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LUA, VÉSPERA DE PRAIA
Published: Oct 24, 2005 - 09:23 PM
Nei Duclós
No horizonte, à esquerda,
massa compacta de nuvens nos lembra o quanto choveu nesta primavera.
Mas acima do teto, fiapos de algodão são incendiados pela lua quase
cheia. As estrelas são diamantes fixos e espaçados, que o perfil de uma
menina transparente, alta como o céu, recolhe numa cesta de vime. O
lento rolar das pequenas nuvens fazem uma das estrelas vagar como um
asteróide, um satélite, uma nave. Depois, na alta madrugada, saio para
ver o cachorro que late. A luz intensa debate-se na varanda. Tudo está
quieto no território das corujas. O manto quase azul promete mar na
manhã seguinte. Amanheço acordado na vasta faixa de areia e lá está
mar, claro, manso, tépido. Ao longe, contei 18 barcos de pesca, em
prontidão diante dos cardumes. Tudo começa a fazer sentido depois de
tanto inverno, tanta luta e tanta certeza de não pertencer a nada, a
não ser a esta paisagem nem sempre amável, mas que sabe mostrar seus
encantos quando o mesmo equilíbrio que mantém a lua no céu espalha-se
pelos morros verdes.
LUGAR - Não pertenço à literatura, ocupada
por tantos luminares. Não pertenço à política, com tanta gente se
manifestando. Não pertenço ao sul ou ao norte, exilado do ambiente que
me encara. Não pertenço às gentes, migrante eterno no país em obras.
Não pertenço à rede, cheia de tudo e todos. Nenhuma profissão me
comove, a não ser esse ofício com palavras, gratuito como um pedaço de
pão abandonado. Não pertenço aos sonhos que se realizam, quando então
emergem as caras satisfeitas dos bem resolvidos. Nem aos pesadelos
definidos em bastidores escuros.
Dizem que o planeta está mais
quente, mas só vi frio nos últimos meses. Que existe seca, mas a água
não parou de correr. Não faço parte da metereologia, do noticiário, dos
rankings, das opiniões, das posições, dos esgares, dos luxos e das
misérias. Alguém me fala como fui há tempos e não me reconheço. Nada
sei de mim e minha biografia, se é que existe uma. Pertenço apenas à
memória e ao presente pontuado de dias e noites. Tardes que se derramam
de potes imaginários, amargos momentos de desesperança, vestes gastas,
cabeça em frangalhos. Textos crônicos que me servem de sentinela.
Acenos, raros, na multidão com pressa.
Pertenço àquela calçada
varrida pelas mulheres antigas, pela terra lavada de chuva, pelo rio
que desce e sobe conforme a estação que se avizinha. Faço parte desse
território sem história, onde medra o capim ralo, a flor precária, a
vida escassa. Estou por toda a parte porque nenhum lugar me recebe.
POESIA
- Não há crédito, há nação de menos, há medo demais. Desfilamos diante
do nada como cidadãos sem rosto. Mas há poesia quando a criança se
deslumbra com o vôo das gaivotas. Há o poema, que vem em socorro do que
perdemos. Há livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda.
Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. Quem
somos nós, criaturas que Deus acolhe em seu regaço e atende súplicas e
preces para continuar o caminho? Não fazemos parte do calendário, nem
dos eventos, nem das homenagens. Passamos pela terra como o vento. O
tempo enfim se mostra, com seu acervo de possibilidades. Colocamos a
couraça e vamos para o trabalho. Lá, desistimos de ser o que plantamos.
Viramos espigas ao sol, que deita sementes sem nenhuma proteção.
Códigos
passam em vão por nossas mãos em brasa. Ninguém nos conhece, nós que
arrumamos espaço nestes dois séculos que nos tingem de algo jamais
decifrado. Vivo o minuto como quem recebe uma bênção. Há barulho de
cascos, espadas retinindo em noite de lua quase cheia. O cachorro late
para o infinito. Abro a porta e vejo. Deus está atento e dorme. O luar
é seu espelho. Quando some, o mar assoma sua imensidão sagrada.
Mergulho contra a onda e o corpo se move. Volto como um filho à casa
materna que nos recolhe.

