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MONSTROS E CAVALEIROS
Published: May 31, 2005 - 10:27 AM
Nei Duclós
Há dois tipos de atores. Os monstros,
como Othon Bastos, Marlon Brando e Miguel Ramos, que se transformam em
criaturas assustadoras, como, respectivamente, Corisco, o Coronel Kurz
ou o vilão correntino do novo filme de Beto Souza, Cerro do Jarau
(interpretação premiada recentemente em Recife) . E os cavaleiros, os
que jamais deixam de ser o que são, mas nos convencem ao montar em
personagens inesquecíveis, como o Tiradentes sem barba do José Wilkerem
Os Incofidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, ou todos aqueles seres
que James Dean imortalizou no cinema. Entre os dois, há uma infinidade
de gradações, com Tom Hanks, Nick Nolte e Steve McQueen, mais próximos
do segundo grupo, ou Robert Duval e Monty Clift, grudados na elite do
primeiro.
ARFANTES - Na periferia desse trabalho, lá onde
nossa paciência tem limites, há os profissionais que acham a respiração
um passaporte para a grande atuação. Existem os arfantes, que sugerem
grandes emoções ao se deparar com alguma revelação que deveria ser
impressionante, como a Suzana Vieira do capítulo de ontem da novela das
nove, que respirou tanto que acabou desmaiando artificialmente em cena,
pois todo o exagero inicial precisa de um grand finale. Lembro Henry
Miller em Trópico de Câncer, que se retirou de um concerto de
Ravel porque começava com tambores. Se alguém começa com tambores vai
ter que terminar com canhões, argumentou o célebre vagabundo em Paris.
Há também os canastrões que dão respiradinhas rápidas para definir
determinação em seus personagens, como Tony Ramos, que vi em início de
carreira numa peça de teatro e jamais me convenceu em cena. Seu coronel
Boanerges na novela das seis abusa tanto da respiradinha que acaba
sendo uma marca do personagem o estado catatônico de quem não sabe para
onde respirar. Fica parecendo charme, mas é pura lógica: quem dá a
respiradinha fica assim mesmo quando se depara com alguma emoção que
não pode transmitir. O truque é não transmitir nada. Lembro Tônia
Carrero dizendo que atuar é fingir, o que é de um equívoco atroz. Os
verdadeiros atores não fingem em cena, ou eles se transformam no que
pedem para ser ou eles cavalgam a criatura sem piedade.
EXCESSOS
- Mulher é outro departamento. Os homens utilizam o excesso para impor
seu trabalho. Nada mais excessivo, e convincente, do que o bandido
paraguaio de Miguel Ramos no já clássico Netto perde sua alma,de Tabajara Ruas e Beto Souza. E o que dizer de Marlon Brando gritando com as mãos na cabeça Steeeeela em Um bonde chamado desejo?
Um parêntese: descobri porque o Arnadldo Jabor chamou o Brando de
Marlôn nas suas invectivas quando o ator maior morreu: como um dia foi
diretor de cinema, Jabor acha que pode tratar Marlon Brando pelo
primeiro nome, como se fosse íntimo e tivesse cacife para manipulá-lo,
como fez com inúmeros atores. Jabor teve a sorte de contar com Paulo
César Pereio em seus filmes e deu a impressão de bom cineasta. Mas
Pereio é o excesso de um monstro que cavalga a si mesmo. Ele é sempre o
mesmo, gostem ou não. É uma mistura dos dois grupos principais, já que
esta é uma classificação unilateral, que tirei da cartola. Normalmente
achamos o máximo o que Pereio faz no teatro e no cinema e nas vozes que
empresta aos comerciais (aquele som gutural criado em Alegrete, cidade
que um dia foi capital, por isso gera esses brasileiros definitivos
como Pereio ou seu irmão, o tremendo ator Pingo? Pingo detonou na
montagem brasileira da peça de Peter Brooks, Marat-Sade. Quando
entrei na platéia do teatro em Porto Alegre nos anos 60, Pingo já se
apresentava todo de branco, com aquele olhar que assusta até dragão).
