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KUROSAWA, VIVER NO APOCALIPSE
Published: Jun 14, 2005 - 08:28 PM
Nei Duclós
Akira Kurosawa não precisou imaginar o fim
do mundo. Foi testemunha da tragédia quando, levado pelo irmão, viu no
que se transformou Hiroxima depois da bomba. O Apocalipse não é,
portanto, uma profecia que vai se cumprir, mas o território que ele
precisou palmilhar e enxergou de perto, não só como o Outro que vê, mas
como o próprio que é calcinado junto com seus semelhantes. Seu cinema
são os passos dados no limite extremo da aniquilação total. Ele está
confinado nesse núcleo da bola de fogo.
Seu olhar não pode
simplesmente reduzir-se à resistência ou à denúncia, que são ilusões do
humanismo desmascarado pelo horror. Nem pode mais separar realidade de
pesadelo, já que ambos convivem dentro e fora dele. O Mestre caminha
enquanto o mundo explode e coloca, no centro do drama, o que acontece
ou pode acontecer quando o destino se cumpre e não há mais esperança.
Kurosawa é a solidão do cinema diante da maldição. Nós, os
espectadores, somos os improváveis sobreviventes da catástrofe que ele
revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi assim que enxerguei
a vida enquanto o mundo se despedia.
ZUMBIS - Viver
é exatamente o filme mais didático de Kurosawa. Feito nos anos 50 e em
preto-e-branco, narra a fase terminal de um funcionário público
desenganado pelo câncer, que decide virar a mesa da sua repartição
corrupta e enfrentar a especulação imobiliária que queria destruir uma
praça. A clarividência e a coragem que se manifestam pela consciência
da morte servem para fazer um minucioso relatório da vida sem sentido a
que fomos condenados, como zumbis enredados pelos poderes, amarrados
como alimento de abutres. Num andamento pesado, o chefe daquele
departamento descobre as verdadeiras ligações com seus semelhantes,
tanto na família quanto no emprego. Vê então que não tem nada e nunca
foi nada. É como se Kurosawa, sabendo como o mundo acaba, resolva
pesquisar os motivos da destruição, a vida que era vista como pacífica
e que em nenhum momento se diferencia do momento da explosão.
ESPÓLIO - Ele mostra que o big-bang é uma síntese para onde confluem as sociedades humanas antes e depois do impacto. É como se Ran ou Os Sete Samurais revelassem os antecedentes rumo ao desfecho, que se cumpre, Sonhos o flagrante do evento e Viver
seu descenso, ou melhor, o que veio depois (o Japão derrotado, pobre e
burocrático) mas que se reporta à bomba num movimento pelo avesso, na
contra-mão do tempo. Há três momentos do Apocalipse: Ran (e toda a sua linhagem de guerra sem fim que é fruto do ódio seminal da espécie a partir da família); Sonhos, que é o relatório ao vivo do xeque-mate nuclear; e Viver,
que seria o espólio da explosão, mas como nas velhas projetoras que
faziam o filme andar de trás para diante, mostra como o pós-Apocalipse
a ele se dirige de maneira inapelável.
DESPERDÍCIO - Em cada filme citado, sempre há lugar para qualquer um dos passos finais. Não são apenas os antecedentes que existem em Ran,
pois lá está a mortandade no campo de batalha, numa seqüência
interminável, que é a reprodução dos corpos destruídos vistos por
Kurosawa na cidade destruída. Em Sonhos, há algo mais do que a
cena do remorso (o comandante que enfrenta os fantasmas da tropa
massacrada sob o seu comando); a dos demônios que berram quando lhes
nascem os chifres; o passeio pelo cenário da queda, a pintura de Van
Gogh; ou a sedução da Morte numa peregrinação na neve. Há o paraíso que
assoma no velho moinho na beira da água limpa, o ancião que acena com a
sabedoria, a terra intocada pela barbárie. Existe aí o que apostamos
ser esperança, mas é apenas mais um desdobramento do olhar do Mestre.
Não é que tenhamos alguma chance e encontramos enfim a paz (em Sonhos) o reconhecimento (em Dodeskaden) ou a justiça (em Viver ou em Os sete samurais).
Vemos o passo além do extremo, o resultado do julgamento final, o
último reduto do Apocalipse, que é a contraditória promessa de salvação
depois da condenação de todos. É quando o cinema, representação do
mundo, acaba, e levamos para casa um pacote de possibilidades.
Acreditamos ser a segurança da eternidade, mas é um presente da lucidez
de Kurosawa: fazemos parte do Apocalipse e encará-lo de frente é a
única ação possível quando todas as chances foram desperdiçadas.

