NERUDA – O ANIMAL FERIDO DA PALAVRA
maio 13th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: LivrosNei Duclós
A poesia é a palavra diante da morte, a distância de um braço entre o poeta e seu destino. A tensão permanente do poema é a visão desse desenlace e é disso que se alimenta a sua eternidade. É por isso que o poeta sobrevive, não porque lute para ficar vivo, mas porque escreve sabendo que vai morrer. Quando, enfim, a última batalha desce sobre seu corpo em brasa, a obra grita, como condenada.
Pablo Neruda, morto há vinte anos, encarna esse animal que cruza todas as fronteiras e regressa à pátria para ser assassinado. Está na moda hoje destruir o mito para celebrar a exposição das vísceras, compensação de um tempo onde triunfa a indiferença. Assim, o vazio é confundido com virtude para privilegiar os “erros” de Neruda, como um poema para Stálin, por exemplo. Mas o que é datado, no poeta, morre com ele. O que permanece é o crepúsculo enrolado aos seus pés e a solidão, como um túnel.
Não é apenas a sua lírica que cresce quanto mais nos distanciamos do réquiem de 21 de setembro de 1973. Assoma a pátria, sua metáfora extrema: na hora em que morria , era o Chile que estava sendo devorado. Pois não bastava matar o presidente, era preciso também eliminar a esperança. Neruda entendeu que tinha chegado a sua hora. E acabou-se, puxando a toalha no momento em que os tiranos comemoravam a vitória.
Do seu engajamento fica essa encarnação do povo e terra, o lirismo épico de sua caminhada, a manutenção do mito, não restrito ao seu país. Ele pertencia a uma raça quase extinta, aquela que sumiu do mapa porque o mundo mudou de estilo. Já foi longe a época em que as nações cultivavam seu poeta, que recitava versos na praça e traçava biografias andarilhas.
Ele alimentava assim a multidão faminta de História, ainda presa a palavras hoje mortas, como atávico, mártir, telúrico. Era um artista popular da palavra, mas a mensagem que ele inventou para a rápida passagem do tempo atraiu a atenção dos lobos. Minaram então sua sorte trazida do berço, desmoralizaram seu andar partido, imitaram seu timbre, roubaram-lhe a voz. Pablo Neruda é a expressão maior desse romantismo tardio, desse último suspiro da imaginação emocionada, que morre nos braços do povo ao som da metralha.
Hoje, quando o Chile ressurge como tigre, lembramos o comportamento dos chacais. As manifestações do 20º aniversário do golpe de 1973 ainda não cobraram a conta. Falta visitar o túmulo do poeta, gritar seu verbo em praça pública. Para o Brasil, retalhado numa guerra interminável – exatamente porque adiamos todos os desenlaces – ele inspira o tom de eternidade, que nos escapa. Estamos presos demais à pressa, à ilusão eterna do presente.
Muitos poetas apostam no supérfluo, no fugaz, no palavrão – ainda iludidos de que é possível “chocar” alguém com gestos ou palavras, não fôssemos nós observadores permanentes das chacinas. A poesia brasileira costuma ficar dividida entre o mimetismo nerudiano e o espólio da demolição concretista, entre a pomposidade inútil e o falso vanguardismo. Estamos mergulhados demais no horror para enxergar a poesia.
É nesse túnel que deve se desenhar o poema ainda em silêncio, como um animal ferido. A longa cicatrização imobiliza o gesto, enquanto a palavra estilhaça nos vidros de uma nação que derrapou. Nesse exílio obrigatório, a morte de Neruda abre uma trilha. Ele identificou-se com a grandeza e a tragédia chilena e tornou-se o mais caro patrimônio do país. Precisamos deixar que ele nos toque com os dedos longos da palavra.
Não podemos entretanto, mergulhar no equívoco de endeusá-lo, nem nos deixar enganar pela maior parte da sua obra póstuma. O que ele mesmo publicou já basta: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, Confesso que Vivi, As mãos do Dia, Canto Geral, entre outros livros iluminados.
PABLO
Poema de Nei Duclós
Da cordilheira desce a lava que fecundou as ilhas
o sêmen das águas profundas
a mão que alimentou o arco-íris
Da cordilheira desce Neruda, o passageiro noturno
pai que nos jogou no meio do mar
braço possante colhendo a mínima flor
Do Chile desce o diamante que força o túnel
magia da clara mina onde o sol resiste
duro perfil de pássaro ferido
Das cidades sagradas da América desce Neruda
coração a serviço diário do futuro
ninho de um povo que ainda será livre.
notas: publicado em 18 de setembro de 1993, na “ZERO HORA”
pois é, meu caro… mas nós que amamos poesia, amamos Neruda e como o mesmo diria:
Amar é breve, esquecer é demorado.
Conheci o Machu Picchu por influências nerudianas. Ele é do tipo que cada palavra nos toca profundamente. Inesquecível!
Gostei do texto, parabéns!
Um texto iluminado com e feito pela poesia. O que nos salva e alivia é que ela ainda respira em cada texto que revenceria a sua simplicidade despojada de maiores ousadias. Ousado nela não deve ser como se escreve mas o que se expôe quando se faz poeta cada ser que inutilmente tenta mudar o curso das letras em busca de paz. Lindo texto. Beijos.