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FRASES QUE FICAM
Published: Nov 05, 2007 - 08:38 AM
Nei Duclós
As boas frases tornam-se incompreensíveis quando mudam por força do
excesso de vezes em que são citadas. É o caso da famosa frase de
Guiseppe Tomasi di Lampedusa no seu livro "O Leopardo", que virou filme
de Luchino Visconti. As citações erradas dizem o seguinte: "Se queremos
que tudo fique como está, é preciso que tudo mude". Ou : "É preciso que
tudo mude para ficar como está".
Mas, pelo que vi e ouvi do filme, o certo é: "É preciso que algumas
coisas mudem para tudo continuar na mesma", o que é bem diferente. Não
se trata de mudar tudo para ficar como está, o que seria um paradoxo.
Mas sim de ceder em alguns pontos para manter o essencial, o que é a
velha sabedoria dos poderosos.
QUESTÃO SOCIAL - Outras citações exaustivas, apesar de serem
corretas, não avaliam as suas origens. É o caso da conhecida "a questão
social é um caso de polícia", proferida pelo presidente Washington Luís
nos anos 20 do século passado. Esquece-se que o presidente era homem do
século 19, criado, naturalmente, por pessoas formadas na mentalidade do
final do século 18. Não estou justificando nada, apenas explicando o
que os livros de História me ensinaram.
No clássico "D. João Sexto no Brasil" , de Oliveira Lima, fica claro
que o Marquês de Pombal, que assumiu o poder em Portugal em 1774,
colocou na mão da polícia do Brasil o problema social para poder
esvaziar o poder dos governadores provinciais. Ele queria enfraquecer o
esquema consagrado do Brasil colonial, precisava varrer daqui a força
das pessoas encasteladas em cargos importantes. Maquiavelicamente, para
dividir, jogou na mão da polícia a míséria, o loteamento clandestino,
as epidemias. O que deveria ser tratado por políticas públicas virou
caso de polícia. Essa é a origem.
FAMA MUNDIAL - Mais uma: os famosos 15 minutos de fama de Andy
Warhol. O que ele disse em 1968 é que, no futuro, cada pessoa seria uma
celebridade mundial por 15 minutos, e não apenas uma celebridade por 15
minutos. Ou seja, ele falou em "world famous" , já que famosos somos
todos, sempre, para meia dúzia de gente. Agora, extrapolarmos o círculo
de nossa fama grupal é que era a grande novidade.
MAIS LAMPEDUSA E VISCONTI – O livro/filme não fica apenas na citação
a que eu me referi. Existem outras, igualmente profundas, como a
previsão de que o "humano" (tanto faz ser leopardo ou chacal) duraria
ainda dois séculos e depois seria muito pior. Tenho certeza que
Lampedusa falava do pós 11 de setembro de 2001.
Outra grande sacada é a de que, numa região econômica periférica
como a Sicília (o que também pode se aplicar ao Brasil) as mudanças não
se fazem no confronto (tomada da Bastilha, decapitação do rei), mas no
arranjo. Os burgueses não matariam os aristocratas, simplesmente o
imitariam, comprariam seus títulos, casariam suas filhas com eles para
ocupar seus lugares.
A grandiosidade do filme de Visconti, cineasta de inúmeras
obras-primas como "Morte em Veneza" e "Rocco e seus irmãos", nos enche
os olhos e a mente. A aparição de Claudia Cardinale, anunciada pela
sombra que desenha a dor no rosto das outras mulheres é um momento
único, sem falar na maravilhosa dança com Burt Lancaster. Um filme sem
igual. Esse foi o esplendor do cinema. O resto é decadência.

