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O POUSO INTRANQUILO
Published: Oct 10, 2005 - 05:38 PM
A Terra dos longos olhares (Editora Holoedro), organizado pela professora Lucia Silva e Silva, da Uergs, reúne contos, crônicas, poemas e até um minidicionário, de 30 autores de Uruguaiana, um trabalho que revela a força, a diversidade e o alcance da literatura gerada pelos nascidos naquela fronteira.
LUCIDEZ - Em dois textos de apresentação, um na orelha e outro no prólogo, a professora Lucia Silva e Silva nos brinda com lúcida intervenção. Diz, primeiro, que nesta época de desenraizamento (ela prefere o termo globalização), estamos vivendo um resgate de origens, que contraria a tendência anterior, quando precisávamos ganhar o mundo. Com isso justifica o lançamento: "Juntar escritos de conterrâneos em um livro, mais do que um simples encontro, é pactuar pela sobrevivência de valores cujo desaparecimento nos atemoriza. É lançar a pedra fundamental de um lugar aonde podemos voltar". E, depois, ao justificar o título do livro, ela nota que a campanha gaúcha nos leva a aguçar o olhar, "na maioria das vezes sem interrupções, sem a oportunidade de pouso tranqüilo". É preciso destacar a radicalidade dos textos, sobre temas como sexo, humor, violência, destino, infância.
O Tempo, essa traição constante, é o insumo que alimenta a fábrica da palavra no livro. O Tempo, matéria-prima não maleável, não se conforma às intenções dos autores, mas por intermédio deles mostra algumas garras. O livro é uma chance de enxergarmos o que realmente fazemos com verbo que nos foi confiado e que em nossas vidas ganhou caminhos diversos, opostos, mas que insistem em se identificar (ou se excluir) mutuamente.
FORMAÇÃO - "O importante não é o lugar de onde viemos", me disse um dia Tabajara Ruas (um dos autores do livro, com o conto No Sul, há muito tempo). "Mas para onde estamos nos dirigindo". Aparentemente, somos escritores ligados por uma formação em comum, procurando exercer os valores que nos criaram, que crescem de importância à medida em que o Brasil vai sendo sucateado. O apelo dessa raiz é forte, mas o livro aponta, felizmente, para a extrema diversidade. Não podemos ser colocados na vala comum de uma confraria, já que somos agentes e vítimas da dispersão promovida pelo Tempo. No texto que enviei para fazer parte do livro, O dia de prata no meio do mato, reconheço que é impossível resgatar a vivência, do menino que fui, com meu pai, que se foi. A representação dessa descoberta é o peixe que escapa para sempre, logo depois de parecer estar solenemente fisgado. Tínhamos o Tempo, o Passado, nas mãos, mas ele se foi e se despediu.
O que fica dessa busca? A revelação brutal do Outro, que somos nós. A morte, velório e enterro de Selene, a prima que foi criada depois de ser abandonada pela mãe e entregue pelo pai, no conto premiado de Vera Ione Molina, Passagem, é essa revelação da estranheza em relação ao semelhante. A prima veio de outro ventre, cresceu junto à família, onde foi excluída pela avó, rebelou-se aos 16 anos, abriu caminho do seu jeito e agora está morta, diante do choro dos amigos e parentes. Quem é essa criatura que não nos acostumamos a ver sempre a Mesma, mas que nos colocou diante do enigma que é o humano fora do circo doméstico e que é adotada como um corpo estranho?
TIRO - Essa cerzidura perfeita em suas minúcias no conto de Vera nos abre a porta para entender todo o livro. Ricardo Peró Job publica, mais do que um conto sobre a guerra, exatamente esse olhar sobre o Mesmo que se torna o Outro. O filho do bolicheiro, tão reconhecível pela convivência na infância, hoje será punido por deserção. O próprio narrador é escolhido para participar do desenlance. Nós somos os assassinos do que parece ser idêntico a nós, somos forçados a ver o que nos recusamos ver e a tomar uma atitude. O que estava encoberto pela superfície do hábito emerge como um tiro de fuzil. Quem é essa menina doce que descreve o desespero da avó afastada do seu leque precioso no conto Objeto de Desejo, de Silvio Genro? Ela é a algoz num jogo mortal com sua vítima. Não é uma criança qualquer, é o Terror sob a capa da falsa harmonia.
