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O FALSO CINEMA DE AUTOR

Published: Nov 15, 2005 - 12:03 PM

Nei Duclós

Brian de Palma e Martin Scorcese - e sua versão ainda mais perversa, Quentin Tarantino - substituíram o espaço criado nos anos 60 e 70 por inventores como Arthur Penn e Sam Peckinpah, e por meio de um cinema vazio e apelativo tentam assumir a postura de autores, quando não passam de comerciantes da pior qualidade com pose de pais da matéria. Enquanto isso, a linhagem que tem Nickolas Ray como estrela maior encontra em Clint Eastwood sua mais bem acabada realização. Já David Lean e Fred Zinnemann continuam sós, ocupando a olimpo da genialidade sem terem deixado descendentes.

TUDO DESÁGUA NELE - Scorcese costuma pontificar na televisão como uma espécie de historiador do cinema, com um detalhe: o de que toda a maravilhosa produção cinematográfica italiana, de Vittorio de Sica a Fellini, de Rosselini a Visconti, acaba redundando na própria obra dele, Scorcese. Não é muita pretensão? Basta aturar o horrendo Taxi Driver, um filme que confunde transgressão estética com a instauração de uma indústria da maldade e da perversão, para ver que tipo de mente doentia tem esse sujeito. O cinema dele suga o espectador para devolver nossa alma em farrapos, e isso não pode ser encarado com um elogio (é moda aplaudir o horror como se fosse vanguarda). Tem sua porção italianinha com os Bons Companheiros, que ele tenta misturar comédia com tragédia, tentando imitar o "truque " (na versão dele) de De Sica, esse sim um gênio, que criou inúmeras obras-primas, como Ladrões de bicicleta e Casamento à italiana (inteiramente chupado por Silvio de Abreu numa dessas novelas globais). Scorcese adora usar esse canastrão de marca maior, Robert de Niro, que não serve nem para engraxar os sapatos de Al Pacino e acha que fazer careta é arte de primeira grandeza. De Niro se presta a inúmeras performances que só intensificam sua falta de jeito e talento para esse ramo. Basta um milésimo de Sean Penn, um cordão de sapato de Tim Robbins para desmascarar essa fraude. Scorcese não faz cinema de denúncia (já que é sabujo do sistemão) como Arthur Penn, que em Caçada Humana ou Bonnie and Clyde consegue fazer um retrato da América fora do círculo de giz do autismo ideológico dessa nação. É por isso que encontraram em Scorcese o antídoto perfeito para o impacto causado por Penn, um cineasta como poucos. Além disso, Scorcese está longe de contribuir para o cinema como fez Sam Peckinpah, que colocou sangue na tela (o que era proibido pela censura estética conservadora) e filmou pela primeira vez a morte em câmara lenta (o que agora é usado até o infinito) sem se dobrar aos maneirismos "de autor", apenas criando novas soluções visuais para traçar o perfil da América violenta. Cineastas originais precisam ser corajosos, o que não é o caso de Scorcese.

ENGULHOS - Nem tampouco Brian de Palma, essa contrafação do suspense, que, em princípio, odeia mulher. Está passando na HBO Femme Fatale, uma palhaçada com o execrável Antonio Banderas (o pior ator do mundo) e uma fauna de preconceitos (o negrão facínora, a loura vagabunda e cruel, a morena coitadinha, as lésbicas exibicionistas). Tudo provoca engulhos. O roteiro é ridículo, a apelação é extrema. O pior é que de Palma (e isso o aproxima de Scorcese) começa o filme transcrevendo um clássico do cinema noir, com Fred McMurray, como se essa citação o encaminhasse para a glória da autoria, como se fizesse parte do seleto grupo de criadores. Sua versão anódina de Os Intocáveis tinha essa mesma ilusão. O resultado foi um filme cheio de falsidades (como a tentativa de reproduzir a célebre cena de Eisenstein em Outubro, a do carrinho de bebê que desce a escada), além de um ridículo, como sempre, Kevin Kostner, o pseudo galã exilado de qualquer carisma. A cena do assassinato de Angie Dickinson em Vestida para matar é uma sucessão de barbaridades, a declarar o ódio que o autor devota ao sexo que ele deveria admirar. Acham essa cena o máximo, mas é apenas uma maneira de marcar o cinema com momentos de alta voltagem comercial, no pior sentido. Tudo não passa de comércio. Não há, nesses filmes, sinceridade que poderia até gerar muito dinheiro. Há apelo, como se o espectador fosse um sádico igual aos cineastas que produzem esse tipo de porcaria. E vocês notam a cara séria que eles fazem quando dão entrevistas sobre sua "arte"? Como se todos fossem obrigados a acreditar nas mentiras que contam.

RAÍZES - O tal de Tarantino, que nos explode a paciência com suas intermináveis arengas recheadas de violência gratuita, é ainda pior. Ter sido convidado para ser jurado em Cannes é puro deboche. Ele faz parte de uma camada de nulidades o­nde despontam coisas como o "diretor" Mel Gibson, o rei da patriotada barata. O novo filme de Gibson sobre Cristo deve ser uma besteira só. Sabe-se que ele, claro, apela para a violência estúpida que caracteriza toda a sua obra de ator e diretor. Gente desse quilate merece repúdio. Eles infestam o mundo do cinema e exercem péssima influência. Quando sabemos que David Lean se fez num caldo de cultura o­nde tinha Alexander Korda e Noel Coward, e que Glauber Rocha bebeu em Visconti de Terra Trema para fazer seu Barravento, e que Walter Salles seguiu os passos de Gloria, de John Cassavetes (autor de verdade) para compor sua obra-prima, Central do Brasil, notamos que o gênio nasce, mas precisa de ambiente para evoluir e se expressar. Num espaço tomado por inutilidades, fica difícil despontar os autores que mereçam ser vistos e respeitados.

