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LER IMAGENS
Published: Jan 15, 2008 - 10:58 PM
Nei Duclós
Na leitura, não há diferença entre texto e
imagem. A palavra é lida a partir de sua representação visual e
qualquer rabisco é passível de leitura. A crítica de arte costuma
exagerar e tece uma complicada teia de argumentação e análise quando
elabora algo sobre artes plásticas. Prefiro Roland Barthes, autodidata
capturado pela universidade francesa, que entendeu ser a franja dos
personagens do filme Julio César, de Joseph Mankiewicz, como "a
expressão da romanidade". Uma romanidade inventada por Hollywood, claro.
O gênio de Barthes defende a teoria da
identidade francesa num simples filé com fritas, um insight que abriu
as comportas para entendermos melhor a sociedade de massas e todos os
seus inúmeros textos que existem diante de nós e que, analfabetos
visuais, costumávamos ignorar. De olhos abertos, agora podemos ver como
os Estados Unidos implantam o patriotismo tornando obrigatória a
presença da bandeira estrelada em todos os filmes. Hoje, não existe
cinema americano sem a bandeira em algum lugar do cenário, quando não
tomando conta de todo o espaço disponível, até mesmo em comédia
romântica.
O cinema partiu da cena ocasional (a saída dos operários da fábrica,
a chegada de um trem, nos curtas dos Irmãos Lumière) para o grandioso
(a revolta dos trabalhadores em Os Companheiros, de Mario Monicelli, a
destruição de um comboio ferroviário em Lawrence da Arábia, de David
Lean). E voltou-se para o minimalismo, não na Nouvelle Vague, que ainda
tem algo de épico em personagens como Pierrot Le Fou, de Godard ou os
adolescentes de Os Incompreendidos, de Truffaut.
O enxugamento total veio com o cinema iraniano, onde um tênis em
fuga pelo esgoto, perseguido pela criança desesperada, num filme de
Amir Hashemian, vale mais do que um milhão de palavras. Voltamos ao
be-a-bá do cinema depois de longa trajetória, quando atingimos a
simplicidade por meio da síntese, e não da omissão ou da insurgência
antiespetáculo.
O mundo foi feito para ser visto, e depois, lido. Não teríamos noção
da revolução russa só pelos livros. Não fosse Eisentein filmar Outubro
ou O Encouraçado Potemkim, mesmo que sejam apenas representações do
conflito, não chegaríamos perto do que John Reed descreveu em Os dez
dias que abalaram o mundo. Quando, no livro de Reed, Lênin se debruça
para infletir sobre a platéia nos seus discursos, é Eisenstein que está
nos abrindo os olhos. Imaginamos o que já vimos, e quando lemos,
projetamos as criações expostas em mais de um século de Sétima Arte.
Depois de Aurora, de Murnau, descobrimos que não há evolução no
cinema, já que antes de 1930 um filme tão soberbo e com visual complexo
e magnífico foi concebido e rodado. Hoje, em que as imagens dos
blockbusters são a tábula rasa da imaginação, ver Aurora é como
revisitar o Renascimento.
O cinema é tão importante que só os gênios deveriam filmar.
Ficaríamos livres da mediocridade empastelada, que toma conta de todas
as salas. Luchino Visconti, a majestade perdida, teria feito
sucessores. Seríamos obrigados, como fazíamos antigamente, a tatear no
escuro para descobrir o que os mestres nos traziam.
Estaríamos livres de tanta bandeira, imersos novamente na sala
escura a adivinhar preciosidades. Sorte que ainda existem grandes
criadores, mas eles estão escondidos pela avalanche de barbaridades.