O Pânico diante do semelhante, o estranhamento levado às últimas conseqüências, está em Arremesso de Peso, de Túlio Urach, em que o humano é virado do avesso para revelar as vísceras.O que parecia ser um atleta é um monstro. Situações que confundem os protagonistas, como em Quente & frio, de Francisco Alves ( onde dois assaltantes são ludibriados por suas certezas) servem para revelar a frágil superfície das percepções viciadas. O pacto sinistro, no conto Encruzilhada, de Ricardo Duarte, e a desmistificação das aparências, em Olha que coisa mais linda mais cheia de graça, de Fernando Pereira a Silva, aprofundam essa pesquisa sobre os semelhantes, para detectar neles o inóspito, o inaudito, o não visto. O amor, em Duarte, e o tesão, em Fernando, são passaportes para que a estranheza enfim aporte na cidade que parece ser sempre igual.
ÂNCORA - Esse encontro no escuro, em que as cenas ficam à mostra por alguns instantes (os momentos da leitura), não elimina a existência de algumas âncoras. Se estamos no mesmo barco, onde pipocam flashes sobre o inusitado, é preciso que alguém cuide do porão, do remo, do combustível. Disso se encarrega Daniel Fanti, autor de admirável obra sobre a História da cidade e que nos leva pelas balsas do rio Uruguai por meio de um personagem que dedicou a vida ao jogo bruto do extrativismo e do transporte pelas águas. Ou Lourival de Araújo Gonçalves, com seu minidicionário de uruguaianês. E principalmente um outsider, Hique Gomes, filho de uruguaianense, que vai atrás do que se escondia por trás de uma canção de Bebeto Alves (também presente na antologia com algumas Canções) e descobre o silêncio como fonte da milonga. Ou ainda Luiz Flodoardo Silva Pinto, sobre a relação do missioneiro com a fronteira e Pedro Grassi, sobre visitantes ilustres
IDENTIFICAÇÃO E ESTRANHAMENTO - No sul, há muito tempo, de Tabajara Ruas, é exemplar do que procuro dizer sobre esta publicação, que nos leva, como toda fronteira, até o limite entre o que estamos acostumados a ver e ser e o que nos espera na dobra de uma esquina ou na curva do tempo. De que trata o conto do Taba? De uma perseguição. Um cavaleiro vindo de longe pergunta por um fugitivo. As pessoas consultadas despistam e ele se vai. Mas o procurado está no meio de quem negou a identidade do foragido. Ou seja, existe uma comunidade, gerada pela guerra, identificada como uma tropa, e situada no fim do mundo. O general a paisana chega sem ninguém saber quem é. É uma identidade oculta, que provoca estranhamento. Está buscando uma pessoa para tratar dos cavalos usados na luta. Mas essa pessoa está amarrada, pronta para morrer, só que o estranho não sabe quem ele é.
O rastreador procura um índio, e o prisioneiro do posto militar é também um índio. Os dois são a mesma pessoa, mas o perseguidor não sabe disso e acaba indo embora, deixando a vítima para ser esfolada e perdendo assim a chance de conseguir o que procura. É um feixe de identidades ocultas, que se retorcem em cenas de estranhamento: visitante x acampados, índios x soldados, rastreador x fugitivo, militar fardado x militar a paisana. Em poucas páginas, Taba reúne o principal conflito de uma fronteira: identificação x estranhamento.
PASSEIO - O casal de Passeio no povo, de Colmar Duarte, vai no mesmo rastro. O peão que ajuda a moça pobre e torna-se seu amante descobre que há um outro, que o ataca numa tocaia. Ele quer contar a verdade para o capataz e justifica-se dizendo que jamais falou mentiras. Mas quem vai ouvir sua história é o irmão do outro, que acabou assassinado. onde colocar a verdade, o que fazer com a coragem, tão familiares e que acabam se defrontando com uma situação de total estranhamento? O atacante que erra pênaltis em Sibila o instrumento..., de Elder Oliveira, por ser ruim de bola, não faz parte da confraria do futebol. Os torcedores querem enviá-lo para jogar rugby. Em O visitante ilustre, de Genaro Alfano, o paisagista de Napoleão, Alexandre Bonpland tenta se refugiar no Brasil, mas não é aceito, e acaba indo para o outro lado da fronteira. Pessoas de fora, insumo principal dos habitantes da fronteira, são a encarnação do estranhamento que chega de longe e não é compreendido.
