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O ENTRA-E-SAI DAS REDAÇÕES
Published: Nov 18, 2007 - 11:41 AM
Nei Duclós
O rodízio bem remunerado de algumas cabeças coroadas do jornalismo
coincide com a crise cíclica nos veículos de comunicação. Parece que
fechar redações é a especialidade de alguns profissionais que cometem
sempre os mesmos erros, levam de um lado para outro as mesmas pessoas e
acabam sendo os cortadores oficiais de empregos. Qual será o segredo de
sempre serem chamados para assumir cargos importantes, já que costumam
fracassar?
INVENTAR O EMPREGO – Um cargo de alto nível é acertado em território
neutro, um restaurante de luxo, um escritório no milésimo andar. A
argumentação convincente numa mesa de negociações normalmente nada tem
a ver com a realidade de uma redação. Diz-se o que se quer ouvir,
acertam-se valores, firmam-se pactos. A identificação mútua vem do
chamado capital simbólico, acervo acumulado numa imagem pública que nem
sempre tem a ver com sucesso, mas com credibilidade.
É preferível, segundo esse raciocínio, alguém que já esteve em algum
cargo importante do que arriscar em outro sem essa experiência. Para
que mudar? Existe muito dinheiro em jogo e também leva-se em conta a
repercussão de uma indicação. Sofre-se antecipadamente com a
possibilidade de o indicado ser alguém sob algum tipo de suspeita, como
"revoltado", ou o mortal "muito competente, mas..."
Há também o link com a publicidade: um nome de peso pode transmitir
sossego no mercado, ajuda a manter a carteira de clientes. Isso tudo
acaba em tragédia. O que está em jogo é a responsabilidade dos
jornalistas num projeto comercial. Se existem pessoas do ramo
consideradas confiáveis, então elas são ungidas nas suas novas
atribuições. Se não existem, então coloca-se alguém da outra área: do
marketing ou, o que tem sido comum, do próprio patronato.
O MEDO DA CONCORRÊNCIA - O dinheiro reservado à remuneração dos
jornalistas tem trocado de mãos ultimamente, pois as empresas de
comunicação meteram-se em negócios gigantescos, fora do seu nicho,
atraídos pela ambição de grandes ganhos e iludidos pelo horror natural
que no Brasil se tem à concorrência. Todos correram para amealhar mais
poder e acabaram transformando seus calcanhares em areia e seus pés em
barro.
Os veículos que os projetaram entraram numa espiral de decadência e
alguns sofrem intervenções do capital financeiro. A solução é trazida
também de fora das redações, intensificando os erros. As consultorias,
que muitas vezes são remuneradas pelo número de cabeças que cortam,
colocam suas grandes patas de urso nas redações demitindo gente
qualificada e cortando a relação produtiva que deve existir entre
veteranos e estreantes (que é garantia de transmissão de competência de
uma geração para outra).
Dá-se poder aos menos capacitados porque são mais baratos e mais
dóceis. Resultado: ficam na rua quadros magníficos, que fariam inveja
em qualquer redação do mundo, enquanto os veículos, que enriquecem
profissionais de outras áreas, continuam em crise.
CORTE DE LUCROS - A crise do jornalismo vem da falta da qualidade.
Não dá vontade de comprar jornal ou revista na banca, a não ser por
hábito (mas aí a pessoa assina). Os jornalões são iguais e as revistas,
em sua maioria, péssimas nas suas superficialidades. Isso abre espaço
para experiências alternativas. Proliferam atualmente inúmeros
veículos, de toda parte do Brasil, e essa é uma tendência saudável, mas
muito fragmentada. É preciso reunir um monte dessas publicações para
compor um pacote razoável de leitura.
Nesse nicho também não foi encontrada uma solução, pois volta e meia
alguma revista fecha ou fica confinada a um alcance regional. O
problema é que existe muita experiência e talento dando sopa na praça,
dispersos em trabalhos free-lances, desconcentrados e muitas vezes
amargurados. Enquanto isso, triunfa a barbárie das demissões em massa,
da mesmice das reportagens e colunas, dos erros repetidos até a
exaustão.
A solução é chamar os competentes de volta, resgatar a escola
informal das redações – que sempre foram capacitadas para treinar seus
quadros – criar novos projetos fora da idolatria publicitária dos
segmentos, das linguagens "jovens", e das abordagens
"você-é-tão-sacana-que-merece-o-veículo-que-está-lendo". Deve-se atrair
leitores com textos e fotos de primeira linha, fazer parcerias com os
veículos alternativos e jogar na lavoura o grupinho de jornalistas que
fecham ou desestruturam jornais e revistas.
Não se pode mais continuar punindo quem consegue gerar empregos nas
redações (por serem autores de projetos bem sucedidos) e premiando
aqueles que só sabem fazer cortes, inclusive dos lucros. O problema é
que acertar o veio não é levado em consideração: o importante é o que
se fala no restaurante de luxo ou na reunião do milésimo andar. Aí mora
o perigo.

