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MATRIX E MATRIX RELOADED - A VILANIA DO SOFTWARE

Published: May 13, 2005 - 12:21 PM

Nei Duclós

Matrix e Matrix Reloaded são o apogeu de uma cultura nascida na revolução digital e que nem em sonhos poderá ser acessada totalmente por uma cultura obsoleta. Enquanto esses filmes atingem a velocidade da luz, a crítica cinematográfica continua na idade da carroça. Matrix vinga-se como mega-sucesso e prepara mais surpresas para a terceira e última parte da trilogia. Já conseguiu um estrago razoável: colocou no chinelo todos os seus epígonos e instaurou na cultura de massa a polêmica, até agora restrito aos meio acadêmicos, sobre a realidade como vontade e representação. Os dois Matrix coloca de maneira explícita que os quadrinhos, a graphic novel, os jogos de computador , a Internet e todas as suas implicações são propriedade intelectual de uma geração que atinge agora seu esplendor cultural e por isso merece ser respeitada, como o foram as gerações passadas, com seus cinemas de vanguarda e suas literaturas experimentais. Mas, assim como nada nasce por acaso e é fundamental relacionar paradigmas que não se tocam para evitar o obscurantismo do debate, pode-se dizer, como pura provocação, que Matrix Releoad confirma o medo do sistema diante de uma tecnologia que não tem um centro, portanto, não está totalmente dominada. Esse pavor tinha sido explicitado no filme Superman III, onde o computador duela com o homem de aço, que por possuir visão de raio X é confundido com avião é o símbolo de uma tecnologia totalmente manipulada pelo sistema e concentrada nos monopólios. Daí a referência explícita de Neo no papel de Superman: o sistema precisa de um predestinado que seja a referência de um conhecimento e uma técnica totalmente dóceis ao sistema. É obvio que não é, já que a Internet foi criada exatamente para não ter centro por ser fruto da guerra fria, quando o medo de um ataque nuclear poderia destruir toda a rede se ela tivesse um ponto principal que dominasse todos os acessos. O fim da Guerra Fria inverte o processo e leva a Internet em direção aos monopólios e aos códigos dominantes, mas a luta ainda não está vencida por nenhum dos lados - e é nessa arena que Matrix traça seu design de exageros, soma das muitas transgressões sofridas pelo cinema americano - desde os delírios do faroeste italiano até os vôos inverossímeis da coreografia inspirada nas produções de Hong Kong. Matrix revela o principal pânico do sistema: a “verdadeira” realidade é ainda a da revolução industrial ou seja, onde as máquinas obedecem aos humanos. O centro desse sistema obsoleto, mas caro ao poder imperial americano, é representado por Zion, a cidade subterrânea garantida por máquinas dóceis e que está sendo ameaçada pelas máquinas inteligentes, isto é, a tecnologia emergente que ainda escapa à força do império. Colocar a vida cotidiana como uma ilusão coletiva – o sistema de linguagem conhecido como Matrix, que é acessado por meio da técnica do “sonhar” revelada nos livros de Carlos Castaneda – é a maneira encontrada pelo show biz (instrumento poderoso de manipulação de massa) para assustar o público. A mensagem, assim como a regra nas transmissões esportivas, é clara: é mais autêntico depender de um mundo “real” de ferros retorcidos e rodas dentadas do que uma realidade “virtual” idealizado por um monstro desconhecido. Na prática, sabemos qual é o verdadeiro perigo que o sistema teme: a descentralização democrática, a revolução e seu acervo de predestinações e lutas. O truque é desmoralizar esse perigo, vencê-lo culturalmente, já que na refrega de guerra o sistema mostrou que é indestrutível. O medo diante da revolta tenta convencer o público - presa fácil de teorias "mal intencionadas" - que a realidade que todos admiram é frágil e pode ser apenas a invenção monstruosa de uma cabeça doentia – o Arquiteto, de Matrix Reloaded. Para afastar a vilania do software, a linguagem que caiu em mãos erradas, é preciso eliminar toda e qualquer oposição ao sistema e jogar todas as fichas no herói, a individualidade que decide e que nasceu para sobreviver no final. Se a vitória vai depender mais de predestinação e profecias do que de estratégia militar o terceiro filme dirá.

 

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