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OS LIMITES DO HUMANO SÃO A SUA TRANSCENDÊNCIA
Published: Nov 11, 2007 - 03:32 PM
Nei Duclós
Não existe nada mais datado e morto do que enxergar-se como a
coisinha de Jesus que todos precisam admirar. Dostoievski e Kafka
atingiram a permanência ao compor uma literatura que devassa nosso
esqueleto. Pode ser que apenas repassaram para a literatura o que a
ciência estava descobrindo, mas com isso deram a chave para virar de
pernas para o ar a pressão conservadora de olharmos admirados nossos
eleitos (nesta época de comodistas de traseiros presos, nós mesmos).
Esses autores destituíram a humanidade do pedestal que costuma
refazer-se em cada geração, já que somos tabula rasa e precisamos de um
esforço supremo para alcançar o mesmo patamar de gerações anteriores, e
só depois disso tentar superá-las.
Claro que inverteram tudo: a desconstrução dos mitos cristalizou-se.
Agora o espírito conservador cinzelou em mármore o que ele entende por
modernidade e lá vamos nós de novo em regressão absoluta. Só se atinge
a transcendência com a visão clara dos nossos limites. Não adianta
perguntar ao espelho viciado em você quem é o rei da cocada preta, que
ele responderá o óbvio. O truque é mirar-se na diferença e pela
diferença sintonizar-se com o Outro. Esse encontro só é possível se
definirmos os contornos do humano que habita em nós.
Transcender não significa ser aplaudido, mas habitar uma das moradas
eternas (algumas delas são invisíveis). Também não implica
auto-esculacho, que no fundo é pura vaidade, isca para o reconhecimento
alheio, que se for puxa-saco o suficiente, irá discordar, a não ser que
você viva no Brasil.
Aqui, toda autocrítica é levada a sério. Nunca diga, nem murmurando:
como sou idiota! Todos irão sacudir afirmativamente a cabeça. Você é
mesmo esse asno auto-punitivo. Definir os limites não é dito aqui no
sentido pedagógico-babaca do termo: precisa dar limite para esta
criança! Falo em descobrir os contornos, saber onde nos identificamos,
onde está a fronteira que nos revela, e não a escassez que nos flagela.
Quem somos nós? Não sabemos. Mas podemos vislumbrar alguma coisa se
identificarmos onde estão as linhas que nos fazem reais. Por exemplo:
não sei perguntar, ou não sei dar a resposta a adequada, ou jamais
saltarei de para-quedas, ou subir montanha é para espécimes caprinas
peludas. Não sou pintor, mas desenhista, diz Rodolfo Mesquita na
entrevista a Urariano Mota. Aí você decide: Mesquita é um tremendo de
um artista, um desenhista único, um pintor magnífico. Ou não. Mas veio
dele algo que o define.
Ele sempre parte do desenho. Isso não é uma radiografia, um insumo
para a crítica de arte, mas exatamente a ação de definir os contornos
do humano para atingir a transcendência. Não que ele queira atingir,
mas chega lá porque deixou-se levar pela sua natureza, pela
transparência com que se enxerga, pela maneira tranqüila de se
auto-definir.
Vamos pegar outros exemplos. José Sarney se coloca como o grande
pacificador, o reinventor da democracia no Brasil. Será lembrado como o
presidente da Arena que consolidou o regime de 64. Lula diz que nunca
houve um presidente como ele. Pode ser uma profecia, mas não muito
obediente ao profeta. FHC enche de elogios o grande assassino Henry
Kissinger (conforme denúncias, o sinistro mandatário do golpe chileno
de 1973; foi também Nobel da Paz por pacificar, quá quá quá, o Oriente
Médio). FHC será lembrado como o grande pulha que entregou de bandeja o
país à sanha estrangeira em troca de alguns títulos de Honoris Causa
(certamente não foi só esse o pagamento). Uma biografia não funciona se
o objetivo for jogar confete no biografado.
Samuel Wainer entendia do riscado e passou o encargo da sua
autobiografia para o competentíssimo Augusto Nunes, que fez um primor
de texto, sem trair o jeitão do velho Samuel de contar uma história.
Samuel fazia auto-crítica, me olhando debaixo daquelas grossas
sobrancelhas brancas. Era um repórter de si mesmo.
Um escritor de verdade está sempre armado de um punhal, não apenas
para cortar as abobrinhas, mas porque tem um encontro com a morte. Ele
está preparado diante da ameaça fatal da obra morta ao nascer. Ele vive
da superação, de seu livro sobreviver a ele mesmo. Poucos conseguem.
Nascemos para virar pó do esquecimento. Mas, às vezes, um anjo nos
visita.

