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O GOL EXTREMO DE ALEX
Published: May 17, 2005 - 12:10 AM
Nei Duclós
Futebol é ficção. Isso não quer dizer que
seja irreal. Pelé, por exemplo, é um personagem, e nada mais real do
que o Rei. Sempre relembro, a meu modo, e com minhas imagens e
conclusões, o que os outros descreveram com suas certezas. Ou imagino,
como qualquer torcedor comum, campeonatos que nunca existiram, jogadas
inverossímeis, campanhas memoráveis que não saíram do quarto do sonho.
Um lance tem me perseguido nos últimos dias, parecido com tantos
outros, mas único nos seus desdobramentos. Trata-se do momento decisivo
de um campeonato. Os times não interessam. O certo é que Alex está
parado, exausto, no último segundo do jogo empatado, pronto para bater
uma falta com barreira. Ele deixará o desfecho a cargo do destino, a
bola.
PROFECIA - Noto que Alex toma impulso arqueando os
dois cotovelos. Sempre faz isso e agora fará como nunca. Mas antes
deixem-me falar de seus músculos transfigurados pelo cansaço e o suor.
As pernas já não lhe obedecem e ele fica numa posição parecida com
aqueles que teimam em ir para certo lugar mas o corpo insiste em tomar
outra direção. Apenas vislumbro esse gesto potencial, pois ele está
imóvel, de cabeça baixa, mas com os olhos superpostos, saindo das
órbitas, que é o jeito de os visionários enxergarem o invisível. Ele
sabe que não pode mais confiar na sua inteligência, derrubada pela
tensão de inúmeros toques que não tiveram repercussão merecida, passes
que conseguiram colocar atacantes cara a cara com o gol mas não
cumpriram a profecia das arquibancadas, que sempre se antecipam a favor
da sorte. Alex sabe, nesse instante supremo, que também não poderá
contar com sua precisão de gênio, pois o pé certamente não vai chegar
no impulso certo para conseguir o que ele gostaria que acontecesse. Sua
única saída é acreditar que a bola, ao ser tocada pela graça do seu
chute, poderá tomar vida própria, como aconteceu tantas vezes. A bola,
logo que é colocada em jogo, aprende rápido que deve se dirigir às
goleiras, mas há vários caminhos possíveis. Sua ferramenta mais
conhecida para chegar a essa conclusão é o cruzamento em diagonal, já
que as paralelas são um passe monótono e burocrático da zaga para
atrair atacantes e assim abrir um claro no meio do campo. A diagonal é
a transmutação da linha reta que sonha com o círculo e por isso corta
caminhos e vira jogos com extrema competência. Mas Alex não pensa nisso
nem em nada parecido. Ele desistiu de pensar e quer que a bola tome o
seu lugar.
SURPRESA - O goleiro, do lado de lá da
barreira, não vê Alex, que não tem altura para se sobressair naquela
distância. Pressente apenas que o chute virá como uma visita surpresa e
poderá chegar em qualquer canto, de qualquer direção e em qualquer
velocidade. Prepara-se e confia também na sorte, porque nenhum
treinamento poderá prepará-lo para o que virá a seguir. O goleiro sabe
que a bola alcança a velocidade da luz e no momento em que o pé do
atacante tocar na criança, ela já estará ao alcance dele, goleiro, ou
então se perderá pela linha de fundo ou beijará a rede. Alex conhece
aquele goleiro e prefere apostar que não poderá surpreendê-lo, pois
esse adversário deve estar preparado. Por isso puxa os cotovelos,
coloca um pé atrás e com o outro firma a coluna que vai segurar o
templo do chute. O pé recuado então viaja pela perna em movimento e
quando chega perto da bola entrega-se para não mais ter outra chance. O
pé desiste de chutar quando decisivamente chuta. Por isso o lance
parece, no início, que não irá acontecer de verdade. Mas o pé de Alex,
o jogador que desistiu de pensar nesse instante extremo, serve de
faísca para a bola que enfim arranca em direção ao nada. A bola adquire
vida própria e projeta-se por cima da barreira como se quisesse atingir
as cabines de rádio, como se quisesse pipocar no meio do caos popular,
como se quisesse também desistir do que lhe deram de bandeja e que ela
jamais poderá recusar. Depois do chute, Alex vira-se para o lado, como
se estivesse saindo em direção ao vestiário. Estava entregue e o jogo
terminara. Nem tinha forças para decidir o campeonato nos penaltys. Não
arriscaria seus companheiros e toda aquela torcida.
PÂNICO
- Mas a bola sabe que não tem impulso para cruzar a linha de fundo.
Tomou altura demais e vê-se no pânico da descida. O goleiro troca de
pernas para adivinhar o canto que ela vai decidir a partida e esse
segundo é a sua perdição. Pois a bola, acompanhando a loucura da
jogada, desfaz-se em vácuo tomando um túnel que algo construiu em
torno, talvez a expectativa do público, talvez a ansiedade dos
jogadores, talvez o terror dos telespectadores, que estão longe demais
para acompanhar todos os cacos daquela ruína de tempo. A bola desiste
de ir longe, mas também não permite que acabe encaixada num goleiro
qualquer de um time qualquer. Ela precisa mostrar que recebeu o toque
como um presente e que poderá desembrulhá-lo antes que digam acabou.
Ela, que gosta de quicar na frente dos goleiros para impressionar a
crônica esportiva com ilusões, como a do morrinho artilheiro, prepara
agora o gesto final. E descamba, como um armário, como o segundo Gilmar
diante de uma falta batida pelo Neto no Maracanã, como um saco de
batatas que se espatifa. Só que o impulso inicial tinha levado a bola
longe demais. Por isso ela lambe o travessão e faz aquele chiado
horrível para os goleiros, o do roçar imperdoável na rede. A bola então
jaz no fundo do gol como um objeto sem vida. E Alex, que chegou a virar
o pescoço para ver onde a bola tinha se enfiado, levanta apenas um
braço antes que a torcida, que estava muda, comece a levantar-se como o
Mar Vermelho diante de Moisés. Foi assim que vi essa jogada nesses
dias. Algo que nunca existiu ou existirá, talvez. Mas serve para me
dizer o quanto o futebol é apenas linguagem e que a inteligência
suprema dos jogadores exige que os jornalistas estejam à altura do jogo
que os sustenta, do futebol que os transcende, do grito que expressa a
glória que ninguém nos tira.

