PAULO JOSÉ DIANTE DO ALVO

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

Paulo José está desesperado na obra-prima Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. É solteiro e entra em parafuso com o excesso de oferta de uma civilização que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos anos 60. O­nde é a festa sábado? grita, bêbado, no bar cheio de mulheres e falsos amigos. Até que de repente, quando participava, completamente louco, de um jogo de tiro ao alvo com setas na casa lotada de gente, o­nde acontecia mais uma celebração do Nada, ele fica paralizado ao se deparar com a porta (que segurava o alvo) que se abre e dela surgir, simples, belíssima, tranqüila, Leila Diniz. A cara de espanto diante da Diferença (e da Musa que nunca mais nos abandonou), com a mão solta no ar em frente da Revelação, transforma esse instante na mais pungente cena do cinema nacional em todos os tempos. A vida fácil acabara. Surge a Encarnação, e partir dela, a Descendência.

CHOQUE – Há um detalhe revelador neste filme inesquecível. Paulo José encontra na rua alguém (desempenhado pelo próprio Domingos de Oliveira) e faz grande festa, com abraços e perguntas que sugeriam longa amizade. Depois de se despedir, perguntam: quem é? Sei lá, responde Paulo José. É a superficialidade das relações humanas, uma leveza que poderia levar ao Desencanto e ao Caos, mas que Domingos transforma em matéria-prima para uma história de amor, o amor que nasce cheio de graça, mas que cai no abismo de toda relação humana: a incompreensão mútua, a raiva, a indiferença e o arrependimento, tudo salvo mais tarde pelo amor que triunfa. Custa ao nosso herói descobrir que chegara a sua hora. Também custa entender que ele foi predestinado para aquela relação, diferente de todas as outras, baseada no encantamento total e depois, na vontade natural de ter um filho. Aquela geração estava contra a parede, transformada em painel de locuras e alegrias fajutas. O Rio dos encantos mil ainda estava de pé, mas algo muito corrupto tinha se infiltrado por todo o canto, e ninguém sabia o que realmente estava pegando.

SEMENTE- Ao resgatar uma história real, com a própria Leila Diniz, Domingos colocou a marca do seu gênio. Tudo o que era solto amarra-se na relação louca entre os dois. Surge então a verdadeira personalidade da heroína. No lugar da mulher acessível, a professora, a namorada fiel, a paixão sem resistência focada no que é duradouro. Quando Leila foi para a Índia e sumiu no ar num acidente de avião, talvez a causa tenha sido o choque entre duas culturas. Não era possível unir dois mundos paralelos que jamais se encontrariam sem uma explosão. Leila vinha de um país provisório e buscava algo na cultura milenar. Levava consigo já a semente de uma consciência maior, pois buscava inspiração não apenas no divino para enfrentar o precário, mas na profundidade que se opunha ao que é raso e passageiro. Antes de descer, ela sumiu. E para sempre ficou, imortalizada neste filme sem igual. Não vejo outro modo de me conformar com a tragédia.

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