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O ADMIRÁVEL CINEMA ARGENTINO
Published: Sep 08, 2007 - 03:00 PM
Nei Duclós
Eu escrevia sobre o que não entendia. Deveria ter escrito sobre o
medo. Por medo te perdi, por medo trabalho num lugar que odeio. Eu
achava que tudo o que eu tocava virava ouro. Mas descobri que tudo o
que eu toco vira merda."
(Fala de Ricardo Darin no filme "O mesmo amor, a mesma chuva", de Juan José Campanella)
O cinema argentino é a expressão de um país que amadureceu quando foi
destruído pelas perdas internacionais, gerenciadas cruelmente por uma
elite interna traidora. Os argentinos colocam os torturadores da
ditadura na cadeia, expulsam presidentes a panelaços e não perdoam o
que fizeram com eles. Por isso seu cinema é tão notável, disparado um
dos melhores do mundo na atualidade. Existem inúmeros exemplos, mas
prefiro ficar com os três de Juan José Campanella, estrelado por esse
fantástico talento que é o Ricardo Darin: O mesmo amor, a mesma chuva (1999), O filho da noiva (2002) e O Clube da Lua (2004).
PUNIÇÃO - Vejam que temas! Temos exemplos de sobra no Brasil para
fazer algo parecido (por que não seguimos o exemplo, sem imitar pura e
simplesmente?), mas preferimos outra coisa. Há, entre nós, a certeza
granítica de que nos livramos dos opressores e que vivemos njuma
democracia, o que seria o álibi perfeito para a aceitação covarde de
mais ditadura.
E a vida econômica? Somos capazes de entender perfeitamente o que é
um spread, mas acusamos o golpe quando se fala em ações humanas comuns
e que fazem parte da vida de todas as geraqções. Comprar, vender,
ganhar o pão com o suor do rosto são atividades multimilenares. Então
ficamos pasmos com esse tipo de preconceito. Como o mundo da
honestidade é altamente suspeito, então se entroniza a putaria como
modelo de comportamento. Transgredir o tempo todo é a expressão de um
país, o Brasil, que não amadureceu quando foi destruído pelas perdas
internacionais e pela elite traidora interna. Os torturadores,
ditadores, morrem de velhos, depois de continuarem dando as cartas. Por
que acontece isso? Porque nos falta coragem, que sobra entre os
argentinos.
No cinema, na maioria das obras,
somos adolescentes tentando impor nossa sexualidade, a confirmar aquilo
que uma senhora muito digna e debochada dizia: os jovens acham que só
eles trepam. Vejam alguns exemplos. Cidade Baixa, fica parecendo a
celebração da turismo sexual e da prostituição que se quer charmosa.
Existem intermináveis cenas de sexo explícito, como a mostrar como se
deve trepar. Bem no meio de qualquer cena, as pessoas se pelam e
começam a fungar.
VOLTAGEM - Vejam que cena
erótica. Ricardo Darin se separou e dorme no clube. Lá, encontra colega
da diretoria tentado roubar o cofre, pois está desesperada com a falta
de dinheiro e o desemprego. Ela pede perdão e os dois saem até a casa
dela. Na hora de se despedir, ela o convida para ficar. Ele recusa, e
enquanto argumenta começa a beijá-la. Os dois se colocam em pratos
limpos: dizem que estão apaixonados por seus ex-parceiros. Feito isso,
entram na casa.
A cena mais importante e sem dúvida, antológica (é talvez a melhor cena do cinema contemporâneo) é a discussão entre os sócios do clube , que vão decidir se vendem para um grupo de investidores que querem fazer dele um cassino. É uma cena longa, em que dois protagonistas argumentam, um a favor da venda, e outro contra. Darin (o cara que é capaz de mostrar emoção suprema sem mover uma linha de rosto, como acontece na cena em que assiste o balé da filha) dá razão ao seu adversário, que acena com empregos para os sócios do clube. Mas pergunta se a razão é suficiente. E arremata: não perdi minha integridade, pois quando as porcarias eletrônicas estragaram e eu fiquei desempregado, vim aqui no clube e permaneci inteiro. E pergunta: que valor (ele se referia ao dinheiro) existe na amizade entre nós? Em O mesmo amor, há também uma cena inesquecível e brutal: a briga do jornalista veterano contra o editorizinho de araque que desvirtuou os rumos da revista. Nada mais atual, nada mais revelador.
Esse é o grande valor do admirável cinema argentino, que encerra as principais lições que devemos urgentemente aprender. Chega de coxa e rola pulando em frente às câmaras. Transgressão verdadeira é outra coisa: é resgatar o que perdemos nessa ditadura global que nos escraviza. E não ficar pelado, disponível para o deboche internacional.
P.S. - Cao Hamburger resolveu imitar o cinema argentino e fez do seu "Quando meus pais saíram de férias" praticamente uma refilmagem de "Valentin", de Alejandro Agresti. Ou seja, somos capazes de fazer algo parecido, só precisamos de nossa própria maneira de filmar. Já tivemos isso, mas perdemos demais. .

