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O VENDEDOR DE CERCAS
Published: Aug 19, 2007 - 10:22 AM
Nei Duclós
Preciso contar a história de Lê, o vendedor de cercas. Quem me
lembrou dele foi a mulher que reencontrei e que estava brigada comigo.
Ela, ou eu, tinha aprontado algo que não consigo identificar, já que
tudo isso me foi soprado num sonho (o que não significa que seja
invenção minha). Brigamos depois de nos dizer algumas coisas. Era um
assunto relacionado, talvez, ao comportamento profissional em
determinada situação, que não me agradara.
Possivelmente
uma reportagem mal costurada, um atraso na entrega da matéria.
Desavenças comuns neste ofício complicado. Quantas vezes levei duras de
chefes de qualquer gênero? Mas, insisto, era tudo um sonho, e nada
tinha a ver com meus ruídos reais (pelo menos eu acreditava nisso).
Parece que ela aceitou, relutante, as críticas, e foi-se embora, não
sem antes virar para mim e me falar de Lê, o vendedor de cercas.
“Ele
era muito seu amigo”, me disse, quase num tom de censura por eu não
recordar de ninguém que tivesse um nome parecido ou estivesse envolvido
com tão estranha ocupação. Ela se referira a Lê na primeira vez em que
nos falamos nesse reencontro desastroso. Mas eu não prestei atenção. Só
depois, quando pronunciou a palavra amigo, me veio subitamente a visão
de alguém que estava confinado numa profissão que não lhe dizia
respeito. Uma pessoa interessada em literatura e que lera alguns
clássicos que eu ignorava.
Meu desconhecimento
em relação a autores obrigatórios fez com que Lê gastasse seu latim por
um bom tempo em bares perdidos de periferias ocupadas por essas
gigantescas empresas de comunicação, que se recolhem longe dos bairros
habitáveis para economizar e fazer sofrer seus jornalistas.
Talvez
Lê fosse uma daquelas pessoas que puxaram conversa comigo quando eu
tomava uns rebites em pleno fechamento. Uma cachacinha nordestina, uma
cerveja gelada, tudo para esquecer a obrigação de fazer títulos, ler
textos alheios, aturar chefes, cumprir prazos. Lê viu que eu não estava
satisfeito e veio me falar de coisas que a princípio me pareceram
interessantes, ou seja, estavam fora do meu circuito medíocre de
jornalismo metido a besta.
Ele me falava de
grandes alambrados, cercas gigantescas que precisavam ser levantadas
para cercar latifúndios ou então pequenas propriedades prósperas
assustadas com o avanço da miséria e da violência. Isso começou a
acontecer, acredito, nos anos 80, há muito tempo, portanto. Era o
início da avalanche que tomou conta do país e Lê era o cara certo no
momento certo. Costumava ser convocado em todos os cantos. Paulista da
Mooca, adquiriu vários sotaques para se adaptar às exigências dos
compradores e poder assim repassar alguma credibilidade.
Quem
compra precisa acreditar no vendedor. Se Lê falasse um bom gauchês
avançado, tornava-se irresistível, principalmente nas novas fronteiras,
onde proprietários de terra subsidiados passavam do acampamento para a
roça bem fornida. O vendedor de cercas assim fazia a mala, mas algo
faltava dentro de si. Faltava gente com quem conversar sobre sua
secreta paixão, a literatura.
Eu estava aberto a
confidências, já que sempre vivi isolado, apesar de morar numa
profissão dedicada ao evento, ao bafafá, à vitrine. Eu me recolhia como
no primeiro ano do Jardim da Infância, que chamaram depois de
pré-primário. Quieto, longe dos colegas, voltado para a parede, eu
vivia no mundo ao qual me acostumara dentro de casa. Fiquei assim a
vida toda, apesar de me violentar escolhendo uma profissão exatamente
contrária a mim.
Foi por isso talvez que fugi
tanto de empregos e cidades. Queria ficar longe, no pátio, onde
levantávamos um CTG de madeira velha, de caixote e lá fazíamos os
churrascos dominicais. Mas essa solidão e recolhimento tinham um preço.
Precisava compartilhar, falar sobre o que via e lia. Poderia ser Lê ou
qualquer outra pessoa. Eu queria mesmo era conversar com gente de
verdade, longe de redações atulhadas de inúteis iguais a mim.
Fiz
assim uma amizade profunda em algumas biroscas que eu e Lê dividíamos.
Ele confessava que jamais poderia largar seu bem remunerado emprego,
que lhe proporcionava condições de comprar livros antigos, aqueles
grandes, de letras redondas e margens infinitas. Lamentava não saber
russo para ler Tolstoi e Tchecov no original. Prefiria as traduções
antigas, de escritores brasileiros, do que estas mais recentes, a cargo
de tecnocratas da linguagem. Preferia que os russos passassem antes
pela suavidade do francês e só daí para a nossa língua, como acontecia
antigamente. Havia também o encanto de edições dos anos 40, 50 ou 60 a
exibirem aquele ranço lusitano que o Pasquim, a partir de 1969, demoliu.
Lê,
o vendedor de cercas, era muito meu amigo. Mas como sou um ingrato e
deixo pessoas como deixo cidades, tinha me esquecido completamente
dele. Foi preciso que num sonho, alguém que eu desconhecia
completamente e que me contrariara em alguma coisa, me avivasse a
memória. Qual seria a ligação entre a mulher do sonho e Lê, o vendedor
de cercas? Teriam filhos? Por que, em vez de brigar, não fiz perguntas,
como qualquer criatura humana faria? Lê estaria no Exterior, em países
remotos, da África ou Ásia, levantando alambrados? Ela o estaria
esperando em algum porto? Lê aprendera, enfim, o russo? Estivera
naquela parada onde Tolstoi sentou-se fugido da família, com mais de 80
anos de idade? Teria Lê escrito algum livro?
Cada
personagem é um mistério. Esse me escapou, por eu ser tão distraído.
Mesmo que eu volte àqueles bares da periferia, não poderia
reencontrá-lo. Lê deve estar aposentado, conversando com escritores
fugidos, na Jamaica ou em Bornéu. Ou estaria na vala comum de nosso
amplo território, flagrado por um tiro de tocaia, por um inconformado
proprietário que não gostou do serviço, ou de um vizinho que reclamava
das medidas, das balizas, do material usado? Jamais saberemos. Só mesmo
um sonho para trazê-lo de volta. Assim mesmo por um instante só, como
quem lê um título.

