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HOMERO VIVEU ENTRE NÓS
Published: Mar 03, 2007 - 09:56 AM
Nei Duclós
Jayme Caetano Braun é poeta muito querido e elogiado e sua morte
recente provocou grande comoção. Pode-se dizer que sua poesia é a chave
para entender o nativismo, esse movimento criado nos anos 50 e que deu
tantos frutos, se espalhando por todo o Rio Grande e atingindo o país
inteiro, pois até no meio da mata tem CTG – Centro de Tradições
Gaúchas. Essa vasta obra, feita quase toda, senão toda, no improviso,
guarda no entanto um segredo.
Esse segredo só poderá ser revelado à medida em que descolarmos o
poeta da bandeira na qual se enrodilhou a vida inteira. Pois não se
trata apenas de um trovador gauchesco, ou payador, como ele se definia.
Mas de um autor em que todos os seus versos formam um único poema, um
épico, uma rapsódia do Brasil profundo.
Braun, filho de um professor alemão com mulata, é o rapsodo, que ia
de cidade em cidade recitando um grande poema de formação, do povo e
seus costumes, da história e suas guerras, do tempo e suas glórias e
misérias. Tudo dito e escrito na língua de Camões e não num patuá
regional. E com todo o vocabulário do pampa, sem que as palavras
típicas desvirtuassem a construção clássica, a melodia épica que vem de
Camões e chega até nós pela voz de Castro Alves.
Estudioso, letrado, conhecedor da História da sua terra, Braun
incorporava o linguajar popular da mesma forma que Hernandez produziu o
Martin Fierro. Como notou Jorge Luis Borges, foram poetas estudados
que, ao participarem da guerra e ao conviverem com as pessoas simples
do povo, é que construíram toda uma cultura gauchesca de sabor especial
para quem nasceu nesse territórtio batido pelo minuano. O artista
genuinamente popular não desveste a linguagem como faz Hernandez ou
Braun, já que tem uma idéia mais pomposa da arte. São os radicais dessa
modernidade que virou do século 19 para o vinte que criaram algo que se
confundiu com a paisagem: obras até hoje ditas em voz alta.
Vamos ver trechos famosos de poemas de Braun, daqueles que eu ouvia
quando criança. Um deles diz: “A pátria é minha família/ não há Brasil
sem Rio Grande/ e nem tirano que mande/ numa alma farroupilha”. Outro,
tirado do poema Acampamento Farrapo, mostra o seguinte:
"Bandeira de 35, Divino pendão de guerra. Que guarda gritos de terra
entre as dobras andarilhas. Pano de altar das coxilhas, desfraldado por
condores, prece rezada em 3 cores em sobrehumanos rituais... O verde,
os campos gerais do Rio Grande despenteado, o matambre amarelado numa
alvorada de outubro e o campo... vermelho rubro, num sol de tarde
sangrado. Troféu mil vezes sagrado, pátria encarnada em um pano, pedaço
de chão pampeano que a historia guasca eterniza. Foste a primeira
divisa do Brasil republicano." (*)
A perfeição do verso, a contundência da metáfora, o engajamento
guerreiro, a convocação pela maestria da oratória, a riqueza melódica
levam Braun para o alto e para longe de seus pares. E dizer que foi um
Homero considerado um simples trovador, que assumia a autoria até de
longos poemas pornográficos, já que nada ficou de fora de sua verve: a
medicina popular, o erotismo, a negritude, as misturas de raças, as
lutas, a prostituição, a família, o amor materno, tudo. Da sala à
cozinha, do cercado ao descampado, do amor ao combate, do remorso à
exaltação, o rapsodo compôs seu grande épico de formação. Este é o
segredo que guarda, que grita para ser revelado inteiramente, com mais
provas do que um simples ensaio de instauração literária, como este.
RETORNO - Pedi a continuação do poema Acampamento Farrapo para meu
irmão Elo Ortiz Duclós, que sabe as poesias de Braun na ponta da língua
e ele me atendeu. O poema funciona como um curso completo de
antropologia e história, sem pose e no alvo. Lá vai:
(*)"Bandeira tu ressuscitas, na glória de cada fiapo/ O Acampamento
Farrapo embaçado de fumaça./ É o formigueiro da Raça que está reunido
em concílio /É o bugre que - de lombilho,vem levantando aos bocejos
/São os mestiços andejos, mal encarados e sérios /São castelhanos
gaudérios vaqueano de montoneras/ Que bandearam as fronteiras por força
de algum instinto/ É o negro chucro, retinto, dos grilhões recém
liberto/ É o piá voluntário esperto, guri ainda - rosto liso/ É o chiru
velho preciso que pensa mais do que fala/ É o estancieiro de pala que
chimarreia sisudo /É o mulato façanhudo de adaga grande à cintura /É a
impressionante figura do charrua de melenas/ É o soldado de chilenas e
uniforme desbotado/ É o lenço bem colorado num pescoço de Oriental/ É a
Tricolor Oficial num tope republicano/ É o carreteiro vaqueano que
segue o rastro das tropas/ São abas largas e copas, vinchas quepes e
chapéus/ Laços apêros, sovéus, num mar de pilchas gaúchas/ Boleadeiras
e garruchas ponchos palas multicores/ Chiripás e tiradores,
chocolateiras, cambonas/ São guitarras e cordeonas chamuscads nos
fandangos/ Espadas, adagas, mangos e as lanças que os peleadores/
manejavam com primores nas arrancadas sem conta/ todas trazendo na
ponta as flameantes Tricolores!/ Que culto estranho - que pampeano
rito/ Vivem tais vultos que divergem tanto/ É a liberdade que funfiu
num grito/ Todas as vozes do Rio Grande santo! "

