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MADAME BOVARY, O ROMANCE MAIOR
Published: Nov 13, 2007 - 07:58 PM
Nei Duclós
Madame Bovary, de Gustave Flaubert, foi lançado há 150 anos e
é considerado "o romance dos romances" pela acurada carpintaria da
linguagem, a estrutura impecável da narrativa, a complexidade social e
psicológica dos personagens e a grande influência que exerceu em todo
mundo, com os russos à frente, como confessaram Tchecov e Tolstoi,
entre muitos outros.
Na edição que eu li, da Nova Alexandria, com tradução de Fulvia
Moretto, temos direito a making of, ou seja, um anexo com os autos do
processo que o governo moveu contra o autor por ter atentado contra a
moral, os bons costumes e a religião e por ter feito um hino à a
lascívia e ao adultério feminino. A defesa é surpreendente. O advogado
Sénard usa uma argumentação extravagante, totalmente confirmada pelo
autor que ficou ao seu lado nas audiências. Sénard diz que o livro foi
escrito por um homem rico e viajado,de família com grandes serviços
prestados à sociedade (era filho de famoso cirurgião). A obra, um
exemplo da mais alta moral, servia para alertar sobre os perigos de as
mulheres serem educadas nos princípios que existiam apenas fora da sua
classe social.
Mulher pobre não teria nada que ficar aprendendo coisas que não lhe
dizem respeito. Se freqüentarem estabelecimentos educacionais
reservados aos mais abastados vão aspirar ao que jamais terão. Vejam
que perigo! No lugar de receberem uma formação forte (viril, no mínimo,
pelo que eu entendi), um conjunto de valores férreos que vão ajudá-las
no momento de fraqueza, elas acabam sendo levadas para a ilusão e a
perdição. Estaria aí a essência da obra, segundo a defesa. Funcionou.
Todo mundo foi absolvido: o autor, o editor e até mesmo impressor.
Para que as moças pobres, no futuro, mantenham a retidão, o
casamento, seus deveres de esposa e mãe, devem ser treinadas para o
lar, o trabalho, o sacrifício, a devoção. Nada de saírem de suas
fazendolas, sítios, quintas para irem às cidades receberem a educação
reservadas às ricas. O pobre pai de Ema queria que ela casasse bem, por
isso não a encaminhou para as lides campeiras, mas para as prendas da
alta classe. Ema viu-se assim frustrada, execrando o casamento com um
pobre profissional da saúde que nem tinha título de doutor. Acabou
sendo fisgada pelos devaneios, tornando-se presa fácil dos rapazes
endinheirados ou jovens alpinistas sociais que buscavam aventura com
mulheres casadas.
Madame Bovary seria assim uma espécie de manual de conduta para as
senhoras, que veriam as punições que acarretariam o pulo da cerca. Ou
seja, Flaubert jogou pesado e inverteu a arma contra seu próprio
adversário, o governo imperial (a monarquia restaurada, depois dos
insucessos de Napoleão). Saiu-se como um campeão moral, mas seu romance
extrapola essas picuinhas da época. É, claro, uma obra-prima, uma lição
de mestre de como se deve construir um romance, que extrapola todo o
tipo de gênero. É realista e romântico, é psicológico e de costumes, é
profundo e superficial. Foi vendido inicialmente como folhetim na Revue
du Paris e se transformou num golpe contra a hipocrisia, os jogos de
cena que amarravam as pessoas a duras relações baseadas nas aparências,
no tédio e na mesmice.
Mas o livro fica imune ao jogo de forças entre tradição e ruptura,
entre religião e ateísmo, entre ciência e ignorância. Trata das
contradições de classe (e isso lhe empresta permanência): a esposa de
classe média que aspira à riqueza e por isso se entrega a amantes ricos
ou mais jovens do que ela; o farmacêutico que usa o exercício da sua
profissão e textos publicados em jornais da província para conseguir a
Legião de Honra; o agiota que explora as fantasias da senhora para
arrancar-lhe o patrimônio; o cego que invade a carruagem para conseguir
alguns trocos dos viajantes; o funcionário que precisa abrir mão de
suas aventuras amorosas para não prejudicar a carreira; os camponeses
explorados que são bajulados por um poder tirano e usurpador.
