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NOTRE-DAME DE PARIS: UM LIVRO FEITO DE PEDRA
Published: May 13, 2005 - 05:57 PM

UM LIVRO FEITO DE PEDRA*
Nei Duclós

No capítulo II do Livro VI ("Ceci tuera cela" - Isto matará aquilo) Victor Hugo explica como a revolução de Gutemberg esvaziou e aniquilou a importância das obras da arte e da arquitetura antigas. Estas, eram os livros da humanidade antes que a palavra impressa tornasse a herança das gerações em algo indestrutível, exatamente por ser um instrumento simples, leve e infinito. Os novos monumentos deixaram de ser os templos, as igrejas e as pirâmides, mas as grandes obras literárias. É nesse enfoque que Notre-Dame foi escrito, o de tornar-se uma edificação não ameaçada pela ruína.
Por ser uma obra de transição, Notre-Dame está dividida entre o libelo - quando o autor lamenta os prejuízos sofridos pela catedral de Paris, promovidos pelo trabalho dos artistas, que substituíram os povos, as instituições e as nações na construção dos monumentos - e a celebração - quando ele abre mão de ficar preso ao passado para enxergar a importância das obras impuras, que misturam estilos e são a síntese de contribuições centenárias: "D’ailleurs, ces édifices de la transition du roman au gothique ne sont pas moins précieux à étudier que les types purs. Ils expriment une nuance de lárt qui serait perdue sans eux. Cést la greffe de lógive sur le plein cintre" (pg. 161, Cap. 1 Livro III).
Ironicamente,
o cinema e a civilização da imagem do século 20 fizeram sobre a obra de
Victor Hugo o que ele lamenta na livro em relação aos artistas
pós-Gutemberg. As adaptações cinematográficas - e as traduções
brasileiras, tanto na manipulação do título quanto na eliminação de
capítulos inteiros, como o já citado Ceci Tuera Cela - privilegiam o
Corcunda em detrimento da personagem principal, que é Notre-Dame.
Existem qualidades nos filmes feitos sobre o tema, onde o Corcunda é
interpretado por Lon Chaney, na primeira versão, muda, apresentada em
classe; por Charles Laughton, na segunda versão dos anos 30, exibida
pela TV Cultura; e por Anthony Quinn, na versão colorida dos anos 50.
Mas nenhum deles revela a verdadeira natureza dessa personagem. A deformidade de Quasimodo - nome derivado de uma data católica, um domingo depois da Páscoa, e que revela um trabalho inacabado - expressa a transmutação da igreja em caricatura, da arte substituída pela geometria, da cúpula identificada com a "bosse": "Voici les églises de Louis XIII, lourdes, trapues, surbaissées, ramassées, chargées d’un dun dôme comme d’une bosse (pg.250 do Cap. Ceci Tuera Cela). A descrição das caretas no Capítulo V do Livro I ajuda a esclarecer esse ponto: "Après toutes les figures pentagones, hexaghones e héteroclites que s’étaient succédée à cette lucarne sans réaliser cet idéal du grotesque que si etait construit dans le imaginations exaltées par l’orgie, il ne fallait rien moins, pour enlever les sufrages, que la grimace sublime qui venait d’éblouir l’assemblée" (pg.88).
Essa
careta sublime tem um nariz "tètraèdre", enquanto seu olho direito
desaparecia sobre uma enorme verruga - e é preciso destacar "toutes les
verrues e tous les fungus que défigurent cette vieille architecture
caduque", como diz o autor na pg. 250. Invocando a geometria, Victor
Hugo mostra como a arte se desfigurou nos séculos XVI, XVII e XVIII: "A
partir de François II, la forme architeturale de l’édifice s’efface de
plus en plus et laisse saillir la forme géometrique, comme la charpente
osseuse d’un malade amigri. Les belles lignes de l’art font place aux
froides et inexorables lignes du géometre. Un édifice nést plus un
édifice, c’est un polyèdre.(...). De François II à Louis XV, le mal a
crû en progression geométrique. L’art n’est plus que la peau sur les
os. Il agonise misérablement." O Corcunda é portanto uma deformidade da geometria, a anti-arte, a expressão da Queda. Por isso ele dança sobre o abismo antes de projetar-se definitivamente nele: "Le sonneur recula de qualques pas derrière l’archidiacre, et tout à coup, se ruant sur lui avec fureur, de ses deus grosses mains il le poussa par le dos dans l’abîme". Mas ele é inocente, vítima da hipocrisia dos homens e das instituições como a Igreja e a Magistratura, que condenam pessoas do povo à morte. Nos julgamentos de Quasimodo e Esmeralda, o folhetim penetra o monumento, o drama encharca a pedra.
O bobo - "cloche" - dança no alto da torre como um sino - "cloche" - chamando a atenção dos mendigos - "cloches". As palavras, em Hugo, são as pedras do livro, com múltiplas funções e cruzamentos. "Cour" é corte e pátio, é instituição e espaço marginais. Paris vista do alto da Notre Dame é uma soma de monumentos, embalada pelo som dos sinos:"...que cette cité qui n’est plus qu’un orchestre; que cette symphonie que fait le bruit d’une tempête."

Nos filmes, Notre-Dame, que é a verdadeira personagem principal em Victor Hugo, fica em segundo plano. A igreja-cenário não se destaca, serve apenas de moldura para o dramalhão do amor teatral entre o soldado e a dançarina, da tragédia da mãe desesperada que deseja morte da filha, da obsessão e o ciúme do irmão do diácono.
O enfoque do romance é oposto ao do cinema. No livro, as personagens existem em função da igreja e as pessoas são as forças liberadas pela decadência da arte. O escritor Gringoire vaga perdido pelas ruas de Paris sem descobrir a importância que assumiu sua profissão depois de Gutenberg: "... et voyant que je nétais bon à rien, je me fis de mon plein gré poète et compositeur de rythmes. Cést un état quón peut toujours prendre quand on est vagabond..."(pg 152, Cap. VII, Livro II).
Em
oposição a esta imagem do escritor no século 19 - que Victor Hugo
denuncia ambientado no século 15 - um livro feito de pedra como
Notre-Dame de Paris instaura uma postura intelectual sólida. A obra
literária opõe-se à decadência, resgatando a grandeza perdida da arte.
Em Gringoire, as palavras são como a caiação deformando antigos
monumentos. Em Victor Hugo, elas funcionam como uma orquestra e assumem
a força de uma tempestade.BIBLIOGRAFIA HUGO, VICTOR - "NOTRE-DAME de Paris", - Préface de Louis Chevalier. Folio Classique, Texte Integral - Paris, Gallimard, 1966/1974/1996 |
*texto
apresentado na cadeira de História Social da Arte,
da professora Teresa Aline, no segundo semestre de 1997.
Comments
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priscila_pmo@hotmail.com
Oct 21, 2008 |
priscila
esse livro é muito legal parabens ao outor.... |
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