O SOPRO SEM NOME
dez 18th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: LivrosNei Duclós
Dar nome às coisas é esconder a identidade original do que é nomeado, a que existia antes do batismo. Essa face reconhecível se transforma em mistério pela distância que tomamos da criação, pelo tempo transcorrido desde o primeiro vínculo. Não temos como reencontrá-la, pois a perdemos ao trocá-la pelo seu nome. No fundo, substituímos o que queríamos decifrar pelo uso cômodo de uma palavra, que acaba apagando a memória da origem.
A palavra vira uma criatura à parte, não só pelo esquecimento do que a gerou, mas porque provou o gosto de ser fonte de si mesma, fora daquilo que foi nomeado pela primeira vez. Tornar-se matriz é a tentação da palavra que jamais revela o que é realmente, pois estará sempre se referindo a algo que, em tese, está fora de si (o que nos transmite a ilusão de compreendermos o objeto que aponta). Feita de camadas superpostas como papéis esquecidos no parapeito da janela, a palavra espera o sopro da poesia para poder decifrar-se. Em vão. O poema é emissário de um criador e não basta que se desfaça o monturo onde se escondem as traças da revelação.
O embaralhamento é outra composição dessas peles que se empilham, e também ele torna-se um ser de consistência diversa. Sinal de que a palavra perde a batalha de nomear o que a poesia insufla em suas flautas de ossatura e mármore. Nessa arena, o poeta ou sucumbe à armadura dos significados ou pula no abismo. Se pular, sua poesia será o grito antes da queda. Esse grito é o fio em que é possível tecer uma rede (o livro), uma voz (composta pela entonação lúcida da própria escassez) e uma presença (o estilo esculpido no espaço de uma vida).
Fabricio Carpinejar escolhe um momento posterior à queda em seu livro dois-em-um, Como no Céu e Livro de Visitas, lançado pela Bertrand Brasil. Não percorre mais o trajeto de buscar o avesso das coisas retransmitidas no espelho da palavra. Ele cuida do que é jogado fora, para que o espólio do sótão seja a arqueologia que reinventa os cômodos ainda vivos. Sua poesia não busca a praça usada pela convivência em conflito, mas a cruza de uma só vez para lamentar a travessia sem sentido.
A biografia dessas ruínas veste como um terno em dia de missa, mas suja os sapatos polidos para participar da briga no quintal barrento da igreja. A infância que desponta disso é uma crueldade, e a vida conjugal é um cruzamento de merendas jogadas como arsenais de uma batalha perdida. A precisão com que demole cada momento da vida vista pela normalidade (essa evolução temporal de biologias datadas) serve de modelo para um brinquedo cruel: o de desarmar o relógio precioso da família para expor-lhe as vísceras e assim denunciar a inexistência de mecanismos.
É arriscado esse jogo porque as palavras parecem dançar ao sabor de cada verso, como se nada tivessem com o poeta que sopra nessa rua ainda vazia, mas potencialmente sedutora para a alma criança dos leitores. É apenas um jogo, dirão as autoridades, e se ocuparão de outras coisas, deixando que as sobras da família, os loucos, os agregados, as velhas tias, as crianças esfoladas se reúnam para seguir a pista do som que vem de fora do círculo onde todos foram encarcerados.
Há então uma anti-celebração, já que o poeta é o primeiro a apontar em si mesmo a inapetência para explicar a sedução da melodia. Ele atrai para si a gargalhada geral para que não ouçam seu verdadeiro intento: o de jogar todo mundo nas águas do rio, para que nela afoguem os detritos das suas linguagens. A algaravia, acendida pelo mago que surge de uma outra cidade, aos poucos vai cedendo como a turba que encontra enfim o alimento que procura. Mas o pote está vazio e a casca do dia quebra como um vaso de flores jogado da sacada.
É quando o leitor se revolta contra as regras impostas do jogo. Não era o circo que estava passando? Não eram as celebridades que acenavam? Não era a fama que exibia sua fortuna? Ou era só um velho que rangia os ossos, um marido que mudava de residência, uma luz no corredor para driblar o escuro? Não era o exibicionismo de uma arte? Ou era apenas uma borboleta que guardava dentro de si uma abelha, o vento que fisgava uma figura torta, a roupa do varal que batia na cara de um menino? Então era isso o sonoro passeio do flautista que prometia o encantamento?Por que fomos atrás do cortejo, agora que a noite chega e estamos ainda no meio do rio?
Ao nosso redor, escombros de coisas não nomeadas nos rondam com seu ranger de dentes. Fomos enganados e o poeta fecha a porta na nossa cara como quem faz uma visita. Boa noite, diz ele, e o sol sobe no horizonte como um cachorro pula do chão para a janela, quando busca comida no lugar onde havia apenas papel sujo.
Sorte de quem está na rua, que vê em plena liberdade as folhas soltas que tinham nascido para serem grampeadas. É o momento então de cada passante ser reconduzido ao primeiro ato de criação, o de dar nome ao que é de novo revelado.