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O SERÃO DE BRÁS CUBAS
Published: May 30, 2005 - 09:55 PM
Nei Duclós
O filme de André Klotzel baseado em
Machado de Assis transforma as memórias póstumas do anti-herói numa
sessão de slides, num álbum de fotografias, narrado por um anfitrião
brechtiano, que desdramatiza a própria vida pela técnica do
distanciamento, usada de maneira igualmente magistral em outro clássico
do cinema brasileiro, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de
Andrade. Como nos serões antigos, o objetivo aparente é entreter, mas o
resultado é cinema de primeira água, inspirado na máxima machadiana:
“matamos o tempo, o tempo nos enterra”.
APARÊNCIAS - O Brasil é um milagre cultural. Memórias Póstumas de Brás Cubas
tem tudo de “anti-cinema” – o oposto do cinema americano. É narrado o
tempo todo, os diálogos vestem a camisa-de-força do velho romantismo,
os personagens não trabalham nem movem montanhas, apenas nascem e
morrem, enquanto passam a vida numa modorra de sesta. Ou seja, não há,
aparentemente, “ação”. À parte isso, é absolutamente deslumbrante. Não
pela sucessão de imagens maravilhosas, pelo figurino caprichado, pela
contenção dramática – e nisso os atores todos são perfeitos, desde
Reginaldo Farias, o defunto narrador, até Sonia Braga, a amante cara,
uma atriz de presença sempre marcante nos filmes brasileiros e
totalmente desperdiçada nos estrangeiros, que a submeteram a papéis
ridículos ditados pelo preconceito.
O filme é primoroso porque inventa sua própria ação, promovida pela autocrítica, pelo desabafo, pelo alívio de não fazer parte dos vivos. O país que exclui a todos é o país excluído. Aceitar o abandono é libertar-se. Livre de qualquer injunção do movimento, Brás Cubas volta-se para seu próprio nariz e faz uma pesquisa minuciosa do seu corpo, que denuncia o frio mortal, a palidez, o sufoco. Sua visão antropológica encara cada parte do corpo como um personagem: as mãos, no ritual litúrgico do humanitismo de Quincas Borba; as pernas, que decidem levá-lo para longe; o andar coxo da adolescente, marca da desgraça e de mais exclusão.
Nesse
mural humano, a coletividade se identifica pela contrafação. As partes
originais do corpo são substituídas por suas representações - roupas e
outras aparências: as botas francesas, os coletes, os casacos, as
jóias, os penteados, as costeletas. E por efeito dominó, os cargos, a
oratória, a pompa. Tudo isso deságua na melancolia incurável, que
obriga Brás Cubas a ter a idéia fixa do emplasto que irá salvar a si e
ao resto da humanidade da qual faz parte.
MATO CERRADO
- O filme aborda a indiferença como segunda natureza de uma nação em
desuso, composta de ruínas, de ruas sujas e paredes feias, de escravos
por toda a parte, de ostentação como verniz da miséria. A radiografia
de Machado serve ainda para nosso tempo, afirma cinematograficamente
Klotzel. Somos indiferentes profissionais, daí a ciclotimia. Ou ficamos
eufóricos, ou melancólicos. Não há normalidade no país, apenas a
prorrogação da sesta e a véspera do escândalo. Esse é o perfil que
Sergio Buarque de Holanda batizou de cordialidade, ou seja, o
comportamento ditado pelo coração.
A falta de solidez no trópico úmido, onde um vento encanado mata em pleno verão, reflete-se na nossa cultura totalmente à mercê do que vem de fora. Brás Cubas, o filme, recupera essa visão crítica num clima de vigília, aquele estado intermediário entre o despertar e o sono, porta de entrada para a magia, as visões, os mundos paralelos, conforme ensinou Juan Mattus para Carlos Araña Castañeda. Nos movimentamos em mundos inventados para não despertar totalmente.
O filme assim, sem pretensão de ser
vanguarda, utiliza metodologia inovadora para, didaticamente, encher a
paciência do caro espectador. A toda hora, o narrador lembra que
estamos na poltrona, acomodados, imóveis. É a nossa imobilidade que se
projeta no filme, que nos devolve uma obra que é um desfile de
fantasias, pontuado pela competência rigorosa de um cineasta maior, que
dirige grandes atores. Estes, concentram a verdadeira ação do filme: o
da arte como desbravadora da consciência.

