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O PLANETA É FILHO DA AMÉRICA
Published: Jun 11, 2007 - 06:02 AM
Nei Duclós
O mais brilhante e perverso lance de marketing político da atualidade é Uma verdade inconveniente,
o documentário de Al Gore que levou o Oscar. Brilhante porque Al Gore
se coloca no miolo dos acontecimentos, assume a postura de protagonista
de uma luta que parece ser a favor da Terra, mas é simplesmente uma
poderosa campanha de esclarecimento anti-Bush – e, de quebra,
anti-outros candidatos democratas, como a ex-primeira dama Hillary
Clinton, que já está a campo de olho nas próximas eleições
presidenciais.
E brilhante porque, ao usar o prestígio, o alcance e a duração do cinema, consegue ser convincente. Seu acervo são os insights da
cultura acumulada da comunidade científica para, num tom didático,
explicar porque devemos nos preocupar com o aquecimento global. Isso
torna o documentário (uma longa conferência com recursos da multimídia)
também perverso, ainda mais porque fica evidente a apropriação de
soluções que, no fundo, não dizem respeito a todos os povos, mas sim
aos votos que ele precisa para chegar onde quer, a Casa Branca.
De
cara, na primeira cena, Al Gore se apresenta como o ex-futuro
presidente americano. Isso atrai simpatia para quem venceu a eleição e
não levou, quando a família Bush deu aquele golpe de estado que
desgraçou o mundo, via contagem fajuta de votos, como denunciou Michael
Moore em Fahrenheit 9/11. Seu objetivo é retirar o ex dessa
constatação. Na seqüência, ele usa as pesquisas científicas para
colocar todos os ovos na mesma cesta, sua campanha política. Os
cientistas citados, na maioria, são “friends of mine”. Ele é o amigo
dos cientistas, portanto irmão da verdade. E se transforma também em
irmão da virtude, pois compara o planeta a um filho que corre risco de
vida (e não de morte, porque morte não corre risco).
O
planeta é como o filho atropelado, que precisa de atenção total e de
cuidados. A metáfora é contundente: Al Gore usa o exemplo do próprio
filho, que sofreu um acidente grave aos seis anos. A virtude também se
expressa na saga familiar. Ele teve a manha de ir até a fazenda onde
foi criado para mostrar que os pais deixaram de plantar tabaco, ou
seja, de ajudar a produzir cigarros, que provocam câncer, segundo
estudos divulgados a partir de 1964. Sua irmã mais velha, que fumava,
morreu dessa doença. O episódio familiar serve para ilustrar a
necessidade de mudar os hábitos, não mais de maneira lenta, mas de
forma urgente.
O que ocorre no planeta ferido
pela emissão de gases da revolução industrial, que exibe inúmeras
chagas de seu estado de coma, desde o furacão Katrina (empoderado pelas
águas do mar aquecidas) até a execrável Pequim, megalópole envolta em
gases de carvão (talvez seja por isso que tem tanto chinês espalhado
pelo mundo: eles tornaram seu país insuportável)? Acontece que os
Estados Unidos são o principal suspeito do crime, pois consome mais do
que todo mundo. Os americanos estão cavando seu próprio túmulo e
precisam acordar enquanto é tempo. Para isso, é preciso despertar as
consciências.
Onde estão estes formadores de
opinião? Em terras americanas, claro. Gore se dirige a todos os povos
do mundo que escolheram os Estados Unidos para viver. É para esse
público que dirige sua campanha. Ele precisa de todos os votos e o
aquecimento global é um tema que pode galvanizar qualquer pessoa, de
qualquer origem. Sua argumentação atinge o catastrofismo bem
fundamentado. Seu lance mais significativo é a possibilidade de o
monumento às Torres Gêmeas aniquiladas pelo terrorismo serem inundadas.
Aí ele toca no coração da América: a luta de Bush contra o terrorismo
fica assim inundada por um problema maior e na maré alta desse problema
está bem acomodado o próprio Al Gore.
Ao longo
do filme, aparecem Bush pai e Bush filho nos seus gestos e palavras
aterradores. Aparece também o desfecho da campanha presidencial, em que
todos tiveram que engolir o texano bruto, que perdeu a eleição por cem
mil votos (a mesma diferença que deu a vitória a Kennedy sobre Nixon).
Esse é o tema do documentário, que expõe o auto-centrismo da mente do
candidato. É só verificar o papel que nos cabe no imbróglio: o Brasil
jamais é citado, é apresentado como uma massa de terra e de plantas
ameaçadas pelo fogo (tem mais vermelho nas regiões fora da floresta
amazônica do que dentro dela, pois é irrelevante ser preciso, o
importante é mostrar como somos queimadores de árvores).
A
Argentina, ao contrário, é citada, assim como a Índia. Quando Al Gore
se refere ao local onde nos encontramos, ele fala em continentes.
Quando aborda a Índia, cita o país. Não somos um país. Somos uma porção
do planeta que, no concerto internacional das nações, vai cumprir seu
destino de plantation, pois Al Gore prega o combustível verde, o
biodiesel, para se opor aos negócios da família Bush, o petróleo.
Podemos
imaginar o que vai nos restar se Al Gore for eleito: seremos uma enorme
plantação de cana, de norte a sul, de leste a oeste, como se costumava
dizer nos anos 40 e 50 (já estamos avançados nesse processo, mas vai
piorar). Aqui não existe uma nação. Os americanos reconhecem a
existência da Argentina, que não lhe faz sombra, mas tenta ignorar o
império brasileiro, a grande nação de vasto território arável, com
enormes reservas de água e de outros recursos naturais. A receita de Al
Gore é: me elejam presidente, que trarei álcool do Brasil para acabar
com a grana do petróleo. Ou seja, seremos o próximo Oriente Médio.
A
revista The Economist lamentou a derrota para Bush, em recente
editorial em que comenta o documentário. O documentário fez a cabeça
dos formadores de opinião. Agora só restam alguns obstáculos, como os
outros candidatos democratas, para chegar ao poder. Então poderá se
apresentar como o futuro presidente americano. Seus problemas vão
acabar.
Um detalhe importante: toda a luta
científica contra o aquecimento global é essencialmente americana, na
sua visão. Ele mesmo soube do assunto nos anos 70, graças a seus
professores. Seus amigos cientistas são todos, ou quase todos, da
América. Quem falou primeiro que a Terra é azul? Yuri Gagarin, foram os
soviéticos, que nem são citados. O que pega na sua conferência são as
fotos das missões Apolo. Mas ele tem o cuidado de citar a bomba
atômica, exemplo da tecnologia a serviço da guerra, quase que como um
catástrofe natural, como os furacões. A bomba sobre duas cidades
superpopulosas do Japão, o massacre de centenas de milhares de pessoas
desarmadas, nem sequer foi lembrada como obra americana. Daqui a pouco
vão dizer que a bomba é coisa de brasileiro.