ALEGORIAS - No poema Vida, Luis Humberto Janceski tece um lamento pela biografia não realizada plenamente, ou seja, pela perda da identidade ("Minha vida é certa/ mas está errada"). A vida normal, aceita, certinha, não serve ao poeta. Ele é o estranho de si mesmo. A busca de uma identificação encontra, em Rubens Montardo Junior, a relação a dois. Para ele, todo verso é o último, e o amor é a intensidade que falta a essa vida normal. Nas canções de Bebeto Alves, personagens como o sambista naval ou o louco Loló trazem para a fronteira, território do estranhamento, as pessoas não codificadas pela mesmice e que batizam a terra com outras alegorias. Em Ubirajara Raffo Constant, a homenagem ao carpinteiro Alípio é o reconhecimento da arte de um ancião que faz ponte com a infância.
A identificação entre as duas pontas do tempo é feita pela arte, um ofício à margem, mas que forma consciência, caráter e inventa escritores. Há segredos no espelho de Tukano Neto, mas eles não podem ser revelados. Amor, tragédia, sonho: não há o que mencionar neste silêncio forçado, imposto pela mesmice e contra o qual o poeta se rebela. A saudade, tanto em Tukano Neto quanto em Rafael Gomes, é o tempo cobrando a conta da vida que se esvai na normalidade e que fustiga a emoção e o gosto jamais saciado da aventura.
SOLIDÃO - A contrição de poetas urbanos, que sofrem diante da tradição do movimento e da luta, faz parte desse universo confinado, dividido entre normalidade e ruptura, entre ausência e fantasia. onéu Prati Molina procura trazer a figura do poeta para essa vida igual em tudo, para que possa explodir. Marina Coello aposta na ternura feminina para contrapor-se a essa parede que cerca a palavra, enquanto Luiz de Miranda, que neste 2005 chega aos gloriosos 60 anos de idade, nos brinda com uma Pequena elegia do abandono, onde prefere a solidão à companhia fria. Miranda quer ficar sozinho se não houver esperança de encontro. De sua coragem deixai-me que lhes diga: é um poeta único, que luta todos os dias por uma vida fora das garras, das correntes.
Carlos Omar Villela Gomes, ao lembrar Dos que se foram, dá o testemunho dos parentes mortos, e convoca a ressurreição. A poesia da fronteira, assim, tece a vida paralela, a que poderia ter sido, banhada de impossibilidades, mas que alimenta o sonho par enfrentar a dura rotina diária. É uma alternativa à identificação dos hábitos e uma proposta de estranhamento por meio da palavra emocionada.
A professora Lucia dá o crédito devido a Vera Ione Molina e Ricardo Peró Job, que além de fazer parte dos autores reunidos no livro, lideraram os trabalhos. Por último, mas não menos importante: as fotos da capa são todas de Anderson Petroceli, o fotógrafo maior da fronteira. O entardecer no pampa e no rio, e o dia claro, dividido entre rebanho e nuvem, convidam o leitor para esta viagem gratificante.
Comments
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Anonymous
Oct 15, 2005 |
Re: O POUSO INTRANQILO
Nei, teu ensaio sobre o livro A terra dos longos olhares mostra um entendimento que somente algum com a vivncia de homem da fronteira poderia ter. Esta vivncia, aliada a tua inteligncia e cultura, torna o ensaio definitivo |
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Anonymous
Oct 15, 2005 |
Re: O POUSO INTRANQILO
Em teu ensaio sobre A terra dos longos olhares, s potico, como no poderias deixar de ser, desde o ttulo. Dedicaste um comentrio a cada um dos participantes, muitos deles iniciando no ofcio de escrever. Somos gratos e orgulhosos por nos colocares a ns, aqui do pampa, muitos ainda escrevendo com papel e caneta, no mundo internutico, num ensaio do mais alto nvel literrio. |
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Anonymous
Oct 16, 2005 |
Re: O POUSO INTRANQILO
Os estreantes, Vera, esto altura do nvel exigido na antologia e esto muito bem acompanhados pelos que possuem significativa bagagem literria, como o teu caso. Com esse material, possvel contribuir como uma anlise a partir do que os textos sugerem e revelam. Abs. Nei |

