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NA PISTA DE RASTROS DE ÓDIO
Published: Aug 14, 2007 - 01:36 PM
Nei Duclós
Casamentos seriam a espinha dorsal deste filme maior?
Revejo,
agora em Dvd, The searchers, a obra-prima de John Ford. O rosto
crispado de John Wayne, seu olhar oblíquo de fúria embaixo do chapéu
negro, é a imagem mais poderosa do cinema. A cena em que ele levanta
Natalie Wood, assustada diante do gigante, trêmula e encantadora,
pautada pela frase “Vamos para casa, Debbie”, é incomparável: em nenhum
outro momento seremos testemunhas de tanta majestade humana, quando se
concentram, num mesmo gesto, o caçador e a presa, o ódio e o perdão, o
pecado e a remissão, a espera e o encontro. Mas não é disso que quero
falar sobre o filme que arrebatou o mundo desde que foi lançado em
1956. Mas abordar um veio riquíssimo da sua trama: o dos casamentos.
Podemos
balizar a obra pelos casamentos. Em primeiro lugar, a união de Martha e
Aaron, o irmão de Ethan (Wayne). A casa no meio do deserto, quente e
acolhedora, é a civilização em meio à barbárie. É para lá que Ethan se
dirige, depois de três anos vagando pelo mundo, desde o fim da guerra
civil, quando tinha lutado pelos confederados, o Sul vencido. Ele
tentou ficar longe, mas não conseguiu. Voltou para cobrar a conta. E
qual seria esta conta? A do amor perdido, já que Ethan é apaixonado por
Martha e vice-versa. Isso fica claro de maneira sutil e ao mesmo tempo
firme, quando os dois se encontram, quando se beijam num cumprimento
que deveria ser frio, mas é ardente. E fica explícito quando Martha
acaricia o casaco de Ethan, detalhe visto pelo Reverendo (a brutalidade
da Lei tentando se impor ao caos).
Esse
casamento perdido, esse descompasso entre o grande amor do renegado e a
mulher protegida pela casa civilizada e o matrimônio, seria a espinha
dorsal do filme. Ethan, no fundo, se culpa por ter perdido o seu amor e
também se culpa por ter se afastado da casa, o que deu margem ao
massacre promovido pela tribo de Scar (Cicatriz), o comanche que acaba
seqüestrando Debbie por mais de cinco anos. Ethan quer impedir o
casamento, a união renegada, entre Scar e sua vítima, entre o índio e a
mulher branca. A mestiçagem é o sinal explícito da derrota para Ethan.
É entregar-se ao inimigo e daí vem sua implicância com Marty (Jefrey
Hunter), mestiço que ele, Ethan, salvou de outro massacre quando era
ainda criança.
Temos então a tragédia dos
casamentos: a do irmão com a amada do herói e a do algoz com sua
vítima. Há outros dois, ambos envolvendo Marty, que casa por engano com
uma índia enquanto deixa a noiva esperando por longos invernos. Estes,
estão identificados com a comédia. Tanto a noiva índia que é jogada
para fora do leito conjugal aos pontapés, quanto a briga entre
pretendentes numa cerimônia hilária, são o contraponto à tensão gerada
pela perseguição. Ethan debocha desses dois casamentos cômicos,
enquanto procura novas pistas para chegar até Debbie, último vestígio
do casamento entre o irmão e a cunhada.
Seria,
Deus do céu, esse o motivo que Ethan tinha para acabar com a garota
logo que a visse? Sua justificativa é que ela não era mais branca, mas
mulher de comanche, e por isso deveria ser eliminada. Permitir esse
casamento espúrio seria a derrota final para Ethan. Mas a causa do seu
ódio não seria o ressentimento em relação a esse casamento que se
interpôs na sua vida, que o deixou de lado de fora da casa e da
civilização? Ser um renegado é um destino difícil de mastigar. Ser um
herói solitário só é suportável quando não há mais esperança. Ethan
tinha vontade de rever e reconquistar seu grande amor, por isso voltou.
Ao
primeiro sinal de desavença, ele explode com o irmão, numa das
seqüências iniciais. Paga, atirando um saco de dólares, sua estadia.
Naquela casa, havia também a vontade de tê-lo sempre por perto, tanto
por motivo de segurança (conforme a lembrança de um dos filhos do casal
na hora do perigo) quanto pela atração que Martha sente por ele. As
mulheres de John Ford, de longos aventais, têm a mesma força dos homens
na personalidade e nos atos. Há crueza nestas mulheres, autenticidade,
franqueza. São, portanto, inesquecívies, como todo o resto do filme.
Há
ainda o casamento longevo, da casa que sobreviveu aos ataques e que
recebe Debbie no final (o filme tem 40 anos, posso comentar o final!).
Lá naquela casa batida de leve pela brisa do deserto, onde Moses, o
Idiota adorável, enfim tem sua cadeira de balanço para descansar os
ossos, o velho casal recebe os rastreadores e a garota perdida. Uma
nova família se forma. Mas Ethan volta-se para o deserto e sai andando
por ele, enquanto ficamos do lado de dentro da casa, olhando pela porta
que enfim se fecha. É aqui, na civilização, que nos situamos, enquanto
o herói parte, solto como o vento, carregando suas feridas guerra.
Solitário, por ter perdido todas suas chances de viver em paz.

