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PAULO JOSÉ DIANTE DO ALVO
Published: May 23, 2005 - 10:49 PM
Nei Duclós
Paulo José está desesperado na obra-prima Todas as Mulheres do Mundo,
de Domingos de Oliveira. É solteiro e entra em parafuso com o excesso
de oferta de uma civilização que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos
anos 60. Onde é a festa sábado? grita, bêbado, no bar cheio de
mulheres e falsos amigos. Até que de repente, quando participava,
completamente louco, de um jogo de tiro ao alvo com setas na casa
lotada de gente, onde acontecia mais uma celebração do Nada, ele fica
paralizado ao se deparar com a porta (que segurava o alvo) que se abre
e dela surgir, simples, belíssima, tranqüila, Leila Diniz. A cara de
espanto diante da Diferença (e da Musa que nunca mais nos abandonou),
com a mão solta no ar em frente da Revelação, transforma esse instante
na mais pungente cena do cinema nacional em todos os tempos. A vida
fácil acabara. Surge a Encarnação, e partir dela, a Descendência.
CHOQUE
- Há um detalhe revelador neste filme inesquecível. Paulo José encontra
na rua alguém (desempenhado pelo próprio Domingos de Oliveira) e faz
grande festa, com abraços e perguntas que sugeriam longa amizade.
Depois de se despedir, perguntam: quem é? Sei lá, responde Paulo José.
É a superficialidade das relações humanas, uma leveza que poderia levar
ao Desencanto e ao Caos, mas que Domingos transforma em matéria-prima
para uma história de amor, o amor que nasce cheio de graça, mas que cai
no abismo de toda relação humana: a incompreensão mútua, a raiva, a
indiferença e o arrependimento, tudo salvo mais tarde pelo amor que
triunfa. Custa ao nosso herói descobrir que chegara a sua hora. Também
custa entender que ele foi predestinado para aquela relação, diferente
de todas as outras, baseada no encantamento total e depois, na vontade
natural de ter um filho. Aquela geração estava contra a parede,
transformada em painel de locuras e alegrias fajutas. O Rio dos
encantos mil ainda estava de pé, mas algo muito corrupto tinha se
infiltrado por todo o canto, e ninguém sabia o que realmente estava
pegando.
SEMENTE- Ao resgatar uma história real, com a própria
Leila Diniz, Domingos colocou a marca do seu gênio. Tudo o que era
solto amarra-se na relação louca entre os dois. Surge então a
verdadeira personalidade da heroína. No lugar da mulher acessível, a
professora, a namorada fiel, a paixão sem resistência focada no que é
duradouro. Quando Leila foi para a Índia e sumiu no ar num acidente de
avião, talvez a causa tenha sido o choque entre duas culturas. Não era
possível unir dois mundos paralelos que jamais se encontrariam sem uma
explosão. Leila vinha de um país provisório e buscava algo na cultura
milenar. Levava consigo já a semente de uma consciência maior, pois
buscava inspiração não apenas no divino para enfrentar o precário, mas
na profundidade que se opunha ao que é raso e passageiro. Antes de
descer, ela sumiu. E para sempre ficou, imortalizada neste filme sem
igual. Não vejo outro modo de me conformar com a tragédia.

