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O GATILHO DO TEXTO
Published: May 27, 2005 - 10:01 PM
Nei DuclósQuem acampou na chuva, quem tem apenas um fósforo e está só, no ermo, quem tenta tirar faísca de madeira verde, quem não consegue fazer uma pequena chama, que dirá uma labareda, sabe o deslumbramento que é um raio depois de horas de nuvens carregadas. Como a natureza pode fazer corisco apenas com água suspensa? Se houve alguém que um dia tentou chegar na primeira chispa, deve ter desistido muitas vezes, depois de uma vida vendo o fogo quando não esperava e longe do incêndio quando mais queria. Ele sentou-se numa pedra numa tarde em que se prenunciava a tempestade e notou o susto de uma veia saltada de néon no azulão escuro do céu. Só um milagre poderia ensinar alguma coisa sobre esse mistério. Assim também acontece no texto.
ESQUELETO - Acumular histórias, informações, falas, não faz de ninguém um escritor. O que faz de nós um escritor é o gatilho do texto, a faísca que bota fogo na montanha de coisas que juntamos, o grude que garante a massa, quando tudo finalmente faz sentido. Comparo o resultado dessa faísca que gera vida com um esqueleto imantado. O bruto está no meio da sala de anatomia e os meninos bocejam. De repente ele dança o twist e pára. Um dos alunos vê e se aproxima. Os outros continuam na sesta da indiferença. Então o garoto chega perto e é sugado pelos ossos do sujeito exposto. O aluno é a informação, o detalhe, o dado, a declaração. O esqueleto imantado é a narrativa. Ele atrai a inocência com prazer e a faz parte de si. Os outros continuam indiferentes quando então descobrem que algo acontece na figura que toma conta do recinto, e correm o risco então de serem também sugados pelo imã. O encantamento provocado por um texto vem dessa junção de criaturas dispersas, que acabam formando algo único.
Vi esses dias uma reportagem na TV sobre pescadores do nordeste. O personagem entrevistado, velho pescador de Fortaleza, falava em vento misturado, do nordeste e sul ao mesmo tempo, e era debochado constatemente pelo repórter (eles nunca falham). Foi a fagulha que faltava para a história que eu guardava num canto de mim, do vigia do mar. Descobri naquele instante que a mudança contínua era o universo de quem estava sempre dependendo das águas para viver, e quem não participava daquele mundo não conseguia entender esse redemoinho. Fiquei meses com a narrativa em potencial. Mas foi aquele clarão que juntou as peças dispersas.
BARCA - O talento dorme dentro de nós como Deus na barca. Lá fora, a tempestade. Entramos em pânico, vamos afundar. Despertamos então aquele que nem toma conhecimento do nosso susto. Ele se levanta, se equilibra na precária superfície e faz um gesto. As nuvens se dissipam e ressurge o dia. Ele então pergunta por nossa fé. Onde estava a fé quando a barra pesou? Essa pequena e deslumbrante explicação de Alan Kardec para um trecho do Evangelho serve para nos revelar o segredo. Acredite que vai conseguir. Carregue-se. De repente, o céu se ilumina com um clarão. É tua alma que implodiu diante do sagrado. Você atingiu a forja dos deuses.
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