MULHERES - Mulher é contenção máxima em cena. Quando explodem, normalmente não funcionam. A maior atriz do mundo é Vivian Leigh em E o vento levou.
Ninguém ficará livre daquela criação, Scarlet O'Hara, enquanto estiver
vivo. Bastou ela ficar em frente a um incêndio, sem dizer nada, para
que o diretor Victor Fleming tivesse certeza que era ela quem procurava
há mais de um ano, num concurso que movimentou os Estados Unidos (já
que o livro era best-seller absoluto), mas não deu em nada. Vivien não
disse nada para ganhar o papel e desliza no filme para comer com
farinha todos os atores desse grande filme, desde Leslie Howard até
Clark Gable (um ator-cavaleiro magnífico).
Eva Wilma chega perto, na obra-prima de Luis Sergio Person, São Paulo S/A (um dos três maiores filmes brasileiros de todos os tempos, junto com Deus e o Diabo, de Glauber e O Pagador de Promessas,
de Anselmo Duarte). Sua cena com Walmor Chagas (que tinha tudo para ser
um monstro), em que detona numa separação irreversível do casal em
crise, é inesquecível. Mas quem imita Vivian Leigh o tempo todo é
Elizabeth Taylor, que só se contradisse em Quem tem medo de Virginia Wolf,
quando precisou virar monstro para enfrentar o cavaleiro Richard
Burton. Quem pode com a força da contenção absoluta de Merryl Streep
contracenando com o cavaleiro Clint Eastwood? Ou com a contenção que
desaba em Geraldine Page, a atriz maior que nos arrebata quando aparece
em cena? Ao saber se conter, a atriz se excede em atuação.
GESTO
- James Dean fez o caminho do avesso: sua intensa contenção o leva para
o excesso masculino, que é o seu nicho verdadeiro. Lá ele arrasa. Quem
viu James Dean fazendo aquele gesto com a mão espalmada e os dedos
juntos, para Rock Hudson em Giant, sabe do que se trata. Seu
bigodinho fino, seu chapéu de texano, seu cabelo grisalho constroem com
esse gesto(que parece o desenho de um vôo definitivo)um momento sem
igual nessa arte incomparável que é a atuação. Que de tão grandiosa e
diversificada, nos escapa em qualquer tipo de classificação. Mas
qualquer método serve para fincar algumas balizas no caos. Por isso
arriscamos dizer o que nos ocorre, para homenagearmos esses seres que
acabam nos transformando em pessoas muito melhores do que um dia
sonhamos ser.
Comments
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Anonymous
Jun 20, 2005 |
Re: MONSTROS E CAVALEIROS
Concordo que VIVIEN LEIGH ( Vivien, por ser considerado mais feminino) uma das maiores, se no a maior das atrizes de sua gerao. Alm de sua beleza e talento temos o carisma incomparvel desta inglesa trazida a Hollywood por Myron Selznick, irmo de David O. Selznick - produtor de E o Vento Levou ... mas quanto a histria da filmagem do incndio de Atlanta at onde sei diferente. Myron havia conhecido Vivien na Inglaterra. Quando soube da fimagem de E o Vento Levou e das possibilidades de Vivien em encarnar o personagem de forma perfeita, resolveu lev-la at o irmo David, que j havia dado incio as filmagens do famoso filme. Vivien teria ensaiado os trejeitos de Scarlet durante a viagem. Quando chegaram s locaes estava sendo filmada a parte do incndio de Atlanta. Myron cuidou, segundo a lenda, para que Vivien fosse com um chapu para facilitar as coisas. Ao encontrarem o perfeccionista David, Myron teria dito: "Apresento-lhe a sua Scarlet O'Hara". David a olhou e no teve dvidas do indiscutvel potencial de Vivien ... e o resto histria. Ah, o diretor no era Victor Fleming, que foi um dos diretores chamado para dirigir o elenco masculino. O diretor que dirigiu muitas das cenas de Vivien e Olivia de Havilland era George Cukor, um diretor de mulheres e talvez, por isso o desempenho de ambas tenha sido magnfico. Miguel Gubert - Curitiba/PR |

