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O ENGENHO COMO ARTE
Published: Mar 31, 2007 - 08:23 AM
Nei DuclósArte é quando o engenho,
auto-consciente, atinge o esplendor. Pode-se objetar que uma
instalação, uma desconstrução, ou qualquer tipo de ruptura prescinde do
conceito tradicional de engenho, até mesmo é concebida contra ele. Mas
essa é uma percepção falsa, pois o que conta, nesses casos, é a idéia
que engendra esse avesso artístico (hoje já instalado como oficial). É
preciso que a concepção transgressora atinja o estado de arte para que
o resultado seja visto como tal (o produto da idéia pode ser
considerado tosco ou inapropriado, mas não a idéia em si; se for, aí
sim deixa de ser arte).
Na literatura, desde o engenhoso
fidalgo da Mancha, e com a intensificação das inúmeras vanguardas, esse
esplendor auto-consciente faz de cada leitor um aprendiz do ofício e
não é por acaso que multipliquem-se os escritores à medida em que
aumenta o volume das leituras. A literatura não serve mais para
ludibriar ninguém e talvez nunca tenha servido. Foi preciso que a
acidez da crítica, as experiências inumeráveis, o destelhamento das
ilusões e o mergulho nas engrenagens da sociedade do espetáculo
conseguissem seus intentos para descobrimos o quanto os escritores dos
séculos anteriores ao período de desmistificação também dispunham do
mesmo projeto de entregar a chave dos segredos literários. E o quanto
ficou impossível, depois, escrever sem conformar-se com o olho clínico
que varre qualquer tentativa de ilusionismo na escrita.
Mas isso não significa que a literatura
tenha esgotado seu arsenal de encantos e mistérios. Pandora mítica ou
real, a literatura tem sempre a última palavra, apesar dos decretos que
tentam fazê-la migrar para outros ofícios. O truque de alguns
escritores especiais, exaustos de auto-consciência do que fazem e assim
mesmo dispostos a não deixar para a próxima encarnação a composição de
uma obra, é deixar-se levar pelas evidências. É, aparentemente, compor
com o inimigo, submeter-se aos seus desígnios e deixar para a mente do
espectador o fato de que existe um piscar de olhos no final – aquele
tipo de gesto identificado com a esperteza do protagonista que consegue
ludibriar a todos e reserva para si o carisma de quem tudo fez em nome
do triunfo da arte.
O professor de literatura Javier Cercas, autor do celebrado best-seller Soldados de Salamina,
entre outros livros, é um artista dessa espécie que deveria ser mais
numerosa, mas que é escassa, já que só o talento não basta, é preciso
transformá-lo em algo superior. Ele é como o pintor que expressa sua
técnica em cada pincelada e deixa exposta as sucessivas camadas de
tinta que usa para compor seu quadro. É como um artista tradicional
lancetado pela sem-cerimônia do laser, do raio-x e de todas as
artimanhas modernas que expõem a minuciosa arquitetura de uma obra,
desde sua concepção até o final. Ele faz isso em todos os seus
trabalhos, mas em O ventre da baleia (Francis, 304 páginas) ,
se supera: o domínio pleno do ofício, aliado a uma auto-consciência (do
ato de escrever) impiedosa e reveladora, nos joga fora do aquário (ou
do ventre da baleia) complacente dos hábitos de leitura que ainda nos
mantém presos a uma ultrapassada imaginação narrativa.
Javier Cercas não se aproveita desse fato de que
ainda não assimilamos o suficiente os avanços da cultura, apesar das
evidências em contrário (nossa obsessão em defender a liberdade de
expressão a qualquer custo, enquanto nos refugiamos na comodidade de
algum enganador). Ele sabe o quanto somos superficiais nas nossas
convicções, por isso nos atualiza, nos lembra o quando houve de
transformações radicais na literatura. Em cada cena descrita, há sempre
essa webcam permanente de um espírito-que-anda (o fantasma
imortal) das letras, atento a tudo e pronto para entrar em ação, como
de fato entra.
Isso serve principalmente para os personagens,
todos descritos de maneira tradicional no físico, na aparência, nos
sinais externos, mas revelados em todas as suas contradições no que
imaginam e pensam. Aqui é preciso entender o que é contradição em Javier Cercas. Não
se trata do contraponto entre raiva e alegria ou entre tristeza e paz.
Mas entre a personagem esculpida em palavras, frases, sílabas, letras,
pontuação e a personagem que luta contra sua precária condição de coisa
inventada. Há contradição entre essa criatura concreta, feita de
linguagem, e a que se forma na cabeça do leitor.
Tendemos a pegar a unha o que existe
de tradicional no texto (as costeletas, a bengala, o cabelo curto, o
cigarro), mas precisamos conviver com a desdramatização permanente
imposta pelo autor: a narração escolhida para lembrar, mas que vai em
direção ao esquecimento; a mentira como caminho da verdade; o fluxo
interrompido pelo detalhe. O autor que lê a si mesmo o tempo todo
deságua inclusive num personagem que tem seu próprio nome, o que é o
cúmulo da auto-flagelação imposta pela auto-consciência. O Javier
Cercas fictício, que interage com os outros personagens, se destaca
assim do protagonista Tomás, mas não do verdadeiro Cercas, que utiliza
um truque barato para denunciar sua obsessão pela transparência.
Isso também faz parte de sua caixa de
mágicas. Significa que, mesmo levando às últimas conseqüências a
devassa do engenho literário, este ainda tem capacidade de atingir o
estado de arte, levando de roldão, por sua vez, os truques da crítica
que tentou desmoralizá- lo. Pois a literatura a tudo devora, desde que
existam escritores como Javier Cercas, uma espécie de ilusionista
disfarçado de encanador, que vem consertar o vazamento e acaba
inundando o bairro com sua descompostura.
Seu romance, publicado pela primeira
vez na Espanha em 1997 e agora traduzido por Bernardo Ajzenberg,
funciona como um curso de literatura, sem o capital simbólico do
professor para atrapalhar. Ele conta apenas com seu engenho, que
identifica leitor e autor em todos os lances, descritos numa oposição
básica entre destino e caráter. Todos somos capazes de tentar ser
pessoas de destino, ou épicos, que só pensam no futuro e recordam o
passado para inventá-lo. Mas acabamos sendo pessoas de caráter,
conformados com nossa pequenez e falta de alcance.
O grande perigo é que, ao nos lançarmos na
aventura do destino, não haverá meio de voltarmos para casa do caráter.
Mesmo que estejamos imobilizados, teremos dentro de nós o vulcão que
nos denuncia. E nossas trivialidades se revelarão, como neste romance,
de maneira tempestuosa, como as mudanças bruscas de estação, capazes de
nos jogar no miolo do furacão. Lá onde encontraremos frustração,
miséria, dor, solidariedade e euforia. Teremos então a chance de sermos
humanos, ou de descobrir, ao nosso lado, a arte que nasce quando
buscamos a perfeição de nossos pequenos e defeituosos engenhos.

