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O FÔLEGO, O FOLE, O SOPRO
Published: Jun 08, 2005 - 12:42 AM
Nei Duclós
Fala o fole da sanfona/ fala a flauta pequenina/ que o melhor vai
vir agora/ que desponta a bailarina/Que seu corpo é de senhora/que seu
rosto é de menina/Quem chorava já não chora/quem cantava desafina/ que
a dança só termina/ quando a noite for embora (Sidney Miller, em O
Circo).
TORNO - Romance é fôlego e embocadura. Um não sobrevive sem
outro, assim como não se estabilizam numa obra sem a argamassa do
talento, material perecível que poderia secar ao relento por falta de
uso. O talento pode parecer fonte generosa de literatura, mas sendo
argamassa também dá trabalho, pois é feito de insumos básicos, esses
sim fartos. Como a água e o cal (que o exagero das comparações pode
sugerir sensibilidade e lucidez), eles ganham tessitura própria se
forem misturados corretamente numa criatura ao nascer, ou quando se
desenvolvem nos terrenos banhados pela Graça. Ao contrário da poesia,
que é ar puxado para dentro e existe mesmo em respiração curta, o
romance expira o mundo que inventa e com ele divide a loteria de
permanecer ou sumir do mapa. O romance sai e é trabalhado por esse fole
cultivado no torno duro do exercício, ferramenta que pode desafinar se
não for bem torneada, e quebrar se não estiver à altura do esforço
feito pelo autor.
ABISMO - Por sua formação e grandeza, Tailor Diniz está no
avesso desse tipo de metáfora para seu ofício. Entretanto, por opção
deste texto que aborda seu romance inédito, A Vampira do Lago, ele não
escapa ao destino dos romancistas: ganha fôlego ao desenhar o canal por
onde sairá seu sopro, e tem o cuidado, como todo escritor de grande
porte, de deixar bem azeitadas as aberturas do seu teto, a realidade
por onde entra o alimento que declara a guerra. Ciente da gravidade da
tarefa, ele cultiva o talento não como jardim, mas como canteiro de
obras. Seu edifício é orgânico, feito da palavra certa, da descrição
completa, da rede fina e eficiente tecida em fios de civilizada
competência. Um trabalho tão bem acabado que dispensa o elogio da
resenha e nos obriga ao abismo do ensaio.
TRAMA - A composição das falas em A Vampira do Lago é uma obra
admirável de engenharia literária porque nos engana o tempo todo.
Primeiro, porque o depoimento pessoal é a descrição objetiva, se não
dos fatos, pelo menos da geografia escolhida, o norte do Rio Grande do
Sul rodeado por represas e traumatizado pela expropriação das
hidrelétricas. Essa objetividade serve para nos encantar por termos
acesso a lugares que nunca visitamos e ficam se descortinando nos
mínimos detalhes na nossa frente. Mas serve também para nos enredar na
trama que se desenrola na pequena cidade de Novas Trigais e assim nos
confundir na viagem para impactar no desfecho. Artimanha de escritor,
poderão dizer, mas é mais do que isso. É denúncia mesmo, pois a
descrição da paisagem é nossa principal fonte de equívocos. E é
denúncia porque esses equívocos condenam os homens desse lugar que,
apesar de viverem num território expropriado pela tecnologia, insistem
em enxergar o mundo ditado pelo chão que não existe mais, pelo menos
não existe da mesma forma com que foi descrita desde tempos remotos.
RITUAIS - Em segundo lugar, a presença do narrador tradicional,
que aparece em capítulos alternados ao depoimento pessoal, serve para
nos colocar diante de outra armadilha: a de que estamos seguindo o
entrecho com a certeza emitida pelos contadores de histórias. Essa é
mais uma denúncia, pois os causos contados estão enlameados pela
linguagem xucra não do tradicionalismo (pode até parecer, na maior
parte dos casos), mas pela maneira com que esse tradicionalismo é
trabalhado pela divisão de classes. São os poderosos que se apropriam
da linguagem crioula, adonando-se assim dos festejos e dos rituais
cívicos, já que esses são reiterações de poder. Mas isso é desmascarado
nas bordas dessa vivência, no bordel onde se desenrola o capítulo mais
impressionante - quando há orgasmo e assassinato, pederastia e sedução,
gargalhada e escândalo. É ali, neste capítulo feito de fogo, espinha
dorsal por onde o leitor pode montar com segurança para sentir a fúria
do animal em que o romance se transforma, que Tailor Diniz alcança o
perfil raro desse espécime em extinção, o grande romancista, que por
algum tempo foi colocado no passado, mas que sobrevive porque essa é
uma arte que a humanidade conquistou e jamais vai abrir mão.
TRÓIA - As falas coadjuvantes, que nos ajudam a montar no cavalo
colocado festivamente na Tróia da nossa percepção desatenta, são também
murais do tosco mundo onde vivemos. Os textos da imprensa falada e
escrita desse Brasil profundo, crivados de lugares comuns como um São
Sebastião exasperado de dor, são como barcos à deriva que cruzam as
décadas parecendo que vão afundar, mas que mantém-se à tona com todas
as suas misérias. Por não ser um catequista nem um moralista medieval,
Tailor Diniz traduz esses textos para o encanto do seu romance, que
pode ser comparado a um andor em direção às águas profundas do lago, lá
onde jaz enterrado nosso maior tesouro, o que perdemos para sempre
nesta vida ingrata.Quando o leitor se der conta, será tarde demais.
Sucumbirá diante desse artefato de cobre que acaba de esfriar depois de
uma temporada no alto forno. Ficará mudo diante do tombo preparado pelo
autor, que encarna o poder aparentemente mais frágil neste pampa
dominado pela barbárie, mas que se revela o mais afiado, o mais
profundo, o mais eficaz e o único que tem chances de permanecer: o das
criaturas que vêem com olhos livres, que sentem sem as amarras da
cultura, que observam sem participar da brutalidade e que por isso
sofrem o destino para onde foram carregadas. Essas Ana Terras viajadas,
essas índias despertas, esses garotos sem esporas. Essas flores
precárias do pampa dominado pelo esterco.
ÁRVORE - Quando desaparecerem as bandeiras, as cornetas, os
tambores e toda a tralha das lições mal apreendidas da História, este
romance vai continuar sendo árvore no deserto, a que promete sombra mas
nos banha de luz, a que promete água mas nos deixa sedentos, a que
promete morrer mas sobrevive com seus galhos torcidos, sua estrutura
perfeita e sua voz, inaudível quando não há o vento da leitura ou da
edição, mas poderosa no dia em que brotar da terra como um prenúncio de
tempestade. Para quem tiver medo diante dessa promessa, é bom lembrar
que Tailor Diniz é dono de circo, onde os palhaços atiram machados nas
costas dos outros para escandalizar os inocentes, e as bailarinas
dançam sobre o trapézio mortal apenas para marcar o ritmo da orquestra
e do trajeto da lua no rasgo da lona. O sangue que jorra também parece
ser artificial, apesar do gosto espesso, do cheiro lúgubre, e desses
corpos esquecidos de bruços e degolados até o osso. Só que no meio da
festa existe sempre uma ária cantada por um tenor anônimo, uma
orquestra de câmara com violinos inverossímeis e um apresentador
sóbrio, elegante, prudente, impiedoso e irônico, que jamais vai nos
dizer o quanto sofreu ou viveu antes de estar aqui, diante de nós,
comandando o espetáculo

