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LA NOS EUCALIPTOS
Published: Feb 07, 2007 - 02:36 PM
Nei Duclós
Confesso que senti falta da barreira de velhos
eucaliptos que existiam atrás da goleira do campo de futebol do Colégio
Santana, em Uruguaiana. Hoje o campo está muito melhor, mais cuidado,
mas falta alguma coisa, precisamente essa fila de árvores que definiram
o cheiro da minha infância. Costumávamos juntar folhas secas para
queimá-las, só para sentir o ar perfumado. Acho também que eram usadas
para afastar mosquitos. Serviam de quebra-vento, evitando assim que os
jogos fossem assolados pelo minuano importado do pampa hispânico.
Costumávamos dizer, quando a bola extrapolava os limites do bom senso e
se chocava muito além do travessão, que ela batia lá nos eucaliptos.
Isso servia quando a árvore nem estava por perto. Chutar forte, longe
do gol, só para buchinchear, era atingir os eucaliptos, estivessem eles
lá ou não.
Tudo isso me ocorre depois da leitura
de Eucalipto, Histórias de um Imigrante Vegetal (Já Editores, 128 pgs.,
25 reais), de Geraldo Hasse, que aprofunda o tema e dá um banho de
informação sobre silvicultura no Brasil e especialmente no Rio Grande
do Sul.
TALENTO - Escrito com clareza e talento,
o livro dedica uma boa parte do estudo à polêmica gerada pelo interesse
de grandes empresas de papel e celulose de se instalar no pampa. Lança
luz sobre essa briga candente, privilegiando os aspectos técnicos,
fundamentado em seleta e providencial bibliografia e manejando a
sustentabilidade de um espírito desarmado, a serviço da informação bem
apurada. Hasse é craque no seu ofício. Dá voz a engenheiros,
empresários, ambientalistas e aposta num acordo em favor do
desenvolvimento sem agressão ao meio ambiente. Minha dúvida é se as
leis de regulamentação não serão desvirtuadas em favor da
desertificação da paisagem, mas isso o autor também discorre com
propriedade. Hoje, com a pressão internacional a favor do planeta, é
impossível para empresas multinacionais, diz Hasse,deixarem de lado as
necessidades de um país escaldado na agressão ambiental.
HISTÓRIA
- Mas a polêmica é uma parte do livro. O que mais gostei foi a história
do eucalipto em terras brasileiras e os estudos que o colocam entre as
opções mais preciosas do insumo para uma série de atividades
industriais. O argumento mais poderoso apontado por Hasse é que o Rio
Grande do Sul original não existe mais, transformado que foi pela
pecuária e as plantações de arroz. Há vasta devastação e estagnação
econômica. Nas entrelinhas, se é que eu entendi direito, Hasse sugere
que a luta ambientalista está voltando a maior parte das suas baterias
para uma empresa nacional, a Aracruz Celulose, e que a pressão poderá
muito bem ajudar a concorrência de empresas estrangeiras, de olho na
paisagem superfavorável à silvicultura (que não se restringe ao
eucalipto, mas também ao pinheiro, este muito mais maléfico quando
transformado em monocultura).
CONFIANÇA - O que
importa é que o jornalismo está a serviço do esclarecimento neste
livro. Por mais que exista convencimento de ambas as partes, é
importante que os espíritos se desarmem e encontrem soluções a favor do
país e da população. Pessoalmente, implico demais com essa indústria e
só mesmo Geraldo Hasse para prender minha atenção num texto que levanta
todas as possibilidades existentes sobre o tema. Sou contra a
desertificação, mas o livro sustenta que a convivência pacífica entre o
eucalipto e a paisagem é favorável e proveitosa para ambos os lados.
Confio no trabalho de Geraldo, que tive o prazer de encontrar na Feira
do Livro de Porto Alegre em 2006, quando ele me trouxe um exemplar de
presente.
PERFIL - Mas o que eu gostaria mesmo
de ler do Geraldo é o seu livro sobre os lanceiros negros. Pode ser ou
está difícil, mestre? Vamos agora à mini-biografia da fera, fornecida
pela assessoria de imprensa da editora: "Geraldo Hasse, gaúcho de
Cachoeira do Sul, formou-se jornalista na Universidade Católica de
Pelotas (RS), em 1968. Aos 22 anos foi para São Paulo e empregou-se na
Folha da Tarde com uma matéria apurada no caminho. Fez carreira em São
Paulo como editor e repórter-especial em Veja, Exame, Guia Rural e
Gazeta Mercantil. Além de A laranja no Brasil e O Brasil da soja, Hasse
publicou Filhos do fogo - história industrial de Sertãozinho e Mar de
âncoras. Fez duas biografias: Semeador do Sertão, do paulista Maurílio
Biaggi e a do gaúcho Darcy Azambuja.Em parceria com Elmar Bones, lançou
Pioneiros da Ecologia, em 2002. E ainda neste ano coloca na Feira a
segunda edição de Lanceiros negros, que escreveu em parceria com
Guilherme Kolling em 2005. Entre outras premiações ao longo de uma
carreira de 37 anos no jornalismo, destaca-se o prêmio Esso de
Reportagem Econômica, em 1979 e o Prêmio Interamericano de Jornalismo,
em 1992."

