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O QUE MOLHA E NÃO É ÁGUA
Published: Feb 07, 2007 - 02:25 PM
Nei Duclós
Vida vidinha é assim: há tanto Deus, que Deus transborda. Acaba
virando fonte, que são as chances oferecidas por Adélia Prado à visita
do gentio (os que não fazem parte do seu universo). O leitor vai da
sala para o fogão, do quintal para o enterro, da reza para a
imprecação. É a comunhão com criaturas que se fartam de religião e
vivem na solidão de seus pecados, indizíveis. Adélia Prado rompeu esse
silêncio com sua poesia única, que impregnou a literatura do que mais
lhe faltava: a mulher mesmo, e não o apêndice lírico do devaneio
noturno. Hoje fica fácil enxergar o que uma brasileira sabe sobre Deus
e o mundo, já lemos e relemos Adélia Prado. É o que se pode dizer uma
poesia clássica: voltamos a ela sempre que perdemos o rumo da
nacionalidade. A poeta nos traz de volta ao Brasil profundo, não o que
a geografia ou a História mostra, mas o que um corpo sábio experimenta.
Esse humano tão real parece inventado. Como pode uma ditadura tão
longa acabar com a visita do casal de compadres, cercado de filhos, aos
domingos? Não foi o tempo que fez esse estrago, foi a política e sua
companheira sinistra, a economia. Arrebentaram com a família, não
porque ela tinha mesmo que morrer devido às modernidades, mas porque
foi feito tudo de propósito. Para começar, não há mais calçadas. Como
crianças poderiam brincar em calçadas em visitas dominicais se tudo é
tomado pela sujeira, o barulho e a violência? Também as casas que
duravam gerações sumiram. Hoje é feio imaginar uma casa assim tão
antiga, a não ser que seja para a exibir recauchutada em revista de
moda como exemplo de reciclagem politicamente correta.
Casas antigas, daquelas que tinham retratos ovais de homens e
mulheres de rostos sérios, de bebês sorridentes com topete em cima, são
difíceis de encontrar. Não é saudade que nos move em direção a esse
país desinventado, mas desconforto. Destruímos o país mas ficaram as
ruínas, onde está a poeta com sua palavra no ermo. Seu tema seriam as
inúteis e sagradas paisagens pastoris e de subúrbio que cercam as
pessoas de cama, mesa e fogão? Difícil enquadrar a poeta, que roda pela
palavra com a circunavegação das sílabas em forma perfeita ("a poesia é
pura compaixão"), a palavra sem a beleza compactuada, maravilhosa como
a cigarra que se gruda na árvore e tem vidro moído no peito. Tudo isso
ela faz sem pose, sem forçar a barra. Tudo soa natural porque há um rio
profundo nesse encontro primal entre a criadora e sua obra.
O que molha e não é água é o amor, que ela coloca no altar, acima de
Deus, que pode se manifestar na cozinha. O amor é o luxo que desembesta
a vidinha. O sentimento faz a vida ter sentido e mesmo que tudo seja só
rotina, quando há amor, mesmo esmigalhado por manifestações externas
brutas, há esperança e eternidade. Um recado simples proporcionado pela
intensa elaboração do ser antes da poesia, do talento antes de escolher
o poema, da inventora antes de saber-se escritora ou imaginar-se real
com o livro posto.
Vida doida, de Adélia Prado (Alegoria, 78 pgs.), com ilustrações de
Ana Viola, que faz parte da coleção Palavra e Arte, é sobre a alegria
convivendo com a dor: doida, doída. É uma antologia que nos resgata o
melhor da poeta e abre as portas para uma visita aos seus supremos
redutos.

