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FONTES DA BOSSA

Published: Sep 30, 2008 - 08:56 AM

Nei Duclós

O levantamento teórico de Ruy Castro sobre a bossa nova aproveita os 50 anos do movimento para juntar tudo o que estava disperso. Sua coleção de livros/CDs publicados semanalmente pela Folha une-se ao seu clássico livro "Chega de Saudade" e tira a carga excessiva de crédito ao banquinho e ao violão, focando inúmeros vetores que fazem parte da revolução musical que representa o melhor do Brasil na modernidade.

Um desses vetores é a voz na canção brasileira, que encontra uma ruptura radical quando o microfone muda tudo, em artistas minimalistas como Mario Reis, recupera sua contundência vocal com Francisco Alves, desce o vale da doçura com Silvio Caldas e atinge o nível da grandeza em Orlando Silva, Lucio Alves, Dick Farney e tantos outros. Até chegar em Caetano e Roberto, apresentados no final deste domingo pela Globo, naquele horário em que o Programador do Traço cumpre seu objetivo de só colocar coisa boa quando todo mundo cansa de esperar algo que preste, desiste e vai dormir.

Roberto faz sentido cantando bossa. Veio dela. Seu primeiro compacto é de bossa (num dos lados ele dizia: “Moço, toca o balanço, toca o balanço seu moço senão eu não danço”). Faz sentido quando divide com Caetano o palco para homenagear Lucio e Dick em Tereza da Praia. Mostra o poder do seu canto em "Se todos fossem iguais a você", uma composição que faz Caetano tremer, pois Caetano, como ele mesmo destacou, generosamente, nos bastidores do show (soube pela imprensa) não tem os recursos vocais do Rei.

Ouvindo-o cantar bossa, entendemos seus grandes sucessos, a maioria deles sussurrados. Seu pianista Antônio Wanderley, ex-integrante do antológico Milton Banana Trio, e que faz parte da banda de Roberto há décadas, brinca dizendo que ele é um gênio, pois com dois acordes fez 400 sucessos. Aliás, é significativo que Wanderley (que teve o nome trocado pela imprensa e nos créditos do show para Benedito e não Antônio, como é de fato), um músico totalmente bossa nova, seja um dos maestros musicais de Roberto.

Mas Roberto tropeça (rei tropeça também) em Insensatez, que, acho, cantou em espanhol, mas deu a impressão que não sabia a letra. Tropeça também quando tenta criar o clima de “emoções” quando fica só com a platéia. Mas no geral se sai maravilhosamente bem, porque Roberto é amado exatamente por ter essa voz solar, que alcança tudo sem aparentar esforço e se derrama sem perder a forma. Não é pouco numa época de tantos vibratos ridículos, em que tanta gente fica fanha, se esganiça e espicha até a burrice extrema as notas finais das frases musicais. Roberto é clássico, da escola de João Gilberto, ídolo absoluto e presente o tempo todo no show dos dois.

Não é que Caetano queira imitar João, Caetano é João, sem deixar de ser Caetano. É emocionante compartilhar a grandeza desse artista que nos brinda com a madura longevidade do seu talento inimitável. A seriedade, a competência e a inteligência como canta é uma questão cultural. Caetano é a ruptura que resgatou muita coisa da tradição, sem abrir mão da ruptura. É vanguarda o tempo todo, até mesmo quando escande as sílabas para homenagear a banda, os músicos, tornando sua voz um instrumento significativo, mas coadjuvante. Em Caetano, é o arranjo, a harmonia, a melodia que contam. Por isso, quando é aplaudido, faz um gesto em direção aos músicos sacudindo a cabeça dizendo: é deles o mérito, é deles. E é pura verdade. A voz, em Caetano, torna explícito o que nossos ouvidos sentem, mas nem sempre identificam. Ele é didático em sua performance perfeita. E não vamos dizer mais nada. Basta dizer que canta. Ponto.

A fonte vem do que é profundo, cruza a pedra e se espraia no raso da Catarina. Tudo é fonte, desde a confecção oculta da água, do filetezinho que desce a montanha, do véu de noiva da cachoeira, do riacho, da lagoa, do rio-mar e do deus Oceano. Tudo é fonte, meu bem. Tudo isso é bossa nova, isso é muito natural.

 

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