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O JORNALISMO COMO ESCOLA
Published: Jun 04, 2005 - 10:50 PM
Nei Duclós
Se você assumir todas as tarefas do
jornalismo, da pauta ao fechamento, da reportagem à edição, da coluna à
primeira página, do caderno cultural ao noticiário político, da nota ao
caderno especial, você está apto a colocar todo esse conhecimento não
apenas nos redutos da notícia, mas em todo o espectro da comunicação.
Não há melhor aprendizado, por ser completo, árduo e complicado.
UM RIO EM NOSSA VIDA
– O jornalismo, como eu entendo e tive a oportunidade de me envolver, é
uma formação humanista completa, pois aprofunda os princípios clássicos
da convivência humana. É preciso ética, seriedade, talento e suor. É um
trabalho de equipe, que depende do repasse contínuo de conhecimentos,
pois a difusão do que se aprende viabiliza o trabalho e a sobrevivência
de todos. Não faz sentido, portanto, uma redação dividida pela vaidade
ou o oportunismo. Compartilhar é o verbo principal de um grupo de
pessoas que se dedica a refletir, descobrir, prospectar e intervir na
realidade. Para que ocorra a formação completa do jornalista numa
redação, deve-se garantir o fluxo das funções, o rodízio de cargos, a
comunhão de interesses, a admiração mútua, a crítica fundamentada,
baseada em tudo o que a experiência formata não só no presente, como a
herança de gerações passadas, que deixaram seu rastro de luz em
inumeráveis trabalhos. Por mais complexa que seja a atividade
jornalística, ela obedece a alguns vetores principais que garantem o
bom funcionamento e a desenvoltura das redações. É assim em todos os
setores: o rádio ainda define muita coisa na televisão e as revistas e
jornais ainda seguem o que foi formatado há tempos, apesar das
modernizações e mudanças.
A divisão por setores do noticiário,
os editoriais entre as primeiras páginas, a manchete principal, os
cabeçalhos, a seção de cartas, o espaço nobre das grandes reportagens
(cada vez mais raras) são definições que cruzam os tempos, significando
que a herança, longe de ser uma velharia, é uma garantia da
continuidade de soluções que funcionam. Por isso insisto tanto em
linhagem no jornalismo, aquele rio de talento e experiência que passa
pelo jornalismo ao longo do tempo e beneficia as novas gerações, que
antes ou durante o desenvolvimento do seu trabalho, entram em contato
com o que há de melhor do que foi feito antes deles.
SÍNTESE
- É obrigação do jornalista veterano repassar o que sabe para quem está
chegando. Não se deve deitar na experiência, nem vender caro suas
lições. O fundamental é a transparência desse processo, para que haja
recepção completa e retorno dos mais jovens. Ao mesmo tempo, o veterano
acaba aprendendo muito nessa sintonia, porque a meninada sempre traz
muita bagagem boa e não apenas entusiasmo ou inexperiência. Dar atenção
a quem chega é também um ato de humildade: reconhecer que o sabido é um
presente de quem estava ali quando chegamos, e que nunca se sabe o
suficiente, já que o aprendizado é para todos, o tempo todo. No fundo,
as coisas mais importantes são as mais simples, mas a simplicidade é
uma síntese que demanda muita reflexão.
Depurar a experiência
num conjunto de claro de informações sobre o exercício profissional não
deve ser motivo de exposição numa vitrina, mas um acervo exposto ao
aprimoramento. A partir disso, quando mais nos aprofundamos nas tarefas
jornalísticas, mais poderemos intervir em outras áreas. Numa assessoria
de imprensa, por exemplo, fazer o serviço focado na informação e no
atendimento ao que os leitores precisam é algo que trazemos do
jornalismo. No marketing, a sobriedade do jornalismo serve de
contraponto ao que a divulgação traz de superficial ou oportunista. A
redação de artigos na comunicação empresarial bebe no que o trabalho
dos editorialistas tem de melhor. Numa editora, a formatação de livros
pode obedecer (não obrigatoriamente) ao que a criatividade desenvolvida
numa redação soube ensinar. E assim por diante.