 

Comments

Anonymous
Jan 04, 2006
Duro de engolir
Chamar Scorsese (no Scorcese, como est escrito no seu pseudo-artigo), De Palma e Tarantino de cineastas de baixa qualidade, na mesma matria, demonstra o quanto voc leigo em se falando de cinema. Como chamar os diretores de "Taxi Driver", "Dubl de Corpo" e "Ces de Aluguel" de porcaria e, logo aps, querer se mostrar entendido em cinema duro de engolir. Infelicidade a minha de o Google ter-me mostrado esta pgina. Uma pergunta: por acaso, com todo o seu "conhecimento" cinematogrfico, conhece Argento, Murnau, Pang Brothers, Barker, Romero (interrogao)

Mais uma observao: no Kostner, e sim Costner.
Anonymous
Jan 07, 2006
Re: Duro de engolir

No sei a quem estou respondendo, j que que o comentrio annimo. Os cineastas citados, como diz o ttulo, so representantes do falso cinema de autor. Usei as inutilidades que voc admira para contrap-las aos autores de verdade, citados no meu artigo. Escrevo no para demonstrar conhecimentos, mas por fora (vocacionada) do ofcio. Portanto no h nada de pseudo no meu artigo, j que ele expressa minhas posies (assinadas) sobre o assunto e se baseiam em dcadas de leituras e de sesses de cinema. O que acho pseudo querer medir foras exibindo acumulao de contedos. No fao parte dessa gincana.O que vale no a quantidade que voc estoca no seu ba de capitais simblicos, mas o que voc pode raciocinar e criar com o esprito livre. Assinado: Nei Ducls.    

Anonymous
Jan 07, 2006
Re: Duro de engolir

Trata-se de um expediente rasteiro querer desqualificar o interlocutor fazendo correes de letras dos nomes das celebridades. Os franceses preferem Scorcese, como prova o site Le Quotidien du cinema. No site da Amazon, entre outras milhares de ocorrncias, Kostner est com K. O Google, que parece ser a nica fonte dos conhecimentos tericos do comentarista annimo, d razes de sobra para isso que ele aponta como erro. Pontificar exibindo erudio (!) corrigindo pronncias ou apontando a maneira correta de se escrever um nome tpico de mentalidades medocres.  

Anonymous
Mar 03, 2006
Re: O FALSO CINEMA DE AUTOR

Que texto agressivo....

Anonymous
Jun 07, 2006
Re: O FALSO CINEMA DE AUTOR
Lugar engraado esse: em cima do muro. Mas me coloco l s vezes... Hehe...
O artigo mostra conhecimento por parte do autor, o qual sofreu crticas (ou melhor, crtica) de quem parece tambm saber do assunto, bem mais do que eu alis. Porm tiro boas coisas de ambos e acredito que alcanar extremos tanto pode ser bom quanto ruim. Isto porque penso que o texto erra em criticar diretores ("autores") que tem contribudo para o cinema e, sendo estes execrados, d uma idia de extrema superioridade, o que acredito que ningum de carne e osso possua. Tanto o que erros de grafia aparecem no texto, porm como aparecem erros nos filmes de renomados diretores. Porm, isto no os torna de todo ruins, ou menos plausveis, no somente por isso.
Marcos Cavutto
Nov 06, 2006
Concordo em parte

A meu ver, o problema todo do cinema no est na qualidade dos diretores, mas no fato de que a ganncia que hoje rege a indstria do cinema se impe sobre todo e qualquer outro critrio, deturpando a qualidade genuna que poderia advir da criao de um diretor de talento. David Lean, Fred Zinnemann e outros conseguiram manter a excelncia de suas obras porque de alguma forma sua gerao estava relativamente imune presso comercial. O que houve com os diretores mais recentes, como o citado Scorsese, que a qualidade de suas obras caram de uma forma abjeta, para se adequarem a este novo critrio de fazer milhes( se possvel bilhes) de dlares com um filme. No d para comparar um filme como Taxi Driver, que considero timo, com o recente Gangues de Nova York ou O Aviador, os ltimos trabalhos de Scorsese so um insulto ao cinema. Algo que eu gostaria de entender : Como detestar Scorsese e gostar de Peckimpah? Basta lembrar da obra mais conhecida deste ltimo, Sob o domnio do medo, para lembrar que a violncia neste filme supera a de Taxi Driver, chega a ser nauseante, nem por isso o filme ruim.

Nei
Nov 06, 2006
Postura

Muito bem colocado, Marcos. Gostei da sua argumentao e da sua seriedade. Mas vejo em Peckimpah, apesar da violncia excessiva, originalidade e intenes genunas de um cineasta, ao contrrio de Scorsese, que me parece pomposo e vazio e portanto um cineasta cheio de falsidades. Peckimpah aborda a violncia intensificando-a, enquanto Scorsese e Tarantino querem apenas explorar a bizarrice para efeitos comerciais. A presso comercial existia antes, o problema que Ford, Zinneman se impunham, no eram um vermes que abaixavam a cabea para a mquina. Usavam o sistema para o cinema de autor e no faziam como os sujeitos citados, que usufruem da tradio do cinema de autor para fazerem pose do que no so.

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