nov 12, 2007 - 03:02 PM


Nei Duclós


É complicado. A barreira serve para tirar a visão da bola, para quem defende, e do gol, para quem bate. Como não é possível enxergar o objetivo, tudo depende de cálculo, talento e imaginação. Rogério, do São Paulo, por estar escolado nos dois lados da barreira, sabe o que um goleiro pensa quando ouve o baque surdo da chuteira.


A barreira fica a meio caminho entre o artilheiro e o arco. O goleiro não pode confiar na visão, esperar para ver de onde vem a bola, pois será tarde demais. Precisa se antecipar, pensar junto. Chutar por elevação, em curva, quando a bola sugere uma trajetória e toma outra direção, graças à forma com que o batedor define o toque. A região do pé escolhida, o leve roçar para criar efeito, a firmeza do gesto, a energia cinética criada pelo pensamento (que se reflete no chute), tudo isso define uma falta com barreira.


Entre oss grandes batedores de falta podemos citar Alex, Ronaldinho Gaúcho, o antigo Neto e Marcelinho Carioca. Eles sabem do que se trata. É preciso definir, com a mente, o gol impossível. Fazer com que , no momento de bater, a bola encontre o endereço certo. Neles, a direção encontra outras alternativas. O pé de anjo de Marcelinho quica a bola e ela bate no travessão, no ângulo, rola para dentro do gol beijando a rede. Neto destruiu o goleiro Gilmar no Maracanã com uma falta batida a cem quilômetros de distância.


Alex é um estrategista. Ele chuta e desiste, vai para casa, toma um banho e volta para comemorar. Ele faz uma divisão interna na cuca para que o pé encontre sua dimensão quântica. O goleiro adversário apenas olha o rastro da bola que entra miseravelmente no fundo. É por isso que Alex não anda, já que cada pedaço do seu corpo tem vida à parte, o que é uma maneira de driblar sem bola, só com o movimento, os adversários. Dizem que ele é preguiçoso e não sei mais o quê. Existem muitos cracaços no Brasil, mas Alex pertence à categoria dos gênios.


É uma pena que seja tão mal aproveitado e possa acabar como Ademir da Guia, lenda que jamais foi campeão do mundo, ou Canhoteiro, que ficamos conhecendo, décadas mais tarde, por Chico Buarque. Não adianta dar a chance de bater faltas a jogadores bisonhos, como por muitos anos foi o caso de Roberto Carlos, que dá chutão na barreira. Roberto Carlos não entende: bater falta, essa ciência inexata, não depende de força no pé. É complicado.

Foot notes: Texto publicado no Diário da Fonte a 10 de março de 2005.
 

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