OS MESTRES
- Com Mino Carta aprendi como fazer uma revista a partir do ponto zero,
entre muitas outras coisas. Com Tarso de Castro, do que é capaz um
caderno cultural e o que pode-se conseguir apostando em pessoas
desconhecidas. Com Macedo Miranda, Filho, aprendi a editar textos de
revista. Com Hélio Nascimento, o clássico crítico de cinema de Porto
Alegre, a profundidade possível de se alcançar em poucas linhas de
resenha. Com Wagner Carelli, a força da imaginação e das idéias
próprias. Com Reginaldo Fortuna, a importância do cruzamento entre o
clássico e o moderno, não só no departamento de arte, mas também na
redação e na fotografia. Com Samuel Wainer, a adaptação veloz dos
recursos escassos ao que se pretende transmitir. Com Cláudio Abramo, a
dignidade de um diretor de redação, o poder da ética e a capacidade de
um veículo impor-se pela postura do seu conteúdo. Com Múcio Borges da
Fonseca, a necessidade de planejar uma edição sem abrir mão da emoção
de trabalhar. Com Caco Barcellos, o despreendimento da coragem, um
atributo pessoal que nele adquire uma intensidade que nem de longe
podemos sonhar. Com Leonid Strelaiev, a fidelidade total ao talento a
serviço da revelação – o que é nele não um ornamento, mas um princípio
de vida, que leva radicalmente até o fim, coisa que também não ouso
chegar perto, mas que me serve como parâmetro. De todos eles, recebi,
como a praia recebe o mar. E a partir desse ponto, procuro devolver às
águas da nossa profissão tudo que aprendi, só pelo prazer de ver os
navios partirem novamente, em direção ao infinito.
O CÍRCULO DA EDIÇÃO
- Definir o perfil de uma edição significa implantar um sistema
circular, onde a matéria de capa "pauta" o que vem a seguir, costura a
maioria das páginas, desdobra-se em combinações afins, cruza
referências para complementar leituras e consegue assim impacto e
profundidade. As havaianas que estão na capa e foram reproduzidas como
um selo ao longo da edição da Carta Capital desta semana são um exemplo
dessa arquitetura, que apresenta-se com a lógica de uma construção, sem
cair na redundância comum das edições feitas sem planejamento.
COERÊNCIA
- Para conseguir esse resultado, é preciso que a equipe esteja
sintonizada, mas não é só isso. Há mágica também, pois o que poderia
ser apresentado de maneira dispersa, é colado de propósito pelo diretor
de redação e os editores. É claro que há a previsão de que essa é a
abordagem adotada, mas acontece também a incrível coerência da edição,
que ao estocar inúmeros vetores, deságua no fechamento impondo-se com
uma síntese que parecia oculta no início do trabalho. Nesta Carta
Capital número 269, o foco é a má distribuição de renda do Brasil,
onde um pé de havaiana de pobre faz par com outra, de milionário. O apartheid
social e financeiro rebate na cobertura do encontro do FMI no Brasil, e
encontra farto material teórico na deslumbrante entrevista mediúnica de
Karl Marx. Tudo faz sentido quando há rigor e, neste caso, engajamento:
o lado do jornalista é o da fidelidade aos fatos e a realidade
brasileira é explícita na sua injustiça diária e violenta. Não há como
fugir do sol, que atravessa a peneira. A edição aprofunda-se na
coerência ao exigir também seriedade na edição de livros, quando José
onofre, o texto maior, garimpa ouro ao falar sobre O Verão em Baden-Baden,
de Leonid Tsípkin (que eu desconhecia). A fragilidade das estrelas do
entretenimento, a falta de competência nos transplantes de órgãos e
tecidos e o perigo do alcoolismo funcionam assim como complemento (sem
ficar em segundo plano) do vetor escolhido para costurar a edição.
É
preciso determinação e competência para conseguir esse tipo de
resultado, que ao longo das edições torna-se cada vez mais apurado. Por
isso uma reunião de pauta é um encontro de decisões coletivas, de
combinações prévias, de reflexão, e não apenas uma operação
tapa-buraco. O espaço a ser ocupado nas páginas que ainda estão em
branco é uma responsabilidade muito grande para ser deixado ao vento do
que se entende por notícia. Ou à deriva de interesses maiores,
interferências que surgem de fora do jornalismo. A excelência do ofício
é a medida de todas as coisas.
Comments
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Anonymous
Jul 19, 2005 |
Re: O JORNALISMO COMO ESCOLA
Ok Nei Ducls Obrigado a Internet por permitir este reencontro em nossas vidas, nossos rios que afluiram, confluiram e se separaram rumo ao mar e esse resgate de passado, presente e projeo de futuro. Um abrao Walter Galvani |
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Anonymous
Jul 19, 2005 |
Re: O JORNALISMO COMO ESCOLA
importante reencontrar Walter Galvani, meu primeiro diretor de redao, que na Folha da Tarde da Caldas Junior, em 1970, me integrou a uma equipe primorosa, da qual guardo as melhores recordaes da minha vida profissional. Abs. do Nei Ducls. |