Ema Bovary é uma heroína cheia de contradições, que tem a ousadia de
tentar romper com o cerco e acaba sendo vítima de sua própria
determinação (não consegue se desvencilhar de sua situação de classe).
Por se situar na fronteira entre a classe média e os ricos que usufruem
de castelos, perfumes, roupas caras e teatros, ela mantém uma conduta
ambígua o tempo todo. Sua fragilidade é confundida com sua força, seus
encantos parecem ser sua redenção, sua inteligência acena, em vão, para
algo maior do que a vidinha restrita de um casamento arranjado e
medíocre. Ela reconhece seu erro (a impossibilidade de ascender
socialmente), por descobrir a repetição das rotinas do casamento no
fogo apagado dos escondidos encontros amorosos. Os amantes tornam-se
tão insípidos quanto o marido.
Mas pouco podemos dizer dessa obra depois de tanto tempo e tantos
gênios que se debruçaram sobre ela. O importante é ver como Flaubert
compôs o drama, tantas vezes levado à tela e tantas vezes imitado.
A protagonista surge por acaso no início da história e aos poucos
vai tomando conta de tudo. Aparentemente o livro é sobre o marido dela,
Charles, que acaba ocupando papel secundário, mas ao mesmo tempo
fundamental. Charles é a âncora desprezada pela mulher, o enamorado
esposo que a tudo suporta e jamais a condena (vimos esse personagem
mais tarde em Tchecov). O que vale a pena ver é como Flaubert jorra na
criação de um universo riquíssimo em detalhes, a quantidade de palavras
que usa, uma verdadeira enciclopédia, sem jamais cair na pieguice, no
mau gosto ou nos excessos de estilo. Ele fazia cinema antes de ser
inventado. Suas cenas são vivas, as paisagens saltam na cara, os
protagonistas jamais nos abandonam.
"Dona Flor e seus dois maridos" é uma adaptação de "Madame Bovary",
de Flaubert. Jorge Amado casou Ema Bovary com o farmacêutico Homais (no
romance francês, um vizinho muito presente) e colocou seus dois amantes
(Randolphe e Leon) num só personagem, o fantasma libertino do primeiro
cônjuge. Dona Flor assim vira uma Ema sem culpa, pois pula a cerca (em
termos, já que trai o atual marido com o marido morto) mantendo as
aparências sem se arruinar ou cometer suicídio. Como Dona Flor, também
Capitu, de Machado de Assis, bebe da mesma fonte: a senhora distinta,
casada, que enjoa dos laços matrimoniais e precisa resolver seu tesão,
um tema que envolveu os escritores depois que Flaubert matou a charada
de como abordar o tema maldito sem cair em desgraça.
Jorge Amado poderia ter escolhido outro tipo de marido monótono, mas
optou exatamente pela figura do farmacêutico, o vizinho do casal
Charles-Emma, que acaba ocupando uma posição central na história.
Pernóstico, sério, interesseiro, pseudo intelectual, tudo do
farmacêutico de Flaubert foi adotado pelo de Jorge Amado, que não se
livrou do personagem depois da leitura e acabou se entregando a ele.
Identificar os amantes de Ema com o marido libertino que assombra Dona
Flor com suas tentações é perfeito, pois os amantes de Ema eram também
fantasmas na vida pacata provinciana. Eles agiam de uma forma que só a
mulher percebia.
Flaubert nos ensina como entrelaçar cenas e personagens sem cair nas
armadilhas que acabam desmascarando o enredo perante o leitor. Algo
cruza em determinado capítulo: isso vai se desdobrar mais adiante. Nada
está fora do lugar, nada está forçado, nenhuma linha jogada fora. É de
babar. Mais do que Ema Bovary, o que fica é a maestria do autor, um
gênio da narrativa, insuperável. Podem tentar toda espécie de ruptura,
o romance de Flaubert se manterá, intacto, como obra obrigatória.
Proust, Barthes, Sartre e todos os outros grandes autores visitaram
essas páginas importais e lhe renderam a atenção merecida.
Jorge Amado também. O que fez muito bem, pois seu modelo, seu
paradigma, é o livro que surgiu como um terremoto e agora está sendo
celebrado no seu sesquicentenário.

