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ONDE NÃO HÁ ESPAÇO, HÁ ROMÁRIO
Published: May 23, 2005 - 10:27 AM
Nei Duclós
Não importa o tamanho do país. Importa
quanto espaço existe nele para se viver. A posse folgada do território
por parte do privilégio confina a maior parte do povo aos limites
impostos ao menino Romário. Nessa escassez o grande craque inventou sua
arte. Não se trata de sistemas decimais de metragem. Mas de
possibilidades que a rua clandestina, o terreno derrubado para a
estrada, o muro que rouba o calçamento oferecem para que o corpo possa
driblar o limite e encontrar um caminho na área cercada de zagueiros
ferozes. Para peitar essa barra, é preciso chamar a si a
responsabilidade. E foi isso o que aconteceu. Em 1994, quando a nação
estava erma de vitórias, depois de uma década perdida em fracassos
sucessivos, veio de longe, do outro lado do mundo, curado de uma
fratura nas pernas, o cara que tirou o país do atoleiro das certezas e
inaugurou a dúvida, ou seja, a chance de um salto bem sucedido no
abismo. Não havia espaço para nada: estávamos por um fio no jogo
decisivo das eliminatórias. Havia apenas Romário. E isso bastou para
que o grande país se reconciliasse com seu destino.
CHUTE
- Foi nesse momento, quando perdíamos a esperança de participar na Copa
dos Estados Unidos, no último jogo contra o Uruguai, que o grande
craque disse: vamos nos classificar e vamos ganhar a copa. Foi a única
promessa cumprida feita por um homem público no Brasil do final do
século. Quando ele rompeu com o Fluminense e preparava-se para
despedir-se dos jogos internacionais com um amistoso contra o México em
Los Angeles dia 8 de novembro, Romário novamente chamou para si a
responsabilidade. Declarou-se o maior depois de Pelé. Ronaldo Fenômeno
deveria ter aprendido algo na sua vida e calado a boca. No lugar de dar
uma resposta malcriada, de menino que não reconhece a liderança e
superioridade de quem o precedeu (e o ajudou no início de carreira),
deveria ter aplaudido. Foi preciso que Romário dissesse o óbvio para
que caíssem em cima dele. Mas ninguém dirá por ele. Assim como ninguém
arriscava nossa classificação em 94, como ninguém acreditava que a
teimosia retranqueira de Parreira fosse dar frutos naquela Copa.
Romário mudou Parreira para sempre e transformou-o num vencedor. Chamou
o jogo para si e levou de trambolhão os adversários, compôs tabelas
primorosas com Bebeto, homenageou com os quadris que se retiravam da
reta o chute direto e salvador de Branco, e veio enrolado na bandeira
da Pátria num momento em que estávamos feridos pelas traições da
política e da economia e com o sucateamento crescente (que enfim se
realizou) do futebol brasileiro. Romário carregou o Brasil nas costas.
Estava no lugar certo naquela cabeçada contra os holandeses. Provou que
a altura não interfere no futebol, apesar das insistências dos
comentaristas que ficam medindo o tamanho dos zagueiros para provar
alguma coisa, como se futebol fosse basquete.
PONTARIA -
Romário não tem altura, não tem corpo de craque, possui pernas
levemente tortas, herança talvez de uma infância sem proteínas
suficientes. Suas armas são as posições que toma em campo, a
inteligência com que acompanha e arma as jogadas, a pontaria mortal de
suas investidas, o senso de oportunidade, a liberdade para inventar
latifúndios virtuais em cubículos sem ventilação. O que mais incomoda
no genial craque é que ele esnobou a riqueza, deixou de lado a grana
dos gringos para voltar a morar no Rio de Janeiro. É preciso fazer uma
leitura desse seu ferrenho nacionalismo. A copa nos Estados Unidos é
fruto da opção feita por Pelé, que ensinou os gringos a jogar e
tornou-se um mito movido a dólares (o que não lhe tira a glória de ser
o Rei). Naquele campeonato, poderíamos ter falhado, dando certificado
seguro para nos retirar do pódio definitivamente. Tivemos até a
oportunidade de cair aos pés de nossos alunos, os gringos ruins de
bola. Mas vencemos por um apertado um a zero e fomos em frente. Romário
trouxe da terra americana a libertação do imaginário nacional do
futebol campeão do mundo. Deixou os espanhóis furiosos porque não
queria mais sair da praia. E, para quem é humano, por que abandonar o
azul do mar, o cheiro de maresia, a areia branca e fofa, os corpos
embalados pela divindade? Por que optar pela neve, pelo cofre, pela
correria em campo? O mar, espaço infinito sem cercas ou sesmarias, é a
melhor representação do sonho de quem superou as limitações físicas da
geometria e da classe social.
DOMÍNIO - Romário
posta-se na área como um predador. Não há espaço para jogo nenhum. A
retranca triunfa. Mas a bola é aliada e resolver quicar na área, meio
assim de graça. Caem em cima dela todos os jogadores do mundo. Romário
apenas pensa e sai com a bola dominada, que já está no fundo do gol.
Não havia espaço para coisa nenhuma. Havia, portanto, Romário. Vida
longa ao herói da Pátria.
Comments
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Anonymous
Feb 24, 2006 |
Re: ONDE NO H ESPAO, H ROMRIO
ONDE NO H ESPAO, H ROMRIO. Que bom que a gente ainda encontre textos como esse( to politicamente incorretos) para ler, porque o deserto grande... e a crnica esportiva em geral de doer de ruim.Danuza Leo citou Romrio como exemplo de autencidade,gostei. E mais ainda do que acabei de ler agora. Raquel |

