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LABIRINTO EM DESTERRO
Published: Mar 08, 2007 - 04:35 PM
Nei Duclós
Nunca sei ao certo se existem duas ou três travessas antes de chegar
ao terminal. A dúvida vem da falta de direção e de memória urbana,
desvantagens que fazem parte da minha natureza, e que se manifestam nos
passos indecisos toda vez que me aventuro por aquela região. Tento até
decorar o nome das pequenas ruas que nascem da curva da cidade onde
fica um colégio, um edifício da Marinha e alguns órgãos públicos fora
de mão, como a secretaria do Trabalho. Elas desembocam na praça
central, que divide a cidade em duas porções bem distintas. Esta, de
que falo, e que é formada por ruazinhas estreitas, sombreadas em
excesso e com um ar de abandono que deve ser assustador em domingos e
feriados (quando me encontro bem longe do centro, refugiado num canto
da ilha-cidade). E a outra, comercial, aparentemente buliçosa e viva,
mas que também oferece um espetáculo aterrador, pela solidão em
contraste com a vibração anterior, quando não há expediente e todos se
recolhem nos imensos espaços vazios desta capital agora atulhada de
gente.
Sim, é uma cidade de mistérios. Lembra a explicação que vi num
documentário sobre a estrutura do átomo. Há um centro, o núcleo, dizem
os físicos, e muito longe dali, depois de longos espaços vazios, o
bulício dos elétrons. A matéria é composta de "nadas" imensos pontuados
por alguma presença indecifrável, como é o caso de partículas atômicas.
Talvez a região que visito regularmente (devido a uma atividade extra
que agora não convém abordar) não exclua essa essência das coisas, a de
que existem vácuos entre objetivos bem concretos e distintos, que
acabam nos confundindo quando deixamos o carro e a condução de lado e
nos aventuramos numa caminhada. Sempre que apareço por lá, em busca de
um ponto bem objetivo, troco as pernas achando que entrei na rua certa.
Mas, invariavelmente, me confundo.
Essas ruelas estranhas oferecem insumos para minha desorientação.
Elas são interligadas por pequenos corredores, portanto não temos
nenhuma dúvida de que acharemos o lugar que procuramos, já que se pode
voltar atrás utilizando esses atalhos naturais. Mas isso faz parte da
armadilha. Você tem a certeza de que está indo na travessa certa,
descobre que está enganado quando chega ao fim dela (pois onde quero
chegar fica na última quadra, no lado oposto da praça). Aí preciso
contornar para entrar na outra rua ou então dar meia volta e pegar o
corredor providencial. O problema é que as ruas misteriosamente se
multiplicam, por mais que isso possa parecer estranho. Eram duas, ou
três, mas parece haver uma infinidade de opções, que me fazem derreter
quando há verão e temer pela saúde diante do vento encanado, quando há
inverno.
Depois de reter na memória, por muitos anos, o caso do cientista que
enlouqueceu quando foi estudar a infinidade de números que existem
entre dois números inteiros – conjunto que ele batizou de Aleph –
descobri, graças à internet e à curiosidade aguçada pela ignorância,
que o dedicado estudioso é o matemático alemão Georg Cantor. Na
primeira vez que mencionei seu sobrenome, fui corrigido na pronúncia,
pois o filósofo em questão jamais teve qualquer ligação com a profissão
de crooner. Assim, pronunciando Cantor como quem passa a mãos pelos
cantos do problema para ver se é possível descobrir alguma solução, vi
que entre a sede dos Correios, situada em frente à praça, e o terminal,
existe um número infinito dessas ruas enigmáticas.
Quando chega a vez de ir lá confirmo essa suposição. Nunca chego ao
lugar limite, onde as pessoas vão pegar os ônibus, pois antes dele há
essa encruzilhada de caminhos. Costumo descobrir uma nova alameda na
procura interminável em direção ao lugar que eu desejo chegar. Há um
aleph urbano escondido nessa parte baixa da cidade e só tive certeza
disso quando prestei mais atenção ao que elas guardam em suas portas
encardidas, seus edifícios tombados, seu ar de província do século 19.
Tem pastelaria, sebo, padaria, armarinho, xerox e outros
estabelecimentos indecifráveis, que talvez estejam lá apenas para
atender fantasmas. Foram esquecidos pelo resto da cidade, mais ocupada
em grandes viadutos, fluxos migratórios, a violência que aos poucos se
instala na outrora pacata Desterro.
É uma espécie de reserva urbana contrariada por exercer o seu papel.
Vejo essa falta de sintonia nos habitantes que ficam parados por lá ou
passam me olhando com curiosidade. Eles têm o aspecto de antigas
fotografias, vestem roupas que costumava ver na minha infância e
encarnam tipos há muito desaparecidos. O mendigo-filósofo, o desocupado
prestativo, a aposentada especialista em cada lugar perdido naquele
ermo. Costumo perguntar sempre onde fica o local exato que busco e sou
atendido. Mas basta eu me afastar um pouco para me envolver novamente
no novelo a que me submeto de maneira recorrente.
Talvez seja eu o fantasma que procura algo que não consegue mais
achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe
nessa realidade simultânea, nesse momento único de que é feito o
universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de
orientação e de memória urbana. Esqueço o que vejo para me perder no
aleph dos desterrados, onde há sempre uma rua inusitada, um corredor
que leva a outras paragens, uma calçada caída diante de uma vitrine
obscura. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de
antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percepção avariada que
se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer
totalmente. Suo a camisa para chegar onde quero. Normalmente consigo.
Mas basta ter de voltar para saber que estarei novamente perdido, à
mercê de uma demência misteriosa.
Não posso mais me estender sobre isso, pois acabei me convencendo
que nenhum segredo existe para ser revelado. Já me acostumei a me
perder nesse labirinto. Já me incorporei nos elementos da paisagem que
se desdobra. E não adianta ter a praça em frente e o terminal na
fronteira do enigma. Quem parte do número um para chegar ao número dois
fatalmente vai se comprometer com a infinidade de algarismos que podem
ser colocados depois da vírgula.
Georg Kantor, criador (ou um dos criadores) da teoria dos conjuntos,
que uso indevidamente aqui para ilustrar minha experiência, morreu
pobre, esquecido, com alta dosagem de depressão. Eu não me incomodo
mais em conviver com o mistério e nem pretendo achar uma solução. Isso
talvez me salve, enquanto compartilho minha dúvida com os habitantes
eventuais dessa região de sombras, de cheiros antigos e de encanto
permanente. Escrevo para não perder o fio desse novelo, mas sei que, se
usar a linha infinita para voltar à porta da entrada, fatalmente serei
enredado novamente. Prefiro fazer o que preciso, tomar uma das
travessas e rezar para chegar finalmente à praça.

