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O QUE É O RIO GRANDE DO SUL?
Published: Sep 18, 2007 - 04:54 PM
Nei Duclós
Parece ser impossível imaginar o Rio Grande do Sul fora
dos lugares comuns. Todos falam a mesma coisa e esquecem o principal.
Agora vem o Jabor dizer que no lugar de coqueiros o Rio Grande tem
pinheiros, que é uma árvore típica do Paraná. É como eu digo: para quem
não é de lá, tudo abaixo do rio Pinheiros é Porto Alegre. Jabor também
diz que temos frio e vento e não calor. Não há lugar mais quente do que
o Rio Grande do Sul no verão, que além disso possui 700 quilômetros de
praia. Então como é que fica?
EUROPINHA - A
frescura mais recorrente sobre o estado onde nasci e me criei é que ele
é uma espécie de Europa em miniatura. Como ninguém quer ser brasileiro
e todos, absolutamente todos, possuem “sangue” de europeus, russos ou
sei lá quem mais, tudo o que o Brasil possui teria sido feito por povos
fora daqui. Vi recentemente uma propaganda colocando o mérito do
desenvolvimento de São Paulo nos italianos. Aliás, em São Paulo sobra
italiano. Todos possuem dupla cidadania, ou seja, são italianos de
fato. Quem construiu São Paulo foram os brasileiros, e nessa categoria
incluem-se os que se acham europeus ou asiáticos. No Rio Grande do Sul
a mesma coisa: vasta população negra e mestiça, já tendo inclusive um
governador negro (Alceu Collares), aquele é um estado feito pela mão
xucra do Brasil. Mão que acolhe os estrangeiros e lhes dá guarida, e
que constrói a riqueza do Estado, mas dessa riqueza não compartilha
como deveria. Pois o mérito do fazer fica fora da sua alçada. Como só
alemães e italianos são operosos (e só eles existem, especialmente nas
materinhas da televisão, que só abordam esse aspecto do Rio Grande do
Sul, mostrando a minoria loura como se fosse toda a população gaúcha),
o que sobra para os brasileiros é a fama de vagabundos, párias,
fracassados. O Rio Grande do Sul é composto basicamente de descendentes
de indígenas, misturados com negros e brancos. A minoria loura, que
tinha suas próprias escolas, num gueto horroso até a segunda guerra
mundial, levou um tranco de Getulio Vargas, que acabou com o
pangermanismo e as escolas fascistas. Colocou tudo nos devidos eixos,
bem brasileiros.
RAÇA - Um dia um padre metido a
doutor em genealogia foi visitar Getulio e se oferecer para fazer a
árvore genealógica do novo presidente. “Não faça isso”, advertiu
Getulio. “No Brasil, toda raiz familiar acaba na senzala ou na aldeia
indígena.” E soltou uma gargalhada. O especialista saiu ressabiado.
Tinha levado uma lição e não sabemos se entendeu o recado: o de que
pertencemos ao que Gilberto Freyre definiu como uma meta-raça. Como o
ser humano não é cavalo e não pode portanto ser dividido entre
asiáticos, caucasianos e hispânicos; como somos todos seres culturais e
não raciais, nossa identidade vem do gesto, do comportamento, da
entonação, da formação. Jamais do “sangue”. Sangue-bom é expressão
nazista. Outro equivoco é enfocar o gaúcho fantasiado pelos CTGs como
se fosse o gaúcho autentico. Nunca se aborda o gaúcho urbano, o da
periferia ou o verdadeiro gaúcho rural. Este, gosta de músicas como a
guarânia, a música sertaneja, o chamame argentino. Não fica apenas
cantando gauchadas. No Fantástico, uma saraivada de asneiras foram
veiculadas sobre o que cada estado acha do outro. O gaúcho por exemplo,
se acharia “macho”, mas os outros o acham “machista”. E aí aparece um
povo-fala de alguém de Porto Alegre dizendo: “É, eles não cuidam das
mulheres deles.” Tipo de matéria feita pra reforçar preconceito. Com
tanta mulher no Rio Grande do Sul, como pode uma população inteira se
achar macho? A parcela homossexual da população no Estado também não
pode ser enquadrada nesse tipo de rótulo. Sobra o quê? Os amorosos pais
de família, as crianças, os idosos. Todos machos, machistas? Dá para
entender o alcance da besteira?
DIVERSIDADE - O
Rio Grande do Sul, como o resto do Brasil, não é para amadores, como
diria Tom Jobim. A criatura mais internacional e anti-machista que
conheci chama-se Caio Fernando Abreu, de Santiago do Boqueirão, cidade
situada bem no miolo do Rio Grande. Descendente de mexicanos,
italianos, índios e portugueses, jamais me senti outra coisa do que
brasileiro. O gauchismo, da maneira como é colocado por essa invenção
dos anos 50, os CTGs, é algo discutível. É um movimento folclórico
importante, mas não serve para definir todo o ethos do Estado. Mario
Quintana se intitulava riograndese, jamais gaúcho. Quem é de lá, tem o
direito à diversidade. Que o Brasil saiba disso e o Jabor pense um
pouco antes de escrever sobre os gaúchos. Não somos “diferentes” do
resto do Brasil: somos exatamente iguais, já que somos brasileiros.
Nossa diversidade interna, como em qualquer outro Estado, precisa ser
vista e entendida.

